O primeiro pregão da B3 após o segundo turno da eleição presidencial, na segunda-feira, 26 de outubro, terminou com queda de 13,88% do Ibovespa e alta de 8,21% do dólar, depois que a bolsa acionou o circuit breaker pela primeira vez desde março de 2020. A reação refletiu a surpresa com a vitória de um candidato que havia terminado o primeiro turno em segundo lugar, contrariando as pesquisas Datafolha e Quaest divulgadas na véspera da votação.
As duas pesquisas mostravam o adversário numericamente à frente, com 51% a 49% dos votos válidos. Analistas ouvidos pela imprensa atribuíram o movimento à quebra de uma expectativa que já havia influenciado os preços dos ativos desde o primeiro turno. O circuit breaker é um mecanismo que interrompe temporariamente as negociações quando o mercado registra oscilações intensas.
Quando a expectativa vira premissa
Pesquisas eleitorais indicam um cenário provável, mas não garantem o resultado. O episódio expõe o risco de tratar uma possibilidade como se fosse a única, tanto nas decisões de investimento quanto na gestão de empresas. Em ambientes incertos, executivos, conselheiros e investidores precisam agir com as informações disponíveis, antes de conhecer os resultados.
Nas empresas, as premissas adotadas podem influenciar investimentos, projeções financeiras, aquisições e planos de expansão. Uma equipe pode, por exemplo, aprovar um projeto contando com crescimento da demanda, estabilidade cambial e condições favoráveis de financiamento. Cada hipótese pode parecer razoável isoladamente, mas a decisão se torna vulnerável se a organização não avaliar o que ocorreria caso mais de uma delas se deteriorasse ao mesmo tempo.
Um dos riscos nesse processo é o viés de confirmação: a tendência de buscar ou valorizar informações que reforçam crenças existentes e dar menos peso a evidências contrárias. Ele pode se combinar ao pensamento de grupo, quando a busca por concordância reduz a disposição para apresentar objeções ou examinar alternativas.
Com isso, ferramentas como indicadores, matrizes de riscos e apresentações detalhadas podem acabar servindo para validar uma estratégia já escolhida, em vez de testar suas premissas. A resistência a reconhecer fragilidades também pode crescer quando a liderança está muito comprometida com uma decisão anterior.
Como o GRC pode ampliar a análise
Governança, Gestão de Riscos e Compliance (GRC) pode funcionar como um contrapeso nesse processo. Seu papel não é substituir o julgamento dos executivos nem impedir decisões, mas introduzir contestação qualificada, ampliar a análise de alternativas e levar a organização a considerar riscos que podem ter impacto relevante, ainda que pareçam improváveis.
Essa atuação depende de independência, acesso às informações e de uma cultura em que questionar premissas não seja interpretado como falta de alinhamento. Quando a discordância é tratada como resistência à estratégia, a empresa reduz uma de suas fontes de informação sobre riscos.
Ferramentas como apetite ao risco, análise de sensibilidade, cenários e testes de estresse podem ajudar a incorporar incertezas à decisão. O apetite ao risco indica a exposição que a organização aceita para atingir seus objetivos. A análise de sensibilidade mede o efeito de alterar uma premissa; os cenários combinam diferentes hipóteses; e os testes de estresse avaliam a resistência da empresa diante de condições severas.
Esses instrumentos não preveem o futuro, mas podem revelar vulnerabilidades antes que elas se concretizem. A intensidade da análise deve considerar o tamanho da exposição e a possibilidade de reverter a decisão. Uma escolha pequena e reversível pode exigir menos cenários do que outra que comprometa liquidez, assuma obrigações de longo prazo ou concentre recursos em uma única direção. Para decisões desse tipo, a organização pode definir previamente cenários alternativos e critérios que indiquem quando revisar o plano.
Sinais de que a análise perdeu espaço
O GRC também pode observar sinais de que a convicção está substituindo a avaliação crítica. Um deles é a convergência entre áreas sem registro de divergências relevantes. A concordância pode resultar de análises consistentes, mas também pode indicar que ninguém testou o cenário dominante. Revisões independentes e exercícios para desafiar as premissas ajudam a identificar fragilidades.
Outro sinal aparece quando cenários alternativos e indicadores são apresentados, mas não alteram decisões de investimento ou de alocação de recursos. Nesse caso, o risco está documentado, mas não influencia a escolha. Vincular cada cenário a efeitos sobre caixa, liquidez, endividamento e objetivos estratégicos pode tornar suas consequências mais claras. Indicadores críticos também podem ser associados a limites, responsáveis pelo escalonamento e alternativas previamente discutidas.
Projeções que dependem de várias condições favoráveis ao mesmo tempo merecem análise conjunta. Receita, câmbio, juros, custos e disponibilidade de capital podem estar relacionados; testar a deterioração simultânea de premissas ajuda a identificar concentrações de exposição que não aparecem quando cada risco é examinado separadamente.
Os materiais enviados a conselhos e comitês também influenciam a supervisão. Apresentar apenas a recomendação final limita a avaliação dos órgãos de governança. Informações sobre premissas críticas, incertezas, cenários descartados, argumentos contrários e consequências de uma escolha equivocada ampliam a capacidade de análise. Após um projeto malsucedido ou uma previsão excessivamente otimista, a revisão deve examinar não só o resultado, mas também como a decisão foi construída e quais alertas foram desconsiderados.
A reação dos mercados ao resultado eleitoral mostra que expectativas continuam sujeitas a erro. No ambiente corporativo, uma decisão mais robusta depende de reconhecer essa incerteza e avaliar as consequências de cenários diferentes, em vez de tratar a previsão mais provável como resultado garantido.