A Black Friday de 2026 deve colocar consumo e renegociação de dívidas em disputa pelo orçamento das famílias brasileiras. Enquanto 45% dos consumidores têm interesse em comprar eletrônicos, 36% veem a temporada de descontos como uma oportunidade para negociar débitos, segundo pesquisa da Serasa Experian apresentada na quarta-feira (28). O estudo também aponta que o planejamento convive com compras por impulso e uso de crédito.
O levantamento ouviu 1.480 consumidores em setembro e analisou uma base de 24 milhões de CPFs. Segundo a Serasa Experian, a combinação permite comparar as intenções declaradas pelos entrevistados com indicadores de comportamento financeiro.
Planejamento divide espaço com compras por impulso
Embora 81% dos entrevistados afirmem estabelecer um limite de gastos para a Black Friday, 33% dizem ter dificuldade para respeitá-lo. Outros 43% costumam aproveitar ofertas de produtos que não estavam nos planos, e 30% já comprometeram o orçamento em edições anteriores da data.
As dívidas também pesam na decisão de compra. De acordo com a pesquisa, 55% dos consumidores preferem abrir mão de uma promoção a assumir uma nova conta. Além disso, 47% dizem que não comprariam um produto em oferta se estivessem endividados, e 61% já desistiram de uma compra por restrições financeiras.
Os dados mostram uma intenção de controlar as despesas, mas não garantem que esse planejamento será seguido. O levantamento aponta que a vontade de economizar pode coexistir com compras não planejadas e com o uso de crédito para financiar o consumo.
Parcelamento e formas de pagamento
Entre os consumidores mais propensos a comprar na data, mais de 66% preferem pagar com crédito parcelado. A escolha aparece em diferentes faixas de renda: chega a 62,8% entre quem recebe até um salário mínimo, a 67,7% na faixa de um a três salários mínimos e a 68,5% entre os que ganham de três a cinco salários mínimos. Mesmo entre quem recebe mais de dez salários, o índice é de 63,5%.
Na pergunta sobre a forma de pagamento pretendida, 38% mencionaram o Pix à vista e 31%, o cartão de crédito parcelado. Entre os consumidores que cogitam usar crédito, 22% consideram aumentar o limite do cartão para aproveitar as ofertas, enquanto 13% mencionam parcelar no boleto.
Aumentar o limite do cartão não eleva a renda: permite antecipar uma compra que terá de ser paga depois. Se a fatura não for quitada integralmente, os juros podem tornar a compra mais cara do que o desconto obtido, conforme alerta a reportagem de origem ao citar especialistas.
Pesquisa de preços e disputa pelo 13º salário
O estudo indica que 62% dos consumidores se planejam com antecedência e 74% acompanham os preços dos produtos de interesse. Outros 45% afirmam pesquisar ativamente os valores de tudo o que pretendem comprar, e um em cada três já busca promoções antes de novembro. A Serasa também aponta que 78% dos consumidores mais propensos a participar da Black Friday têm faturas de cartão acima de R$ 500; ao mesmo tempo, 67% esperam um comprometimento menor da renda.
A proximidade do pagamento do 13º salário acrescenta uma disputa ao período. Para quem tem contas atrasadas, o dinheiro pode ajudar na renegociação de dívidas; para o varejo, representa uma renda que também pode ser direcionada às compras. A quantia ainda é considerada pelas famílias para despesas que chegam depois das festas, como impostos, material escolar e compromissos do cartão.
Giovana Giroto, CMO e vice-presidente de Marketing Solutions da Serasa Experian, afirmou que o calendário de ofertas se ampliou para além da última sexta-feira de novembro. “Percebemos que a jornada da Black Friday se expandiu, o que traz um novo cenário de comportamento tanto para o consumidor quanto para as empresas”, disse. Segundo ela, as empresas precisam considerar que os consumidores têm interesses e condições financeiras diferentes.
Cupons e cashback aumentam a disposição para comprar para 63% dos entrevistados. Descontos e frete grátis aparecem empatados como fatores de escolha da loja, citados por 41%. Já o frete elevado é motivo para desistir da compra para 30%; preço final acima do esperado, para 25%; e a possibilidade de encontrar oferta mais barata em outro estabelecimento, para 24%.
Fraudes também afetam as compras
O receio de golpes pode interromper a decisão de compra: 86% dos entrevistados afirmam já ter desistido de uma promoção por medo de fraude digital. Sites falsos são a principal preocupação, citados por 53%, seguidos por golpes envolvendo Pix, com 42%, e anúncios fraudulentos em redes sociais, com 32%.
Na semana da Black Friday de 2025, as ameaças digitais identificadas pela Serasa aumentaram 99% em relação à média das três semanas anteriores. Anúncios falsos cresceram 147%, perfis falsos, 101%, e aplicativos fraudulentos, 62%.
Entre a quinta-feira anterior à Black Friday e a Cyber Monday daquele ano, a empresa identificou 36.284 tentativas de fraude em operações de comércio eletrônico analisadas, associadas a cerca de R$ 37,4 milhões. Apenas 26% ocorreram na sexta-feira, enquanto os outros 74% foram registrados nos demais dias do período. Na categoria de beleza, foram 2.303 tentativas, ligadas a R$ 1,16 milhão; em eletrodomésticos, 722 tentativas somaram R$ 2,08 milhões.