Adaptação Climática: Por Que o Dinheiro Não Chega e Onde Está?


O Futuro do Financiamento em Adaptação Climática e Resiliência

Recentemente, um estudo significativo, realizado pelo Centro para Investimento de Impacto e Práticas, com sede em Singapura, em colaboração com a Temasek e a Invesco, trouxe à luz insights valiosos sobre o financiamento de adaptação climática. Entre as 165 entrevistas realizadas com financiadores asiáticos que administram em conjunto mais de US$ 1 trilhão em ativos, a adaptação climática e a resiliência se destacaram como os temas mais urgentes.

A importância dessa pesquisa ganha peso ao considerarmos que a Ásia está se aquecendo a uma taxa duas vezes maior que a média global. Desde 2000, cerca de 3,7 bilhões de pessoas na região foram impactadas por desastres climáticos. Ademais, a Ásia concentrada cerca de 75% da lacuna mundial no financiamento para adaptação às mudanças climáticas. É assustador imaginar que, globalmente, os danos econômicos causados por desastres naturais aumentaram cinco vezes proporcionalmente ao PIB desde a década de 1970. Em 2025, as perdas estimadas chegaram a impressionantes US$ 224 bilhões, resultando em mais de 17 mil vidas perdidas.

A discrepância entre necessidade e financiamento

Apesar da gravidade do cenário, os investimentos atuais voltados para adaptação climática e resiliência situam-se entre US$ 26 bilhões e US$ 50 bilhões por ano. A necessidade anual, no entanto, gira em torno de US$ 310 bilhões a US$ 365 bilhões até 2035, com menos de 11% desse total proveniente do setor privado. Na COP30, realizada em novembro, os países se comprometeram a triplicar o financiamento para adaptação, alcançando US$ 120 bilhões anualmente até 2030, mas isso ainda está distante do necessário.

Então, como transformar a adaptação e a resiliência em conceitos mais atraentes e compreensíveis para os investidores em todo o mundo? Aqui estão algumas sugestões.

Tornando a Adaptação Atraente para Investidores

1. Diferenciação do Capital para Adaptação

Tratar todo capital destinado à adaptação como uma categoria homogênea é um erro. O setor ainda é jovem e, como observa Susan Hunt Stevens, cofundadora e CEO da Tessi, a situação atual lembra os primeiros passos das conferências sobre sustentabilidade corporativa. No início, a conversa girava sobre o que fazer. Hoje, é mais sobre como financiar esses esforços.

A abordagem de investimentos em adaptação deve ser mais detalhada. Cada tipo de capital tem suas expectativas de retorno. Investidores em ações buscam retornos entre 11% e 18%, enquanto o mercado de títulos pode operar com índices menores. As soluções de adaptação variam enormemente, desde barreiras contra enchentes até startups de previsão meteorológica. Cada uma delas exige um perfil de investimento distinto.

  • Exemplos Práticos:
    • Seguro paramétrico: necessitará de uma parceria com seguradoras.
    • Títulos municipais: podem financiar obras de infraestrutura.
    • Startups: precisam de capital de risco para crescimento.

A distinção entre esses investimentos é crucial para atrair os recursos necessários.

2. Construção de Sistemas Habilitadores

Uma pesquisa do Instituto Mundial de Recursos revela que projetos bem estruturados podem gerar retornos significativos e múltiplas fontes de valor. Para facilitar o financiamento, precisamos de:

  • Mecanismos de pagamento claros: É necessário definir quem arca com a conta desses projetos, já que as barreiras contra enchentes, por exemplo, protegendo bens sem taxas específicas, não têm responsáveis claros.

  • Comprovação de desempenho: Medir a eficácia da adaptação é um desafio. Sem um padrão aceito, o financiamento é dificultado.

  • Redução da burocracia: Processos de licenciamento longos desestimulam investidores. Na União Europeia, por exemplo, a burocracia pode atrasar projetos por até quatro anos.

3. Escala: Essencial e Obrigatória

Embora o investimento em adaptação exija um foco projeto a projeto, a demanda global por resiliência ultrapassa US$ 1 trilhão anualmente. A escala não é apenas uma ambição, é essencial para que os retornos sejam concretizados.

Investimentos em adaptação podem gerar benefícios que vão muito além do projeto individual. Por exemplo:

  • Barreiras contra enchentes podem aumentar o valor de imóveis em uma comunidade inteira, não apenas de uma casa específica.
  • Melhorias nas redes elétricas promovem a integração de energias renováveis, enquanto aumentam a resiliência.

No entanto, é crucial lembrar que a resiliência não deve ser um privilégio. A implementação de infraestruturas deve aumentar a resiliência de todos, garantindo que cada família possa acessar e usufruir dessas soluções.

4. Resiliência como Base, Não Apenas uma Palavras-Chave

Os melhores investimentos em adaptação podem não ser rotulados como tal. Muitas vezes, soluções práticas, como a instalação de bombas de calor, são vistas como medidas de mitigação, mas oferecem também benefícios adaptativos. Tornar reformas residenciais mais acessíveis e rápidas, por exemplo, abre portas para um futuro mais resiliente.

5. Unir Adaptação e Mitigação

Historicamente, adaptações e mitigações têm sido tratadas como opostas. No entanto, devemos enxergá-las como partes de um mesmo quebra-cabeça. Por exemplo, modernizar infraestruturas auxilia tanto na adaptação quanto na mitigação. A eletrificação de edifícios não apenas reduz a emissão de carbono, mas também fortalece a resiliência.

Considerações Finais

As ações estão em movimento, e a urgência não pode ser negada. Contudo, o desafio mais significativo é como financiar a adaptação em larga escala, empregando os instrumentos corretos e sistemas de apoio. Ao aprimorar a narrativa sobre como se pode adaptar e construir um futuro resiliente, estamos não apenas ajudando a criar uma sociedade mais consciente, mas também abrindo caminhos para um entendimento mais profundo de que a resiliência é imprescindível para todos.

Portanto, enquanto observamos o financiamento de adaptação climática se desenvolver, é imperativo que continuemos a explorar essas ideias, discutir soluções e nos engajar na construção de um futuro que renda frutos para todos. O que mais você acha que poderia ser feito nessa trajetória? Compartilhe suas ideias abaixo!

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