Repensando o Relacionamento Econômico EUA-China: Estratégias para Navegar em um Cenário Complexo
Na cúpula marcada entre o governo Trump e o líder chinês Xi Jinping em outubro de 2025, a administração americana chegou com a sensação de que tinha vantagem sobre a China. O secretário do Tesouro dos EUA, Scott Bessent, enfatizou essa confiança ao afirmar: “O que perdemos se a China aumentar tarifas sobre nossos produtos? Estamos em uma posição de desvantagem, pois exportamos apenas um quinto do que eles exportam para nós.” No entanto, essa certeza provou ser, na prática, um erro estratégico.
Conforme discuti na revista Foreign Affairs, guerras comerciais podem tornar-se desastrosas, especialmente quando os países dependem de fornecedores para insumos difíceis de substituir. A China possui o que chamamos de “domínio de escalonamento” sobre os Estados Unidos. Isso significa que, em qualquer nível de ameaça, o governo chinês pode infligir mais danos aos EUA do que o contrário. Para exemplificar, a China controla entre 80% e 90% da produção de elementos de terras raras. Para amenizar as restrições de Pequim nessa área, os EUA já cederam em questões de tarifas e políticas de tecnologia em várias negociações.
A Importância da Diplomacia Econômica
A incapacidade de Washington de se desvincular rapidamente da China ou de extrair concessões por meio de ameaças tarifárias não deve levar à desistência da diplomacia econômica. Historicamente, potências menores têm navegado suas relações com adversários mais fortes por meio de negociações, evitando confrontos diretos. Essa tem sido a abordagem de muitos países em sua interação com os Estados Unidos, o que, muitas vezes, frustrou os oficiais americanos.
É importante entender que relações econômicas não são um jogo de soma zero. Mesmo em meio a desconfianças e rivalidade estratégica, o relacionamento econômico entre EUA e China pode ser benéfico. O comércio e a diversificação continuam a trazer vantagens significativas para ambas as economias. Ademais, a China também sentiria os impactos de um conflito direto com os EUA.
Estratégias Inovadoras para a Cúpula
No encontro agendado entre Xi e Donald Trump, o governo dos EUA deve adotar uma estratégia diferente, focando em aumentar as importações de itens estratégicos e fomentar o investimento direto estrangeiro (IDE) da China. Essa abordagem deve fazer parte de uma estratégia econômica mais abrangente, que envolva não apenas os EUA, mas também aliados dispostos a fomentar mudanças sustentáveis no comportamento comercial da China.
- No próximo cúpula, os EUA devem buscar um acordo com a China para reduzir tarifas em troca de acesso a materiais críticos.
- A construção de reservas estratégicas, através de acordos de compra de longo prazo, é essencial para garantir a segurança supply chain dos EUA.
Essa não é uma tarefa simples, especialmente considerando que os EUA tentaram, anteriormente, desestimular importações chinesas sem sucesso efetivo. Mesmo que os Estados Unidos tenham reduzido suas importações diretas, essa tendência apenas fragmentou as cadeias de suprimento, tornando-as menos transparentes. Por exemplo, o setor farmacêutico continua a depender fortemente da China, mesmo que algumas etapas do processo produtivo ocorram em outros países.
O Desafio da Desacoplagem
Desacoplar a economia dos EUA da China representa um desafio significativo, pois as interdependências econômicas foram construídas ao longo do tempo e são guiadas por fundamentos econômicos sólidos. A prioridade agora deve ser aumentar os estoques de bens estratégicos, mas isso precisa ser feito de maneira eficaz.
Os EUA poderiam utilizar garantias governamentais para criar reservas estratégicas enquanto alternativas de fontes confiáveis se desenvolvem. É fundamental que, ao mesmo tempo, os Estados Unidos permitam a importação de tecnologias que ainda são inovadoras e desejadas na China.
Investindo para o Futuro
Um aspecto frequentemente ignorado nas discussões sobre as relações econômicas entre os EUA e a China é o potencial do investimento direto estrangeiro (IDE). Assim como, no passado, nobres eram enviados como reféns entre reinos, as empresas de hoje, ao investir em países rivais, arriscam não apenas recursos financeiros, mas também suas tecnologias e práticas de gestão. Essa presença gera benefícios econômicos significativos, como:
- Criação de empregos com salários elevados em relação à média local.
- Aumento do investimento em pesquisa e desenvolvimento nas regiões que recebem esses investimentos.
- Diminuição da volatilidade do suprimento por meio de diversificação geográfica.
Apesar dos desafios enfrentados pelas empresas norte-americanas na China, que incluem dificuldades em repatriar lucros e proteger propriedade intelectual, os benefícios de atrair IDE da China permanecem inegáveis. O governo dos EUA deve direcionar esforços para tornar o mercado mais atraente para o investimento chinês, em vez de pressionar por maiores exportações.
Uma Nova Abordagem para o Comércio
O último encontro entre as liderança dos EUA e China foi um alerta para a administração Trump e para os críticos da política externa em ambos os partidos: não há como vencer a China apenas por meio de ameaças comerciais ou isolando sua economia. Os EUA precisam de tempo para reduzir a dependência da China e reconstruir as alianças necessárias para tornar viáveis as alternativas de fornecimento. A gestão dessas complexidades requer uma nova visão.
O primeiro passo nesse processo é reconhecer a interdependência econômica com a China. Através de acordos favoráveis e de um relacionamento comercial mutuamente benéfico, os EUA poderão garantir o tempo necessário e os recursos adicionais para fortalecer sua própria resiliência econômica.
Reflexões Finais
É verdade que a restauração da interdependência econômica não garante que a China não bloqueará o acesso a produtos críticos no futuro, nem evita um possível conflito militar. Mas, ao importar em larga escala, ao estocar suprimentos críticos e ao fomentar investidas comerciais através de IDE, os EUA podem se preparar melhor para enfrentar os desafios que se apresentam.
Finalmente, a administração Trump deve repensar sua abordagem, indo além de uma estratégia de soma zero, reconhecendo o valor da diplomacia econômica e da cooperação mútua. O caminho à frente não deve ser um fim em si mesmo, mas uma ponte para um relacionamento mais robusto e previdente entre os EUA e a China.


