



Recentemente, Eric Schmidt, ex-CEO do Google, fez uma comparação entre a revolução causada pelos computadores desde a década de 80 e a atual transformação trazida pela inteligência artificial (IA). Durante sua palestra na Universidade do Arizona, em 15 de maio, ele foi recebido com vaias por aproximadamente 10 mil estudantes, que demonstraram seu temor acerca dos desafios que a IA pode impor ao mercado de trabalho. Schmidt tentou apaziguar a audiência, reconhecendo o medo presente entre os formandos, mas sua mensagem foi ofuscada pelo descontentamento que persistiu durante seus 14 minutos de discurso.
Ele não foi o único a enfrentar essa reação. A executiva Gloria Caulfield, ao falar sobre a IA como a “próxima Revolução Industrial” na Universidade da Flórida Central, foi igualmente vaiada. Jensen Huang, CEO da Nvidia, também sentiu a resistência na Universidade Carnegie Mellon quando afirmava que “não há melhor momento do que agora para começar a trabalhar”. Apesar de algumas dessas afirmações serem verdadeiras, o clima geral é de apreensão, especialmente entre os jovens. A tecnologia, que pode realizar tarefas rotineiras, tem se mostrado uma ameaça a empregos que tradicionalmente estavam nas mãos de recém-formados.
Esse sentimento de desânimo é especialmente evidente entre aqueles que estão prestes a ingressar no mercado de trabalho. “Os jovens de hoje enfrentam um cenário ansioso e desmotivador, com grande dificuldade em conseguir emprego”, observa Esther Colombini, professora de IA e robótica da Unicamp.

O impacto da automação nos cargos iniciais
Os dados confirmam tais receios. Um relatório do Fórum Econômico Mundial aponta que as contratações para cargos de entrada têm diminuído. No Brasil, um estudo do FGV Ibre revela que os jovens de 18 a 29 anos, especialmente aqueles em áreas mais suscetíveis à transformação tecnológica, têm 5% menos chance de conseguir emprego e uma renda quase 7% inferior à média de outras profissões. Os setores que mais sofrem com essa mudança são os de serviços financeiros e comunicação. Globalmente, cerca de 37% dos jovens trabalham em funções com alta exposição às transformações ocasionadas pela IA.
Em contrapartida, Carl Benedikt Frey, professor associado da Universidade de Oxford e diretor de um programa sobre o futuro do trabalho, apresenta uma perspectiva mais otimista: “Os postos de entrada não vão desaparecer completamente. As empresas ainda necessitam de uma base de talentos para formar seus futuros líderes e, por isso, terão que retomar a contratação.” Ele ressalta que a atual escassez de oportunidades também é impactada por fatores econômicos mais amplos.

Entretanto, mudanças são inegáveis. O conceito de “seniorização” está em alta. Com a IA assumindo diversas tarefas operacionais, as empresas buscam recém-formados com habilidades que antes eram exclusivas de profissionais mais experientes, como liderança, criatividade e pensamento estratégico.
Um estudo indica que funções de nível júnior mais afetadas pela IA têm até sete vezes mais chance de exigir essas competências em comparação a outras posições. Desde 2019, o número de vagas “seniorizadas” aumentou em 35%, enquanto as vagas de início diminuíram em 10%.
“Muitas organizações concluíram que não precisam de tantos jovens trabalhando para elas. Outras acreditam que, com as ferramentas de IA, podem se tornar mais eficientes rapidamente”, explica Gary Bolles, especialista em futuro do trabalho na Singularity University e autor do best-seller “The Next Rules of Work”.

IA: uma justificativa para demissões?
Os efeitos da IA não estão limitados aos cargos iniciais. Até 2026, o setor de tecnologia já registrou o maior número de demissões desde a pandemia. Empresas como Amazon, Meta e Microsoft atribuem tais cortes à adoção da IA. No entanto, indícios sugerem que boa parte das demissões não está diretamente ligada à tecnologia.
De acordo com a consultoria Forrester, nove em cada dez empresas que implementaram cortes relacionados à IA ainda não possuem sistemas suficientemente desenvolvidos para substituir as funções eliminadas. Em muitos casos, a IA tem sido usada como uma narrativa conveniente para justificar reestruturações e cortes de custos que já estavam em andamento.
Factualmente, algumas empresas que demitiram já estão recontratando, percebendo a perda de conhecimento e entendimento do negócio. A montadora Ford, por exemplo, recuperou engenheiros após notar que a IA não estava cumprindo suas expectativas.
Embora a preocupação com a perda de empregos seja legítima, é importante lembrar que toda evolução tecnológica traz alterações ao mercado de trabalho. De acordo com análises do Fórum Econômico Mundial, até 2030, 22% dos empregos estarão sujeitos a mudanças. Embora 92 milhões de postos de trabalho possam desaparecer, a previsão é que 170 milhões de novas funções sejam criadas, resultando em um saldo positivo de 78 milhões de empregos.
Porém, a questão crucial permanece: as pessoas que se beneficiarão dessas novas oportunidades nem sempre são aquelas que inicialmente perderam seus empregos. Cada revolução pede que a sociedade estabeleça mecanismos para ajudar os afetados enquanto cria um ambiente propício aos novos vencedores.
A adaptabilidade como chave do sucesso
Em níveis individuais, adaptar-se é crucial. “Use a IA para ampliar suas competências, não para terceirizar seu trabalho”, aconselha Anderson Rocha, líder do Laboratório de Inteligência Artificial (Recod.ai) da Unicamp.

