BBI vê cautela após tombo da bolsa; recuperação pode levar meses ou anos


A queda da Bolsa brasileira após o segundo turno das eleições pode continuar, segundo avaliação do Bradesco BBI. Em relatório, os estrategistas do banco recomendam cautela, apesar de as ações do país estarem com forte desconto, porque recuperações após choques desse porte costumam levar meses — e, em alguns casos, anos.

O MSCI Brazil, índice de ações brasileiras calculado em dólares, recuou 18,7% em um único dia após as eleições. De acordo com o estudo, foi a maior baixa diária da história moderna do mercado brasileiro, acima das registradas na crise financeira de 2008, na pandemia de Covid-19 e na crise política de 2017, após a divulgação de gravações envolvendo o então presidente Michel Temer.

Histórico aponta recuperação demorada

Além da intensidade da queda, o Bradesco BBI observou uma forte mudança na preferência dos investidores dentro da Bolsa. Empresas mais sensíveis aos juros tiveram perdas acentuadas, enquanto o mercado se voltou a exportadoras, companhias com receitas em dólar e ativos considerados defensivos. A diferença entre os retornos das ações do Ibovespa chegou aos maiores níveis já registrados, segundo os estrategistas.

O levantamento identificou 18 quedas de mais de 10% em um único dia no mercado brasileiro desde o início da década de 1990. Em média, os índices levaram cerca de três meses para recuperar as perdas iniciais. O banco também analisou 15 episódios, nas últimas duas décadas, em que eleições em países emergentes provocaram reações negativas expressivas dos investidores.

O tombo brasileiro foi o segundo maior da amostra, atrás apenas da queda de 40% na Argentina após as eleições primárias de 2019, que marcaram a derrota de Mauricio Macri. Nos países analisados, os mercados ainda estavam, em média, 11% abaixo dos níveis anteriores ao choque três meses depois e continuavam no negativo após seis meses. Em muitos casos, uma recuperação relevante só ocorreu cerca de dois anos mais tarde.

Fluxos estrangeiros seguem resilientes

Mesmo com a turbulência, os estrategistas não identificaram sinais de uma saída significativa de capital estrangeiro do Brasil. A avaliação se baseia no comportamento dos fundos negociados em bolsa (ETFs, na sigla em inglês) internacionais ligados ao mercado brasileiro, cujos fluxos, segundo o banco, continuam relativamente resilientes.

O Bradesco BBI atribui essa resistência ao fato de as ações brasileiras voltarem a ser negociadas a múltiplos considerados muito baixos e à percepção de que há poucas alternativas atraentes entre os mercados emergentes. A Bolsa brasileira passou a negociar por menos de oito vezes o lucro projetado para os 12 meses seguintes, o que a torna a segunda mais barata do mundo nesse critério, atrás apenas da Coreia do Sul.

O desconto, porém, não garante uma recuperação consistente. “Historicamente, comprar Brasil a 7 ou 8 vezes lucro não garantiu retornos acima da média”, afirmam os analistas no relatório. Para o banco, será necessário observar também como as empresas ajustam suas projeções de resultados ao novo cenário de juros.

Juros podem pressionar projeções de lucro

Na avaliação do BBI, a reprecificação recente da curva de juros ainda não foi totalmente incorporada às estimativas do mercado. A curva representa as taxas esperadas para diferentes prazos. Caso a nova trajetória da taxa básica de juros, a Selic, se mantenha, 74 das 106 empresas acompanhadas pelo banco podem ter revisões negativas de lucro.

Entre as companhias apontadas como mais vulneráveis estão Anima (ANIM3), MBRF (MBRF3), JSL (JSLG3), Yduqs (YDUQ3) e Ecorodovias (ECOR3). Segundo o estudo, os lucros dessas empresas poderiam cair mais de 20% para cada aumento de 100 pontos-base nas taxas de juros. Um ponto-base corresponde a 0,01 ponto percentual.

Em sentido contrário, Auren (AURE3), Banco do Brasil (BBAS3) e Santander Brasil (SANB11) estão entre as empresas que podem se beneficiar de juros mais altos. Diante das incertezas, o Bradesco BBI mantém recomendação neutra para o Brasil e diz continuar favorecendo uma carteira defensiva.

Banco privilegia exportadoras e utilities

Entre as principais apostas defensivas estão exportadoras e companhias dolarizadas, como Embraer (EMBJ3), JBS (JBSS3), Suzano (SUZB3) e WEG (WEGE3). O banco também cita empresas que podem se beneficiar de juros elevados, como Itaú Unibanco (ITUB4) e BB Seguridade (BBSE3).

O relatório aponta ainda oportunidades no setor de utilities, que reúne serviços de infraestrutura, especialmente na Eneva (ENEV3). Na avaliação dos estrategistas, o segmento se tornou relativamente mais atraente mesmo após a alta dos juros reais.

Enquanto aguardam maior clareza sobre as trajetórias fiscal e monetária do Brasil, os analistas afirmam encontrar oportunidades mais atrativas em outros mercados latino-americanos. O Bradesco BBI mantém recomendação overweight — exposição acima da média — para Chile, México e Peru.

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