Os Estados Unidos possuem, entre suas inúmeras vantagens, uma forma rara de sorte geográfica. Com o vasto Oceano Atlântico a leste e o Oceano Pacífico a oeste, o país é protegido por imensos ‘fosso’. Além disso, conta com apenas dois vizinhos, Canadá e México, ambos relativamente amigáveis. Desde o fim da Segunda Guerra Mundial, essa posição geográfica foi reforçada por um arsenal nuclear poderoso e uma força militar, econômica e tecnológica inigualável. Esses fatores contribuíram para que muitos norte-americanos se sentissem invulneráveis, mesmo após os ataques de 11 de setembro. Uma pesquisa realizada pelo Chicago Council on Global Affairs em 2024 revelou que apenas 19% dos entrevistados demonstraram preocupação com ameaças externas.
A Hora de Repensar a Segurança Nacional
No entanto, é fundamental que os norte-americanos reavaliem suas crenças. O território estadunidense nunca esteve tão vulnerável a ataques como atualmente. Potências como China, Rússia e Coreia do Norte estão investindo em suas capacidades convencionais e nucleares, preparadas para atacar os EUA através de diversas frentes. Infelizmente, as defesas atuais dos Estados Unidos não evoluíram no mesmo ritmo. A rápida evolução tecnológica e de táticas ampliou a ameaça de ações subversivas e ataques em áreas cinzas: drones de atores estatais e não estatais podem atingir quase qualquer alvo nos EUA, enquanto adversários como a China podem realizar operações cibernéticas ofensivas, potencialmente devastadoras para a infraestrutura crítica.
Precariedade nas Defesas
Os Estados Unidos não estão preparados para enfrentar esses desafios. Suas defesas aéreas e antimísseis são vulneráveis, e leis e políticas internas muitas vezes dificultam a coordenação e a autorização necessárias para neutralizar ataques com drones. Infraestruturas como energia, água, finanças e saúde permanecem expostas a ciberataques sofisticados. Após os atentados de 11/9, a incapacidade de captar a mudança do cenário global e a falta de compartilhamento de informações entre agências governamentais culminaram em tragédias. Sem uma reformulação nos mecanismos de segurança nacional, Washington pode estar a caminho de repetir erros do passado.
Medidas Emergentes Pós-11 de Setembro
As iniciativas de segurança implementadas após os ataques de setembro de 2001 focaram em proteger o país contra o terrorismo. O Patriot Act e outras legislações permitiram que agências dos EUA coletassem informações de forma mais ampla e eficaz. O Departamento de Segurança Interna, o Escritório do Diretor de Inteligência Nacional e o Centro Nacional de Contraterrorismo foram criados ou fortalecidos com o intuito de promover um melhor compartilhamento de informações sobre ameaças. O FBI ampliou significativamente o número de Grupos de Trabalho Conjuntos de Contraterrorismo em todo o país, colaborando com as polícias locais e estaduais para a identificação e prisão de terroristas.
Although these measures were effective during a time when terrorism was the main threat, a nova realidade mostra que as maiores ameaças vêm hoje de estados. China, Rússia e Coreia do Norte possuem mísseis intercontinentais capazes de atingir o território americano, tendo já demonstrado suas capacidades em testes. As guerras no Irã e na Ucrânia evidenciam que uma grande quantidade de armas nucleares não é mais um escudo contra ataques convencionais. O Irã, por exemplo, tem atacado Israel com uma enxurrada de mísseis e drones, enquanto a Ucrânia tem realizado operações contra cidades russas, tudo isso sem uma resposta nuclear do Kremlin.
Vulnerabilidade das Defesas Norte-Americanas
No cenário de um ataque convencional aos Estados Unidos, o sistema de defesa aéreo pode não conseguir oferecer proteção suficiente. A quantidade de interceptores capazes de neutralizar mísseis balísticos é insuficiente, e a guerra no Irã reduziu as reservas de interceptores THAAD em até 80%. Além disso, a defesa contra mísseis de cruzeiro é precária, visto que muitos deles voam em baixas altitudes para evitar detecções.
