Bioinsumos no Brasil: O Gigante Adormecido do Mercado que Promete Revolucionar a Agricultura


O Crescimento dos Bioinsumos no Brasil: Uma Nova Era na Agricultura

O mercado brasileiro de bioinsumos está em plena ascensão, especialmente no segmento dos biodefensivos. Para a safra 2025/2026, a movimentação financeira nesse setor já alcança impressionantes R$ 5,3 bilhões, cobrindo mais de 107 milhões de hectares de cultivo. No entanto, este valor ainda representa apenas cerca de 6% dos investimentos totais em defensivos agrícolas e inoculantes no Brasil.

Na última terça-feira, 18 de outubro, foi realizado em São Paulo o Fórum Bioinsumos no Agro, que trouxe à tona discussões sobre a ampliação do uso de bioinsumos, ressaltando sua importância não apenas na substituição de produtos químicos, mas também em questões cruciais como segurança alimentar, geopolítica, e inovação regulatória. Os dados apresentados pela Kynetec indicam que, enquanto os cultivos agrícolas do Brasil cresceram entre 3% e 4% nos últimos cinco anos, a área tratada com defensivos químicos subiu 11%, enquanto a utilização de bioinsumos aumentou mais de 30%.

Perspectivas Promissoras para a Soja e Algodão

Segundo Vitor Hugo Leite, especialista em inteligência de mercado da Kynetec Brasil, atualmente, cerca de 6% do mercado é dominado por produtos de base biológica. Essa análise abrange culturas como soja, milho, cana-de-açúcar, algodão, café e hortifrúti, com dados coletados de mais de 14 mil agricultores.

A soja, que representa aproximadamente metade do mercado estudado pela Kynetec, já tem mais da metade de sua área cultivada utilizando bioinsumos, totalizando mais de 58 milhões de hectares. No que diz respeito ao controle de nematoides, mais de 80% da área cultivada já faz uso de produtos biológicos. O algodão também se destaca, com a adoção de bioinsumos em até 80% das lavouras, impulsionado principalmente pelo tratamento de sementes com bionematicidas.

O milho, particularmente na segunda safra, passou por uma rápida adaptação: em 2020, apenas 6% da área contava com manejo biológico, mas a pressão de pragas como a cigarrinha e o complexo de enfezamentos intensificou o uso de bioinsumos em conjunção com defensivos químicos.

Oportunidades e Desafios no Setor

Entretanto, ainda existem áreas consideráveis que são predominantemente atendidas por moléculas químicas, como os produtos para controle de ferrugem, percevejos e lagartas na soja. O aumento das temperaturas, a taxa de ciclo das pragas, e o surgimento de novas ameaças à produção agrícola reforçam a necessidade de controle, revelando que a utilização de químicos não será eliminada, mas sim complementada com biológicos.

A capacidade do Brasil de transformar conhecimento em autonomia produtiva também foi tema central do evento. Alberto Pfeiffer, coordenador do Grupo de Análise da Conjuntura Internacional da Universidade de São Paulo, destacou que a evolução do setor de bioinsumos está interligada às atuais dinâmicas das cadeias globais. Agora, as discussões sobre eficiência econômica incluem também questões de segurança nacional e a capacidade do país de produzir tecnologias internamente.

Pfeiffer enfatiza que o domínio sobre a produção de bioinsumos pode reduzir vulnerabilidades e criar novas fontes de recursos, como o cultivo de algas e a valorização da plataforma oceânica brasileira. Esse conhecimento se torna uma forma de poder sobre a produção agrícola.

O Papel da Cooperativa e a Assistência Técnica

No passeio pela Copercitrus, uma cooperativa que conta com 41 mil agricultores associados, observamos um crescimento de 37,5% nas vendas de bioinsumos no último ano, com a perspectiva de uma continuidade acima de 30% anualmente. Apesar disso, os produtos biológicos ainda representam apenas 3% do total de negócios com insumos. Mateus Kfouri Marino, presidente do conselho da cooperativa, ressaltou que a demanda por bioinsumos tem crescido, especialmente entre pequenos e médios agricultores, após uma adoção inicial por grandes produtores e usinas de cana-de-açúcar.

Marino assertivamente afirma:

“Você precisa estar lá no dia a dia do lado dele, ensinando como misturar, como aplicar, como armazenar, mostrando o resultado, o que deu certo e o que não deu certo.”

Essa abordagem prática é essencial, pois cada bioinsumo deve ser considerado em conjunto com a rotação de culturas, manejo do solo e outras práticas agrícolas. No caso da cana-de-açúcar, por exemplo, o uso de bionematicidas, biofungicidas e bioinseticidas já está amplamente estabelecido. No café, produtos organominerais passaram por um processo de demonstração antes de ganharem espaço comercial.

Desafios na Indústria de Bioinsumos

A expansão do mercado também é acompanhada pela necessidade de inovação na indústria. Felipe Itihara, gerente de inovação da Koppert Brasil, aponta que, apesar do crescimento de 25% a 30% por ano, o setor ainda depende de um número limitado de micro-organismos e formulações. Para que os bioinsumos possam competir de igual para igual com os químicos, novas cepas e formulações precisam ser desenvolvidas.

Ele questiona:

“Será que a gente também não está pensando isso com os biológicos? Será que a gente está pensando na praga e não no sistema produtivo?”

Rodrigo Mendes, pesquisador da Embrapa Meio Ambiente, complementa que a compreensão atual dos bioinsumos é apenas uma fração do que pode ser explorado. O próximo passo na pesquisa está na análise do microbioma associado às plantas, que demanda progresso em bioprospecção e técnicas de aplicação.

A Integração entre Pesquisa e Prática no Campo

A produção de bioinsumos pode encontrar um empecilho nas questões regulatórias, especialmente em relação à propriedade intelectual. Itihara defende que os agricultores devem ter o direito de fabricar seus próprios bioinsumos, desde que sigam critérios que garantam qualidade e segurança. Estas definições regulamentares irão impactar diretamente o quanto do conhecimento gerado no Brasil pode ser aplicado na prática agrícola.

Para os profissionais e agricultores envolvidos neste setor em expansão, a jornada em direção a um futuro agrícola mais sustentável e independente está repleta de desafios, mas também de grandes promessas. A chave para o sucesso está na colaboração entre pesquisa, indústria e prática agrícola, engajando todos os elos da cadeia produtiva em busca de uma agricultura mais responsável e autossuficiente.


A trajetória dos bioinsumos no Brasil apenas começou, e o potencial continua se desdobrando à medida que a tecnologia avança e a colaboração se intensifica. O futuro ressoa com a esperança de novas descobertas e inovações que poderão não apenas transformar a agricultura brasileira, mas também colocar o Brasil como um protagonista nas discussões globais sobre segurança alimentar e sustentabilidade. Que o momento atual seja apenas o início de uma revolução agrícola!

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