Desafios da Seca no Brasil e no Mundo: Diretrizes da COP17
O fenômeno da seca está se intensificando e se tornando uma preocupação global, e é exatamente por isso que será um dos pontos centrais da 17ª Conferência das Nações Unidas de Combate à Desertificação (COP17), marcada para iniciar na próxima segunda-feira, 17 de julho, em Ulaanbaatar, Mongólia. A delegação brasileira vai para o encontro com um recado claro: é preciso reforçar políticas de prevenção, monitoramento e adaptação, especialmente agora, onde todas as cinco regiões do Brasil enfrentam algum grau de seca.
O Cenário Atual da Seca no Mundo
A COP17, que se estenderá até 28 de agosto, ocorre em um contexto alarmante. Estudos apontam que a frequência e a duração das secas estão aumentando globalmente, com um crescimento de quase 30% desde o ano 2000. Esse fenômeno não se limita mais a áreas áridas; ele está alcançando regiões que antes eram consideradas menos vulneráveis, tornando-se um desafio a ser enfrentado em escala global.
Yasmine Fouad, secretária executiva da UNCCD, sublinha: “O desafio agora é agir antes que os problemas se intensifiquem.” É um recado poderoso que vai além do reconhecimento da seca como um risco; é um chamado para a ação, com soluções que evitem impactos severos em comunidades, economias e fronteiras.
A Projeção para o Futuro: O Que Esperar
As projeções são preocupantes. Até 2050, até 75% da população global poderá ser afetada pela seca, com a demanda por água superando a oferta em até 40% já em 2030. Essas estatísticas já estão fazendo eco nas discussões globais sobre gestão de recursos hídricos e resiliência às alterações climáticas.
A participação do Brasil neste debate é essencial. Desde 2024, o país integra a Aliança Internacional para a Resiliência à Seca (IDRA), um esforço colaborativo iniciado na COP27, que visa fortalecer a cooperação entre diferentes nações, promover a troca de informações e potencializar os investimentos em medidas de adaptação às secas.
Medidas Propostas para Combater a Seca:
- Monitoramento climático eficaz.
- Sistemas de alerta precoce.
- Recuperação de áreas degradadas.
- Gestão integrada dos recursos hídricos.
Consequências da Seca no Brasil
O impacto da seca nos diversos estados brasileiros já é uma realidade. De acordo com dados do Monitor de Secas, gerido pela Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA), em julho, mais de 157 municípios estavam em situação de seca severa, o que reflete redução da umidade do solo, estresse hídrico na vegetação e perdas significativas na agricultura.
José Antonio Marengo, coordenador-geral de Pesquisa e Desenvolvimento do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden), avalia que a tendência é que essa grave situação se agrave. Com menos chuvas e temperaturas mais elevadas, o descompasso entre precipitação e evaporação aumenta, o que joga a população em um ciclo de secas cada vez mais intensas.
Amazônia: O Impacto nas Comunidades Tradicionais
A seca não está se limitando ao Semiárido, uma das áreas mais vulneráveis do Brasil. Regiões que historicamente eram ricas em água, como a Amazônia, também estão sentindo os efeitos. Após secas extremamente severas em 2023 e 2024, a situação na Amazônia voltou a se agravar. O Cemaden revelou que o número de terras indígenas afetadas por secas severas saltou de três, em junho, para 17 em julho.
A situação é crítica em distritos sanitários como Alto Rio Negro e Parintins, no Amazonas, além das áreas de Kaiapó, Tocantins e Araguaia. Nos assentamentos rurais, a evolução é igualmente alarmante, com a classificação de áreas em seca extrema aumentando de duas para 44 em apenas um mês. As áreas classificadas sob seca severa aumentaram de 102 para 309, com maiores concentrações nos estados do Pará, Tocantins, Mato Grosso, Rondônia e Amazonas.
A combinação de seca e queimadas está comprometendo o modo de vida das populações tradicionais, afetando o transporte fluvial e o acesso a alimentos, medicamentos e recursos naturais. A Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira (Coiab) destaca a urgência de ações que busquem mitigar esses impactos.
A Seca em Perspectiva Global
A intensificação da seca não é um fenômeno restrito ao Brasil; diversas regiões do mundo estão enfrentando esse problema. Dados do Observatório Global da Seca indicam que a Europa teve um julho marcado por temperaturas excepcionais e uma onda de calor prolongada. Já na África, países como Sudão, Etiópia, Zâmbia e Madagascar estão lidando com as consequências das alterações climáticas. O mesmo vale para o Oriente Médio, onde o Irã e Omã sentem os impactos, e ainda regiões da Ásia, como Cazaquistão, China e Filipinas.
A seca não se limita apenas à escassez de chuvas. Temos também os efeitos da seca agrícola, que prejudica a umidade do solo necessária para o cultivo, e a seca hidrológica, que afeta a disponibilidade de água em rios, reservatórios e aquíferos, prejudicando a geração de energia e a biodiversidade.
Secas-Relâmpago e o Efeito do El Niño
Secas-relâmpago: Um Novo Desafio
Pesquisadores estão cada vez mais atentos à mudança no padrão das secas, sendo uma das preocupações os episódios de secas-relâmpago, que têm se tornado mais frequentes. Essas secas rápidas, caracterizadas pela elevação abrupta das temperaturas e pela baixa umidade do solo, podem gerar perdas em um curto espaço de tempo, aumentando o risco de incêndios.
Outro fator que agrava o cenário é o fortalecimento do El Niño, previsto entre agosto e outubro. A Organização Meteorológica Mundial (OMM) antecipa que esse fenômeno impactará os padrões de chuvas em várias regiões do planeta, incluindo o Brasil. Com isso, espera-se uma redução significativa nas precipitações nas regiões Norte, Nordeste e algumas partes do Centro-Oeste, o que eleva a vulnerabilidade a secas prolongadas e a secas-relâmpago.
Os efeitos também podem afetar a segurança alimentar. O Programa Mundial de Alimentos (PMA) estima que essa combinação de seca e El Niño poderá levar o número de pessoas em situação de insegurança alimentar aguda a subir de 225 milhões para impressionantes 275 milhões, com os principais aumentos previstos para a América Latina e sul da África.
Um Chamado à Ação na COP17
A conferência em Ulaanbaatar é uma oportunidade valiosa para redefinir as prioridades das políticas públicas relacionadas à seca. O foco deve ir além de simplesmente reagir a emergências, e sim promover discussões sobre como estabelecer mecanismos permanentes de prevenção, monitoramento, recuperação ambiental e adaptação. Isso é essencial para as populações mais vulneráveis que enfrentam as consequências diretas dessas alterações climáticas.
A participação do Brasil neste debate não poderia ser mais relevante. O avanço da seca não é apenas um desafio ambiental, mas também um tema central nas discussões sobre segurança hídrica, produção de alimentos e resiliência climática. Este é um momento crucial para que governos e comunidades trabalhem juntos na busca por soluções que priorizem a vida e a preservação do nosso planeta.
Com informações da Agência Brasil


