Ambev tem lucro acima do esperado, mas cerveja fraca no Brasil pressiona ABEV3


A Ambev divulgou nesta quinta-feira os resultados do terceiro trimestre de 2026, com lucro líquido acima das expectativas, mas indicadores operacionais mais fracos. A companhia atribuiu o resultado final, em parte, à redução das despesas financeiras e à menor alíquota efetiva de impostos. As ações fecharam em queda de 4,4%, a R$ 14,55.

Lucro supera projeções

A cervejaria registrou lucro líquido de R$ 4,37 bilhões no trimestre, acima dos R$ 3,9 bilhões estimados por analistas consultados pela IBES. Já o lucro líquido normalizado, que exclui determinados efeitos não recorrentes, somou R$ 4,27 bilhões, alta de 14,1% em relação ao mesmo período do ano anterior.

O JPMorgan avaliou que o resultado foi misto: o lucro superou as projeções, mas o EBITDA ficou abaixo do esperado. A sigla se refere ao resultado antes de juros, impostos, depreciação e amortização e é usada como indicador do desempenho operacional. O EBITDA normalizado da Ambev avançou 8,9% organicamente, para R$ 7,27 bilhões, mas ficou 0,5% abaixo da estimativa do banco e 1,5% aquém do consenso do mercado.

A receita líquida cresceu 7,6% organicamente na comparação anual, alcançando R$ 21,6 bilhões. O número superou em 1,6% a projeção do JPMorgan. O crescimento orgânico considera a evolução do negócio sem incluir determinados efeitos externos, como mudanças de perímetro ou variações cambiais, conforme a metodologia usada pela empresa.

Para o JPMorgan, parte da surpresa positiva no lucro veio de ganhos cambiais sem efeito caixa relacionados a saldos em dólares, provavelmente na Bolívia. Na avaliação do banco, esse componente não representa uma melhora operacional. A instituição manteve recomendação neutra para as ações e preço-alvo de R$ 16,50.

Cerveja no Brasil concentra atenção

O desempenho da divisão de cerveja no Brasil foi apontado como um dos principais pontos de preocupação. Os volumes cresceram 0,5% ante o terceiro trimestre do ano anterior, resultado 2,4% abaixo do esperado pelo JPMorgan. A margem EBITDA caiu 1,3 ponto percentual organicamente, pressionada por despesas gerais, administrativas e de vendas superiores às estimativas.

O banco também observou que o crescimento dos volumes ocorreu apesar de uma base de comparação fraca e da contribuição da Copa do Mundo. A receita por hectolitro — medida que relaciona a receita ao volume vendido — subiu 4,8%. Para os analistas do Bradesco BBI, esse avanço indica poder limitado de reajuste de preços.

Henrique Brustolin e J. Ricardo Rosalen, do Bradesco BBI, disseram que a execução comercial da Ambev segue positiva, com ganhos de participação de mercado, bom desempenho das marcas premium e volumes resilientes em um ambiente de consumo desafiador. Ainda assim, avaliaram que os números do trimestre renovaram dúvidas sobre a sustentabilidade do crescimento da operação de cerveja no Brasil.

Visões distintas sobre o balanço

A XP Investimentos considerou que o resultado ficou significativamente abaixo de suas estimativas e do consenso, embora a empresa ainda tenha apresentado crescimento anual. A casa atribuiu parte desse avanço a comparações fáceis com o período anterior.

O Bradesco BBI também chamou atenção para o equilíbrio entre a estratégia de preços e a expansão dos resultados. Segundo os analistas, preservar a acessibilidade dos produtos pode apoiar o relacionamento com os consumidores e a participação de mercado, mas limita o avanço da receita e das margens no curto prazo. A avaliação considera ainda a possibilidade de retorno das pressões de custos em 2027.

O Bradesco BBI manteve recomendação neutra para ABEV3 e preço-alvo de R$ 15,00. As duas casas, portanto, preservaram avaliações neutras, embora tenham indicado preços-alvo diferentes. No pregão em que os resultados foram divulgados, os papéis encerraram a sessão a R$ 14,55, com recuo de 4,4%.

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