China e EUA: Cúpula Pode Respirar Novo Ar na Crise de Soja!


As indústrias privadas da soja na China estão enfrentando um desafio significativo na oferta para o quarto trimestre, o que está pressionando os custos. Essa situação ocorre em meio à diminuição dos estoques no Brasil, que se destaca como o principal exportador da commodity, enquanto as tarifas sobre os produtos dos Estados Unidos os tornam praticamente inacessíveis.

A maior indústria de processamento de oleaginosas do mundo já está experimentando um cenário complicado, com margens operacionais negativas e uma queda na demanda por ração animal, impulsionada pela redução no rebanho suíno da China. Os processadores esperam que a visita do presidente Xi Jinping a Washington neste mês incentive Pequim a reconsiderar a tarifa de 10% sobre os produtos agrícolas provenientes dos EUA, o que poderia aliviar a pressão sobre o mercado.

Na última quinta-feira, Jamieson Greer, representante comercial dos EUA, afirmou que os dois países fariam alguns anúncios relacionados à agricultura e à eliminação de barreiras não tarifárias durante a cúpula, embora os detalhes ainda não tenham sido divulgados. Isso gera expectativa entre os interessados do setor.

“À medida que a América do Sul se aproxima do final da sua safra, as usinas privadas da China precisarão de acesso à soja dos EUA”, comentou Johnny Xiang, fundador da AgRadar Consulting, com sede em Pequim. “Estamos contando com a redução das tarifas ou, na falta disso, com a possibilidade de leilões das reservas da Sinograin, a empresa estatal de estocagem, para manter as usinas em operação”, completou Xiang.

No entanto, qualquer possibilidade de alívio ainda permanece incerta. Um processador na China declarou: “Atualmente, não estamos considerando a soja dos EUA devido às tarifas. Se essas tarifas forem reduzidas, reavaliaremos as margens de processamento para determinar a viabilidade dos carregamentos.”

Vale lembrar que, após uma reunião entre Xi e o ex-presidente Donald Trump em maio, as tradings estatais chinesas compraram cerca de 11 milhões de toneladas de soja dos EUA. Por outro lado, as usinas privadas têm evitado as cargas norte-americanas, principalmente devido às tarifas altas.

A Reuters também buscou um posicionamento do Ministério do Comércio da China, mas ainda não obteve retorno.

Um Mercado em Alta, Mas Com Margens Comprometidas

Os futuros da soja nos EUA experimentaram uma alta de quase 12% desde as mínimas de junho. Esse aumento foi motivado principalmente por condições climáticas adversas, compras por parte do governo chinês e a expectativa de que o fenômeno El Niño possa impactar a oferta global da commodity.

Atualmente, a soja brasileira para embarque em novembro está sendo negociada com um prêmio de US$ 3,15 a US$ 3,20 por bushel em relação ao contrato da Bolsa de Chicago, incluindo custo e frete para a China. Por outro lado, as cargas do Golfo dos EUA estão na faixa de US$ 3,20 a US$ 3,25 por bushel, mas sem incluir as tarifas, o que torna a comparação bastante enganosa.

Apesar de os preços da soja dos EUA estarem acima dos produtos brasileiros, investidores estão esperançosos de que a colheita nos EUA, que ocorrerá nas próximas semanas, aumente a disponibilidade e pressione os preços para baixo.

“A incerteza sobre o preço final da soja dos EUA é alta, já que não temos visto grandes consultas de compra vinda da China”, explicou Xiang. Vale notar que a próxima safra brasileira só deve ser colhida a partir de 2027.

Mesmo se as tarifas de 10% forem eliminadas, as importações de soja dos EUA programadas entre outubro e janeiro ainda gerariam margens de esmagamento negativas, conforme análise de Rosa Wang, da Shanghai JC Intelligence Co., além de outros operadores e analistas do setor.

“As margens teóricas para a soja brasileira e norte-americana, desconsiderando a tarifa adicional de 10%, variam entre 150 e 230 iuanes (equivalente a US$ 22,35 a US$ 34,27) por tonelada no vermelho, para embarques programados entre outubro e dezembro”, comentou Wang.

Neste contexto, espera-se que a diminuição do rebanho suíno na China continue no quarto trimestre, uma ação da administração chinesa para controlar os estoques e reduzir o peso dos suínos, na busca por estabilizar um mercado que lida com o excesso de oferta.

Os importadores, de acordo com dois operadores baseados na Ásia, já concluíram grande parte das compras para outubro e garantiram 4,8 milhões de toneladas para novembro, o que representa cerca de 60% da demanda estimada. As compras para dezembro e janeiro, por outro lado, ainda estão em fase inicial.

Desafios na Oferta Brasileira

O Brasil, por sua vez, se encontra em uma posição delicada para aumentar suas vendas para a China no quarto trimestre, devido à demanda de compradoras distintas e à intensa atividade de esmagamento dentro do país. Dois analistas brasileiros ressaltam que, até o fim de julho, os produtores haviam vendido cerca de 82% da safra 2025/26, uma quantidade superior à registrada no mesmo período do ano anterior.

Atualmente, esse número pode estar próximo de 85%, conforme apontado por Rafael Silveira, analista da Safras & Mercado. As usinas brasileiras estão competindo ativamente com exportadores e, em alguns casos, chegam a pagar preços acima da paridade de exportação.

As exportações de soja do Brasil para a China até 25 de agosto ficaram atrás em 2,6 milhões de toneladas em comparação ao ano anterior, enquanto as remessas para outros destinos tiveram um aumento de 6 milhões de toneladas, conforme dados de Eduardo Vanin, estrategista sênior de agricultura na Marex, em Curitiba.

Ademais, a Argentina forneceu 7,9 milhões de toneladas adicionais de soja para a China em 2025, marcando um aumento de impressionantes 92,4% em relação a 2024. Contudo, há preocupação de que esse estoque vital diminua em 2026, caso outras políticas não sejam implementadas.

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