Dados do Fórum Econômico Mundial indicam que 40% das habilidades exigidas no mercado laboral poderão mudar até o final da década. “A requalificação é um processo contínuo”, afirma Anthony Salcito, executivo da Coursera. Ele nota um aumento na busca por cursos relacionados à IA generativa. “A verdadeira vantagem competitiva está em ter uma força de trabalho qualificada.”
Esse fenômeno já é perceptível no processo de seleção. Pesquisadores da Universidade de Oxford descobriram que candidatos que mencionam habilidades em IA em seus currículos têm uma chance significativamente maior de serem chamados para entrevistas, sendo essas habilidades valorizadas até mais do que diplomas de instituições renomadas.
Frey ainda observa que profissionais que se adaptam rapidamente às novas tecnologias podem explorar oportunidades no mercado global. “A diminuição das barreiras de entrada, aliada à tradução automática, possibilitará que serviços profissionais se desloquem para países com custos baixos”, afirma.
Os desafios da desigualdade ampliada pela IA
Por outro lado, também existe o risco de um aumento da desigualdade. “O que poderemos observar é uma ampliação da divisão entre aqueles que possuem as capacidades e o treinamento necessários para se adaptar e se recolocar rapidamente, e aqueles que não possuem esse preparo”, alerta Rocha.
Essa desigualdade possui, ainda, um viés de gênero. Estudos revelam que mulheres utilizam menos ferramentas de IA em suas atividades e, mesmo quando as empregam, recebem menos reconhecimento. Além disso, mulheres e minorias continuam sub-representadas no desenvolvimento de sistemas de IA, aumentando a probabilidade de que essas tecnologias reproduzam preconceitos e desigualdades já existentes na sociedade. “A IA é uma construção social, não um fenômeno isolado”, enfatiza Colombini. “Mulheres tendem a ter uma percepção mais crítica dos riscos associados à IA, e muitas de suas atividades podem estar menos apoiadas por essas ferramentas.”
Empresas e o verdadeiro valor da IA
Apesar das incertezas que a tecnologia traz, as empresas buscam maneiras de tirar proveito da IA. “Caso você pense em usar a IA apenas para reduzir sua força de trabalho, você deve refletir sobre o quanto isso custa”, alerta Rocha. O verdadeiro valor da IA está em abrir mercados, criar novos serviços e soluções, e potencializar as capacidades dos colaboradores. Porém, muitas empresas ainda buscam seu caminho nesse sentido.
Ainda está em voga uma abordagem chamada tokenmaxxing, onde organizações buscam premiar aqueles que utilizam IA, mas sem resultados significativos até o momento. “O que realmente deve ser medido é: quantos problemas a IA ajuda a resolver?”, questiona Bolles. Contudo, é essencial também considerar os problemas que a IA pode gerar.
No Brasil, uma pesquisa da SAP e Oxford Economics revela que 80% dos líderes estão preocupados com o uso de ferramentas de IA externas sem a devida aprovação, gerando riscos de compliance, vazamento de dados e perda de privacidade. Esse fenômeno é conhecido como Shadow AI.
Apesar dos riscos, muitos concordam que os benefícios da IA são imensos. De acordo com um levantamento da Korn Ferry, profissionais especializados em IA podem receber salários entre 5% e 15% superiores aos de seus colegas. Entretanto, a maioria das empresas ainda não está disposta a oferecer aumento significativo devido à baixa justificativa em ganhos de produtividade que a IA trouxe até agora.
A redefinição do crescimento profissional também está em pauta. O conceito de High-Impact Individual Contributors surge como uma tendência, referindo-se a profissionais que lideram projetos de forma independente. “Se usarmos a IA para libertar as pessoas de tarefas repetitivas, podemos transformar qualquer um em um profissional de alto impacto”, afirma Bolles.
Pesquisas das universidades de Stanford e Wharton indicam que a IA pode impactar entre 20% e 60% da produtividade individual; no entanto, esse impacto nas equipes é significativamente menor, variando de 2% a 4%.
“Como a IA comete erros e precisa ser validada pela intervenção humana, os ganhos esperados de produtividade podem ser mais moderados do que muitos imaginam.”
Carl Benedikt Frey, professor da Universidade de Oxford
Uma nova colaboração entre humanos e máquinas
O futuro do trabalho não se restringirá à substituição de humanos por máquinas, mas sim à colaboração entre pessoas, sistemas de IA e automação. Essa é a projeção da consultoria McKinsey, que impacta diretamente na gestão de pessoas. “Se uma pessoa possui uma equipe de agentes trabalhando com ela, sua saída implica na partida desses agentes também”, afirma Mariana Dias, CEO da HR Tech Gupy. “A gestão do conhecimento precisará se reinventar; não pode se restringir a conexões entre pessoas, mas também incluir agentes autônomos.”
Essa nova dinâmica envolve elementos de competição e colaboração. Conforme a IA avança, a demanda por soft skills só tende a aumentar, já que habilidades emocionais, empatia e compreensão de nuances humanas continuam a ser terrenos onde a tecnologia é insuficiente. “As limitações da IA incluem a falta de empatia e a incapacidade de entender o contexto social”, diz Rocha.
Em 2013, Frey identificou três barreiras para a automação: interações sociais complexas, criatividade e capacidade de operar em ambientes não estruturados. Mais de uma década depois, essas limitações permanecem, conforme a IA generativa apenas combina conhecimentos existentes, enquanto os humanos possuem a vantagem da experimentação prática.
Em última análise, a capacidade de adaptação do ser humano permanecerá como um diferencial essencial. “Se o mundo fosse estático, a IA poderia fazer quase tudo. Mas ele está em constante transformação, e essa é a grande vantagem humana”, conclui Frey.
*Reportagem publicada na edição 143 da revista Forbes, em julho de 2026.


