Cientistas Revelam o Quarto Tipo de Câncer que Pode Ser Transmitido: Entenda Essa Descoberta Surpreendente!


Em 2012, um pescador fez uma descoberta surpreendente no Lago Memphremagog ao retirar um bagre-marrom que apresentava uma estranha camada escura na pele, parecendo até um revestimento de piche. Ele levou o espécime a Peter Emerson, um biólogo do Departamento de Pesca e Vida Selvagem de Vermont, que vinha acompanhando as condições do lago desde 2009. Para Emerson, aquele era um caso inédito.

O que começou como um caso isolado rapidamente se espalhou. Em menos de três anos, investigadores notaram que entre 25% a 40% dos bagres da região apresentavam esses crescimentos anormais. Pesquisadores da Universidade de Vermont fizeram uma descoberta alarmante: o melanoma estava se propagando entre os peixes, transmitido através de células cancerígenas vivas.

Esse fenômeno representa o quarto tipo de câncer transmissível já identificado pela ciência, marcando a primeira vez que se registra tal ocorrência em peixes e em um ambiente de água doce.

O Que é um Câncer Transmissível?

Normalmente, quando casos de câncer surgem em um local específico, eles tendem a ter uma causa comum, como exposição a substâncias químicas nocivas ou infecções. Os bagres-marrons são considerados indicadores da qualidade da água, já que desenvolvem tumores no fígado em ambientes poluídos. Além deles, o lúcio-americano (walleye) é portador de um retrovírus que causa sarcomas na pele.

Por isso, a equipe de pesquisadores começou a investigar essas possibilidades após a tempestade tropical Irene, em 2011, que poderia ter liberado poluentes nas águas do lago. Contudo, mesmo em lagos com níveis elevados de contaminantes, os peixes estavam saudáveis.

Desde 2014, amostras de tecidos foram examinadas pelo núcleo de bioinformática da Universidade de Vermont. Após anos de sequenciamento genético, nada indicou a presença de vírus ou microrganismos relacionados à doença.

Então, Júlia Dragão, professor associada em Microbiologia e Genética Molecular, decidiu investigar potenciais mutações genéticas compartilhadas.

Diferentemente do que ocorre em um câncer típico, onde os tumores são geneticamente próximos ao host, no Lago Memphremagog a situação era diametralmente oposta: os tumores formavam um grupo único, e os peixes saudáveis se agrupavam em outra ramificação. Centenas de milhares de mutações eram comuns entre os tumores, mas ausentes no DNA dos peixes que os abrigavam.

“Trata-se de um câncer clonal,” explicou Dra. Dragão à Forbes. “O tumor não é causado por um microrganismo, mas sim pela própria natureza do câncer.”

Um Lago entre 90

Em 2017, a equipe voltou ao Lago Memphremagog, monitorando quatro locais em Vermont e três em Quebec, no Canadá. A taxa da doença mostrava-se similar em todas as áreas, sugerindo que, em apenas cinco anos, ela havia se disseminado por todo o lago binacional, que se estende por mais de 48 quilômetros.

Análises genéticas revelaram que o câncer teve origem em um local distinto. Os tumores no Lago Memphremagog eram geneticamente mais próximos de bagres sadios de Nova Hampshire e Maine, em vez dos que estavam desenvolvendo a doença atualmente.

Além disso, a questão não é exclusividade de Vermont.

Emerson afirmou: “A doença parece estar se espalhando por New Brunswick, Nova Escócia, Maine, New Hampshire, Massachusetts, Pensilvânia… Já foi registrada até em Wisconsin e Nova York. Está em toda parte.”

Dra. Dragão também encontrou o mesmo tipo de câncer em bagres de outros corpos d’água.

Quando Emerson menciona que a enfermidade está “em toda parte”, refere-se à sua dispersão geográfica, e não à frequência com que aparece em cada local. A região possui cerca de 90 lagos. Embora os bagres estejam presentes na maioria deles, o câncer foi encontrado apenas em um.

Esse fenômeno é bem conhecido por ecólogos: uma espécie pode se espalhar por uma vasta área geográfica, mas se concentrar em lugares específicos. Os pesquisadores acreditam que a dificuldade em propagar o câncer não se deve à sua capacidade de sobreviver nos peixes, mas à dificuldade em alcançar novos lagos.

