A Ascensão da China na Economia Global: Desafios e Oportunidades
Após as visitas de estado dos presidentes dos EUA e Rússia à China, muitos comentaristas ocidentais notaram que pouco foi alcançado em termos concretos. Entretanto, do ponto de vista chinês, o que realmente importava era a imagem transmitida pela mídia estatal: o líder Xi Jinping, assim como antigos imperadores, recebendo homenagens de figuras internacionais de destaque. Esta representação reforça a narrativa de que a China se ergueu como uma superpotência, posicionando-se no centro da cena global.
A Narrativa do Nacionalismo Chinês
O discurso nacionalista, que proclama que a China encontrou a fórmula ideal para reconciliar autoridade estatal e dinamismo de mercado, pode obscurecer uma realidade crucial: o crescimento da China não ocorreu à margem da ordem internacional estabelecida, mas sim através de sua exploração astuta. Nos primeiros anos da China comunista, o país dependia da União Soviética para construir suas bases. Desde a abertura promovida por Deng Xiaoping, na década de 1970, a China usou sua inserção na economia global para se transformar em uma potência econômica e militar.
Dependência da Ordem Ocidental
Porém, há uma desconexão notável em como Pequim percebe sua posição no mundo atual. A China consolidou seu controle sobre cadeias de suprimentos e conquistou um poder sem precedentes em relação a seus parceiros comerciais. Ao buscar uma liderança industrial, ignorou críticas sobre como sua superprodução prejudica outras economias, especialmente na Europa e nos EUA. Durante o Fórum Econômico Mundial em Dalian, ao invés de reconhecer sua dependência de mercados ocidentais para absorver seus excessos, o primeiro-ministro Li Qiang reivindicou que a competitividade da China se baseia em inovações.
O Paradoxo da Ascensão Chinesa
Atualmente, é possível afirmar que a China detém vantagem em várias indústrias globais, especialmente na Europa, que enfrenta dificuldades devido à concorrência chinesa. A falta de uma estratégia unitária por parte da União Europeia pode levar a uma erosão de sua coesão econômica e política. Contudo, a frustração crescente com a China já resulta em medidas severas por parte dos EUA e da Europa para proteger suas indústrias. A ascensão da China está, paradoxalmente, intrinsecamente ligada à abertura das economias que pretende superar.
A Ambição Global da China
Desde a fundação da República Popular da China em 1949, sua ambição estratégica sempre foi restabelecer seu lugar no centro da ordem internacional. Para os líderes chineses, a hegemonia ocidental representa o principal obstáculo a essa aspiração. A China não rejeitou a ordem internacional; pelo contrário, utilizou-a para acelerar seu crescimento e, à medida que seu poder se expandiu, começou a desafiá-la por dentro.
Um Jogador Estratégico no Cenário Internacional
Um exemplo claro dessa estratégia é a Iniciativa do Cinto e Rota, que visa conectar economias em desenvolvimento e desenvolvidas, criando uma rede baseada em normas e cadeias de suprimentos chinesas. Essa abordagem visa deslocar o centro de gravidade da economia internacional, desafiando as instituições que sustentam a liderança dos EUA desde a Segunda Guerra Mundial.
A Queda da Ordem Liberal Ocidental?
A crescente influência da China reforçou a ideia de que a hegemonia dos EUA está em declínio. O mantra “Leste em ascensão, Oeste em declínio” reflete essa percepção, especialmente após a crise financeira de 2007-2008, vista como uma fragilidade estrutural da ordem liberal ocidental. Essa narrativa permeia a cultura popular, com memes e discursos que indicam que os americanos estão vivendo à beira do colapso.
O Impacto da Dependência Econômica
Os líderes chineses são parcialmente conscientes das distorções econômicas que a ascensão exportadora do país trouxe. Economistas reconhecem que a insuficiência da demanda interna é um dos principais desafios do país. Se não houver um aumento significativo na renda das famílias chinesas, a superprodução e a superávit se perpetuarão, exigindo que outros países absorvam esses excedentes.
Protecionismo e Respostas Internacionais
A abordagem de Pequim, ao priorizar a produção em detrimento do consumo, tem fomentado respostas protecionistas nos EUA e na Europa. Um consenso bipartidário nos EUA visa reduzir a dependência das cadeias de suprimento chinesas, enquanto a Comissão Europeia caracteriza as relações econômicas com a China como “insustentáveis”. A falta de ação poderá resultar em desemprego elevado e desindustrialização, impulsionando movimentos políticos nacionalistas e de extrema-direita na Europa.
O Desafio da Hegemonia Industrial
Apesar de Pequim ter rejeitado as preocupações ocidentais como uma tentativa de se desviar de suas dificuldades econômicas, a realidade é que a dependência da China em relação aos mercados externos é um ponto frágil. Mesmo que a China continue a se apresentar como uma potência estável, a pressão para adaptar sua economia se intensificará à medida que se torna menos viável para o Ocidente absorver seus excedentes.
Encaminhando-se para um Novo Modelo Econômico
Um dos principais desafios de Pequim é a necessidade de um reequilíbrio em seu modelo de crescimento. Se as economias ocidentais retomarão controle sobre suas contas externas, a China se verá forçada a se adaptar. Uma reorientação bem-sucedida poderia significar um aumento da renda das famílias e uma redução da desigualdade interna, facilitando um crescimento fundamentado no consumo ao invés de exportações.
A Riqueza Compartilhada e o Futuro da Estabilidade Global
Um caminho mais sustentável para a China envolveria compartilhar mais os frutos do crescimento econômico com sua população. Essa redistribuição poderia não só aliviar tensões com o Ocidente, mas também contribuir para uma ordem internacional mais estável. Entretanto, a implementação de tais mudanças exigirá enfrentamentos significativos, tanto econômicos quanto políticos.
Reflexões Finais
O futuro da economia global pode depender da capacidade da China de reconsiderar a lógica que sustentou sua ascensão. Embora tenha sido bem-sucedida em moldar o ambiente internacional, é fundamental que a China evite o erro de tratar sua posição atual como um destino histórico. Caso contrário, poderá desencadear um conflito comercial prejudicial, arriscando sua própria aspiração de renovação nacional e a estabilidade global.
A jornada da China na economia global é repleta de desafios e oportunidades. À medida que os líderes chineses enfrentam a pressão interna e externa, fica a pergunta: como eles irão responder a essa nova realidade? É uma questão que requer reflexão e, talvez, uma nova visão para o futuro.


