Christian Otero e a Revolução do Sorvete: A História da Lucciano’s
Steve Jobs transformou os telefones 131 anos depois de Alexander Graham Bell. Elon Musk revolucionou os carros um século após Henry Ford. Com um objetivo mais modesto, Christian Otero almejou reinventar o sorvete 450 anos após Bernardo Buontalenti criar o primeiro gelato artesanal em Florença, durante o Renascimento. Já na Roma Imperial, consumia-se sorvete ao se enterrar misturas de leite de búfala, farinha e cânfora para refrescar os imperadores.
A Expansão da Lucciano’s
Embora a comparação possa parecer atrevida, em apenas 15 anos, a Lucciano’s saltou de duas filiais em Mar del Plata, na província de Buenos Aires, para se tornar uma das maiores redes de sorvete artesanal do mundo, com 123 unidades (e projetada para 154 no final do ano) em três continentes, atingindo faturamento anual de cerca de US$ 100 milhões (aproximadamente R$ 560 milhões na cotação atual). Mas o que realmente diferencia a Lucciano’s é a experiência imersiva que Otero criou ao redor do consumo de sorvete. Os clientes encaram longas filas para experimentar um novo sabor, como se estivessem esperando o lançamento de um novo iPhone.
Um Encontro Decisivo
No final de agosto, Otero teve a oportunidade de se reunir com Luis Caputo, o ministro da Economia, para celebrar a abertura da 100ª unidade na Argentina. O momento era delicado, dado que o governo buscava estabilizar a macroeconomia antes das eleições, enfrentar reformas e amenizar a crescente tensão social causada pela diversidade no crescimento e a falta de recuperação nos índices de consumo.
A Visão de Otero
O encontro foi marcado por um diálogo produtivo. Otero expressou seu orgulho pelo investimento contínuo na tecnologia de produção e pelos empregos gerados. Ele também reconheceu a complexidade do atual cenário econômico no país, onde é necessário tempo e firmeza para corrigir as distorções macroeconômicas. “Nem todos os setores estão apresentando os mesmos indicadores de consumo”, ele observou.
Números Imponentes
Analisando os números de desempenho da Lucciano’s, de janeiro a julho, o faturamento das lojas operando durante o mesmo período cresceu 13,6% acima da inflação, enquanto o crescimento total, incluindo novas unidades, atingiu 52%. Esse sucesso reflete uma mudança nas prioridades de consumo: enquanto o poder de compra diminui, os consumidores buscam pequenas gratificações, mas eliminam compras habituais.
Estratégia de Crescimento
A Lucciano’s não compete pelo preço, mas sim pela qualidade e pela experiência. Em tempos difíceis, a mudança na receita não deve ser negativa; é preciso elevar o padrão do serviço, o que diferencia ainda mais a marca no setor. Por outro lado, outras redes grandes no mercado parecem se equilibrar apenas operacionalmente.
Expectativas Futuras
Maximiliano Maccarrone, presidente da Associação de Fabricantes Artesanais de Sorvetes, sugere que, embora tenha havido uma leve melhora nas vendas em períodos de férias e durante eventos como Copas do Mundo, a expectativa é de que o setor siga crescendo nos próximos meses. Otero também se mostra otimista, especialmente após a visita de Javier Milei à fábrica, onde ele foi recebido calorosamente pelos trabalhadores.
Desafios com a Abertura Econômica
Recentemente, emergiu uma tensão entre o governo e setores industriais consoante à abertura econômica e à necessidade de redução de impostos locais. Otero lembrou que, no passado, a inflação descontrolada e as restrições cambiais tornavam a administração de negócios um verdadeiro desafio. Contudo, há um otimismo sobre a habilidade de competir globalmente com inovação.
Estrutura de Produção
Atualmente, 80% do faturamento da Lucciano’s vem da Argentina, onde a produção anual atinge 3,6 milhões de quilos de sorvete. A meta da empresa é igualar sua participação entre o mercado interno e o externo, expandindo-se para o Brasil e o México, além de explorar mercados no Oriente Médio.
Na parte externa, as franquias têm tema similar: busca-se sempre parceiros confiáveis que demonstrem compromisso com a marca. O interesse no Oriente Médio é uma novidade, já que a oferta partiu dos próprios investidores, mas desafios como conflitos geopolíticos retardaram os planos.
O Desafio do Mercado Americano
A entrada da Lucciano’s no mercado dos Estados Unidos marcou um passo importante, mas também apresentou dificuldades. As primeiras unidades foram abertas na Flórida, mas o que deveria ser um ambiente de negócios fluido revelou-se um dos mais exigentes. Os custos para abrir uma loja nos EUA são significativamente maiores, tornando o investimento inicial de até US$ 2 milhões uma realidade difícil.
Dificuldades e Estratégias de Abertura
A burocracia local foi um dos principais obstáculos. Na Nova Jersey, cada modificação exigia aprovações e as obras se estendiam muito além do prazo esperado, impactando diretamente nos custos e no planejamento financeiro, que agora prevê ROI entre três e quatro anos, ao contrário de 10 a 16 meses na Argentina.
Divisão da Rede
Globalmente, a Lucciano’s opera com 123 lojas, com 102 na Argentina e 21 no exterior. A rede se divide equitativamente entre unidades próprias e franquias, sendo que a expansão segue criteriosamente dos locais mais promissores.
Modelo de Franquias
Para quem deseja entrar na rede de franquias da Lucciano’s, o investimento médio gira em torno de US$ 250.000 (R$ 1,4 milhão). A matriz oferece suporte completo ao franqueado, incluindo maquinário e treinamento. As unidades podem faturar, em média, US$ 1,2 milhão (R$ 6,72 milhões) anualmente, com margens de lucro atraentes.
Aprendizados e Experiências
Ao longo de sua trajetória, a Lucciano’s enfrentou desafios, mas aprendeu com eles: duas lojas precisaram encerrar as atividades devido a localizações inadequadas. A experiência ensinou que a dependência do fluxo de clientes em um centro comercial pode ser arriscada.
Erros comuns entre franqueados incluem porções excessivas e gestão de estoque ineficaz, resultando em perdas de vendas durante alta demanda. Para evitar esses tropeços, a empresa capacita os parceiros a fazer uma gestão eficiente do caixa.
Oportunidade Internacional com Alfajores
O alfajor argentino é outro produto com grande potencial internacional e já começou a fazer sucesso em envios para os EUA e México. A visão de Otero é transformar o alfajor em um conhecido item de consumo global, que vai além do nicho nostálgico argentino, especialmente com qualidade superior nos ingredientes.
A Paixão pelo Futebol
A relação entre a marca e o futebol argentino é outra estratégia de marketing. Otero usou eventos como Copas do Mundo para se conectar com torcedores e aumentar a visibilidade da marca nos Estados Unidos.
Estrutura Familiar e Visão de Futuro
A trajetória de Otero também é marcada pela colaboração com seu pai, cuja visão sempre foi de que a estrutura da empresa deve acompanhar o crescimento, evitando o estresse financeiro.
Até 2027, a meta é aumentar a presença no Brasil e Oriente Médio, onde os mercados apresentam grande potencial. Hoje, a margem de lucro e o plano de expansão indicam um futuro promissor para a Lucciano’s, seguindo o objetivo de se tornar a maior rede de sorvete artesanal do mundo, desafiando gigantes do setor.
Com uma trajetória de dedicação e inovação, Christian Otero prova que é possível reinventar produtos clássicos e conquistar o paladar global, tornando cada sorvete uma experiência memorável.