Disso surge a pergunta: como se dá o transporte dessa doença entre diferentes corpos d’água? Em ambientes lacustres, a principal via de transmissão costuma ser a atividade humana, comportamentos semelhantes aos de espécies invasoras.

O Que o Câncer Provoca nos Peixes?

Emerson descreve a situação como uma praga.

Os tumores podem aparecer em qualquer parte externa do corpo dos peixes, muitas vezes dentro da boca ou nos barbilhões — aqueles “bigodes” que eles utilizam para encontrar alimento no fundo dos lagos.

Ele observa: “Os barbilhões deveriam ser longos, mas, quando afetados pelo melanoma, se tornam curtos. Isso altera a forma como os peixes conseguem se alimentar.”

Apesar dessa limitação, Emerson assegura que Lago Memphremagog é rico em alimento. “Eles não passarão fome aqui,” explica.

Entretanto, o impacto vai além do indivíduo; trata-se do bem-estar de toda a população.

A natureza nos trouxe exemplos extremos. A doença do tumor facial do diabo-da-tasmânia — uma das outras três doenças transmitíveis conhecidas — reduziu em até 90% algumas populações desse marsupial australiano. Por outro lado, leucemias transmissíveis em mariscos e mexilhões se disseminaram amplamente sem levar a um colapso populacional.

No caso do bagre do Lago Memphremagog, eles ainda são numerosos, e a prevalência da doença parece ter se estabilizado, o que sugere um cenário mais benéfico, semelhante ao que se observa em moluscos.

Quantos Outros Cânceres Transmissíveis Podem Existir?

Sendo esse o quarto tipo de câncer transmissível conhecido, surge uma importante questão: quantos mais ainda permanecem ocultos?

Frederico Thomas, pesquisador do CNRS na França, aponta que a ocorrência de um câncer transmissível é uma “transição evolutiva muito rara”. No entanto, isso não significa que seja um evento limitado a apenas quatro vezes.

O câncer facial do diabo-da-tasmânia surge de maneira independente em duas situações diferentes. Já as leucemias transmissíveis em moluscos apareceram em pelo menos dez ocorrências distintas, em várias espécies.

Thomas acredita que existem mais casos do que imaginamos, já que identificá-los requer compará-los geneticamente — um procedimento raro em investigações de animais selvagens.

Andrew Storfer, um geneticista da Universidade Estadual de Washington, também compartilha dessa visão.

Para ele, “Não creio que esses cânceres sejam tão raros quanto alardeamos.”

Dra. Dragão foi ainda mais direta: “As pessoas não estão prestando muita atenção aos bagres.”

Atualmente, sua equipe está utilizando fotografias enviadas por pescadores através do aplicativo Fishbrain para identificar novos casos da doença. Dessa forma, o monitoramento desse novo câncer transmissível é parcialmente feito através de uma rede social de pesca.

Embora isso possa parecer um método improvisado, a prática reflete uma tendência crescente na ciência. Fotos de cidadãos têm se convertido em ferramentas valiosas para detectar surtos de doenças, invasões biológicas e mudanças na distribuição de espécies, algo difícil de acompanhar apenas por meio de equipes de campo.

O Que Pode Ser Feito?

Ainda não há um consenso sobre as melhores práticas para controlar a doença no Lago Memphremagog ou para evitar que se espalhe para outros lagos.

Storfer, que estuda a doença em diabos-da-tasmânia, ressalta que quedas populacionais significativas podem ser temporárias. Seu grupo sugere que os gestores ambientais não intervenham, permitindo que as populações diminuam e, consequentemente, se recuperem de maneira natural.

Existem regras que proíbem os pescadores de transportar iscas vivas e água de um lago para outro. Essas normas foram estabelecidas inicialmente para evitar a introdução de espécies invasoras, muito antes da descoberta do câncer transmissível.

Emerson acredita que é necessário reavaliar essas diretrizes, mas reconhece as dificuldades dessa tarefa.

Ao ser questionado sobre se um pescador comum conseguiria identificar um peixe doente ao pegá-lo, Emerson observou a falta de informações nos acessos aos barcos: “Nunca ninguém me fez essa pergunta antes.”

*Por John Drake, colaborador e professor na Universidade da Geórgia

*Reportagem originalmente publicada em Forbes.com

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