O cenário se complica ainda mais com a capacidade expansionista da China, que, além dos mísseis, agora tem possibilidades de ataque no espaço. Sistemas como o de Bombardeio Orbital Fracionado permitem que a China ataque alvos nos EUA de direções inesperadas, dificultando ainda mais a detecção por radar. As Forças Armadas da China também estão explorando armamentos que poderiam atacar a partir do espaço, aumentando os riscos.
Ameaças Emergentes e Innovadoras
Além das ameaças convencionais, os EUA estão enfrentando desafios novos e sutis. Atacantes, tanto estatais quanto não estatais, já usavam sabotagem física e desinformação para enfraquecer adversários. No entanto, o desenvolvimento de tecnologias como drones e inteligência artificial traz novas dificuldades. Os drones se tornam cada vez mais acessíveis e podem executar ataques de forma coordenada, por meio de sistemas de inteligência artificial que superam as defesas tradicionais.
Exemplos de Vulnerabilidades Reais
- Em 2025, a Ucrânia introduziu clandestinamente mais de 100 drones na Rússia, causando grandes danos às forças aéreas desse país.
- No Brasil, incidentes com drones em bases militares e instalações críticas têm se tornado frequentes.
A invasão de drones, já uma realidade nos EUA, aumenta a preocupação sobre a infraestrutura crítica, desde bases militares a eventos públicos. Casos como a paralisação da Base Aérea de Barksdale, após a detecção de drones não autorizados, demonstram que essa é uma questão urgente a ser abordada. E as novas tecnologias, como a inteligência artificial, tornam esse problema ainda mais complexo, possibilitando ataques cibernéticos que podem comprometer sistemas de infraestrutura em uma escala sem precedentes.
A Resiliência dos Estados Unidos em Risco
Para melhor se preparar para um eventual ataque, os EUA precisam reforçar sua defesa ativa das infraestruturas críticas. Algumas ações sugeridas incluem:
- Aumentar a quantidade de sistemas de defesa aérea, como Patriot e THAAD, para proteger contra mísseis balísticos.
- Implementar sistemas de defesa passiva, como abrigos subterrâneos e barreiras de concreto em locais estratégicos.
Entretanto, a proteção de todas as infraestruturas seria economicamente inviável. Portanto, a prioridade deve ser reforçar locais e bases críticas que poderiam ser alvos de adversários. Entre esses locais estão instalações de comando militar e bases nucleares.
É aqui que um sistema como o Golden Dome, proposto na administração Trump, pode ser crucial. Essa iniciativa visa criar uma rede integrada de sensores e sistemas de defesa para detectar e neutralizar ameaças. No entanto, sua implementação tem sido lenta e necessita de mais recursos.
Caminhos a Seguir
Além disso, a legibilidade e a legalidade das operações com drones precisam ser esclarecidas. Embora algumas legislações recentes tenham começado a permitir uma maior flexibilidade na defesa contra drones hostis, é crucial que esse processo seja formalizado e aperfeiçoado. A capacitação adequada dos operadores deve ser uma prioridade, a fim de evitar assuntos que possam resultar em acidentes indesejados.
Para além das medidas práticas, o compartilhamento de inteligência deve ser aprimorado, pois a natureza das ameaças hoje é muito diferente da era do terrorismo. As agências de inteligência precisam se adaptar às novas realidades e estar preparadas para lidar com ameaças emergentes. Um novo centro de Contrainformação Nacional poderia ser estabelecido para garantir uma resposta integrada e eficaz.
Em suma, a segurança nacional dos Estados Unidos está em um ponto de inflexão. A visão tradicional de que a geografia e um arsenal nuclear poderoso garantem proteção deve ser revista. Países como Finlândia e Israel já têm experiências de resiliência em situações de ameaças, e os Estados Unidos devem aprender com esses exemplos, educando a população sobre os riscos e desenvolvendo planos colaborativos com o setor privado.
Como bons cidadãos, é vital estarmos cientes do cenário em constante mudança que nos cerca. As lições do passado devem servir como um alerta para que não cometamos os mesmos erros novamente. Ao refletir sobre o presente e o futuro, podemos construir uma sociedade mais forte e resiliente frente a todas as adversidades.


