O Futuro da ONU: Entre Crises e Oportunidades
A Organização das Nações Unidas (ONU), desde a sua fundação em 1945, tem sido paradoxalmente o palco de crises e soluções no cenário global. Com a presença constante de tensões geopolíticas, desastres humanitários e lacunas orçamentárias, o papel da ONU se torna ainda mais desafiador. À medida que líderes mundiais se reúnem em Nova Iorque para a Assembleia Geral, o sentimento é de uma instituição que enfrenta, talvez, um dos seus maiores testes.
Desafios que a ONU Enfrenta
A ONU tem enfrentado uma série de dificuldades nos últimos anos, e três dos cinco países que detêm poder de veto no Conselho de Segurança — China, Rússia e Estados Unidos — têm impedido ações decisivas em conflitos como os do Irã e da Ucrânia, além de situações de guerra civil em países como Mianmar e Sudão. Além disso, países em desenvolvimento clamam por mais compromisso dos estados doadores com as promessas feitas em relação aos gastos com desenvolvimento. O governo de Donald Trump, por exemplo, cortou grande parte do financiamento dos EUA a atividades da ONU, forçando a organização a reduzir suas operações de paz e de ajuda humanitária.
Diante de um cenário repleto de desafios, a próxima transição de liderança da ONU pode ser crucial para determinar se a organização conseguirá se estabilizar e recuperar a credibilidade ou se afundará ainda mais em sua própria ineficácia. O atual Secretário-Geral, António Guterres, que anunciou sua saída no final deste ano, teve que lidar com a redução de pessoal e medidas de contenção de despesas, numa tentativa de evitar que a secretaria da ONU se tornasse insolvente.
A Nova Liderança e Seus Desafios
Os candidatos que podem suceder Guterres incluem figuras proeminentes como Rebeca Grynspan, uma alta funcionária da ONU, Rafael Grossi, diretor-geral da Agência Internacional de Energia Atômica, e Carolyn Rodrigues-Birkett, embaixadora da Guiana na ONU. Independentemente de quem assuma o cargo, o novo secretário-geral precisará desenvolver uma nova abordagem para revitalizar a organização. Reconhecer a realidade de que, enquanto o mundo permanecer competitivo e caótico, a capacidade da ONU de forjar acordos internacionais abrangentes será limitante.
A chave para o sucesso da nova liderança talvez resida em redimensionar as aspirações da ONU, priorizando:
- Prevenção de crises internacionais
- Resolução de conflitos
- Fornecimento eficiente de ajuda humanitária
- Objetivos de desenvolvimento internacional mais financeiros e realistas
Uma ONU que se concentre em funções centrais pode desapontar defensores ardorosos da governança global, mas pode ser a única versão viável da instituição em um período de competição entre grandes potências e austeridade financeira.
Queda do Financiamento e Suas Consequências
Desde o final da Guerra Fria, os líderes da ONU tentaram responder às crises insistindo na necessidade de a organização fazer mais. Boutros Boutros-Ghali, o primeiro secretário-geral do pós-Guerra Fria, vislumbrou a ONU como um corpo global de paz supercarregado. Entretanto, os fracassos em conflitos como o genocídio de Ruanda em 1994 e a massacre de Srebrenica em 1995 obrigaram a ONU a adotar uma postura mais cautelosa. Nos anos seguintes, Kofi Annan, seu sucessor, procurou redefinir a organização, propondo novas metas de redução da pobreza e ações de paz em várias regiões.
Com a quantidade de crises humanitárias e conflitos aumentando, o orçamento da ONU também cresceu, alcançando 74 bilhões de dólares em 2022, principalmente devido ao aumento dos gastos humanitários. Apesar de Annan e seus sucessores, Ban Ki-moon e Guterres, terem buscado maior solidariedade entre os membros da ONU, muitos estados não honraram seus compromissos anteriores, gerando ceticismo em relação à eficácia da multilateralidade.
Impactos e Oportunidades
Os cortes financeiros promovidos pelo governo Trump, que congelou quase todo o financiamento dos EUA às atividades humanitárias da ONU, inicialmente pareciam um golpe fatal para a organização. Entretanto, agora muitos diplomatas veem isso como um chamado à ação para que a ONU comece a enxugar despesas. A China e a União Europeia não preencheram as lacunas deixadas por Washington, o que sugere que o ceticismo acerca da ONU se estende além da Casa Branca. A realidade é que a ONU precisará cumprir sua missão enquanto busca recuperar a confiança de seus membros, tudo isso em um cenário de recursos reduzidos.
Os candidatos à posição de secretário-geral reconhecem a urgência de disciplina financeira e uma abordagem pragmática para a resolução de problemas globais. Embora não tenham apresentado propostas detalhadas, todos concordam que “o mundo não precisa de mais declarações”, como afirmou Grossi. Grynspan prometeu fazer a ONU mais útil, ágil e responsável.
O Caminho a Seguir
A nova liderança da ONU deverá focar na revitalização do papel da organização em processos de paz. Durante a gestão de Guterres, muitos diplomatas sentiram que a questão do entorno da paz e segurança foi negligenciada. A infelicidade com essa abordagem é palpável, pois muitos países acreditam que a ONU deve fazer mais para ajudar a resolver conflitos onde os interesses dos países com poder de veto não estão em jogo.
Para restaurar a credibilidade da ONU em sua missão central, o próximo secretário-geral deve mostrar aos membros permanentes do Conselho de Segurança e a toda a associação que a ONU pode desempenhar um papel útil na prevenção e resolução de conflitos. Essa tarefa envolvem a atuação com estratégias e ferramentas já disponíveis, apostando em processos de mediação mais discretos e menos grandiloquentes, concentram-se em construir confiança e viabilizar relações entre as nações.
Reflexão sobre os Desafios Globais
Um foco renovado na mediação não significa que a ONU deva abandonar outras metas. Situações como a redução da pobreza e a adaptação às mudanças climáticas devem continuar a fazer parte da agenda, mas com uma abordagem mais simplificada. Com o término dos objetivos de desenvolvimento sustentável estabelecidos em 2015 se aproximando, a complexidade dos 169 objetivos definidos tem dificultado o engajamento político e a mobilização pública.
Os novos diálogos deverão buscar uma lista mais curta e focada de metas pós-2030, centrando-se em desafios críticos como:
- Redução da pobreza
- Adaptação às mudanças climáticas
- Proteção dos países contra choques econômicos globais
Com a nova administração, a ONU poderá ainda alavancar sua expertise em mediação e mobilização, evitando a realização de grandes conferências que frequentemente resultam em pouca ação concreta.
Um Novo Capítulo na História da ONU
A pregunta que muitos fazem é: o que será necessário para que a ONU reencontre seu caminho? Alguns acreditam que os desafios internos da instituição levarão os membros a concordar com uma revisão completa de sua carta, um passo que poderia tanto exacerbar quanto solucionar tensões diplomáticas. Outros sugerem que um grande choque, como um ataque cibernético em larga escala ou desastres climáticos, poderia impulsionar os governos a reconhecer a necessidade de cooperação multilateral.
Enquanto isso, o novo secretário-geral deve estar preparado. Se a ONU conseguir mostrar que é um agente eficaz na prevenção e resolução de conflitos, poderá não só restaurar a confiança da comunidade global como se posicionar como a solução pragmática para problemas globais em evolução. Agora, mais do que nunca, a ONU precisa se reinventar para se tornar a força que o mundo realmente necessita.


