O Novo Rumo da Iniciativa Privada na China: Perspectivas de um Futuro Mais Brilhante
Em 2020, a China decidiu investigar a Ant Group, uma subsidiária financeira do gigante tecnológico Alibaba, gerando uma onda de apreensão no setor empresarial do país. A ação inesperada resultou na suspensão do IPO da Ant, que prometia ser o maior do mundo à época, e culminou em multas bilionárias para a Ant e outras plataformas tecnológicas. Jack Ma, fundador da Alibaba, que havia criticado a abordagem cautelosa de Pequim em relação à regulação financeira, viu-se forçado a se afastar do foco público. Nas semanas e meses que se seguiram, as empresas privadas na China operaram sob um nevoeiro de incerteza regulatória: os limites do que era aceitável mudavam frequentemente, as penalidades eram aplicadas mais rapidamente do que as regras podiam ser compreendidas, e a falta de coordenação entre os órgãos de fiscalização agravava a situação. Muitos empreendedores chegaram a concluir que o ambiente de negócios estava hostil, levando-os a reduzir investimentos ou até mesmo transferir suas operações para o exterior.
A Mudança de Direção de Xi Jinping
Porém, em fevereiro de 2025, houve um sinal de que a maré poderia estar mudando. O líder chinês Xi Jinping convidou Jack Ma para um simpósio com empreendedores—sua primeira aparição pública junto a líderes do governo desde o início das investigações contra a Ant Group. O encontro gerou bastante repercussão na mídia, mas indicou algo ainda mais amplo: os líderes políticos da China estavam reconhecendo a importância do setor privado. Muitas das inovações que impulsionaram a dominância global da China, nos setores de baterias, e-commerce, veículos elétricos e painéis solares, vieram não de estatais, mas de empresas privadas ágeis e competitivas no mercado internacional. À medida que o país busca superar barreiras críticas em ciência e tecnologia—como em semicondutores e inteligência artificial—os líderes tornaram-se cada vez mais conscientes de que o progresso depende da iniciativa empreendedora.
Um Novo Modelo de Gestão do Setor Privado
As autoridades de Pequim têm trabalhado para criar um modelo mais claro e previsível de gestão do setor privado. Isso não significa um afrouxamento total do controle político; pelo contrário, o Partido Comunista Chinês (PCC) busca institucionalizar um sistema de supervisão que promova a inovação, desde que essa inovação sirva ao interesse nacional por autodeterminação tecnológica. O novo modelo oferece estabilidade regulatória às empresas em troca do cumprimento das regras do PCC e alinhamento com suas metas políticas.
Redefinindo Limites e Regras
A nova estratégia chinesa começa pela definição clara do que as empresas podem ou não fazer. A fim de estabilizar a relação entre o estado e as empresas, as autoridades simplificaram os mandatos conflitantes das agências regulatórias. Enquanto as investigações anteriores geravam confusão devido a demandas inconsistentes, os formuladores de políticas estão estabelecendo regras coesas sobre como cada setor deve lidar com dados, registrar algoritmos e transferir informações internacionalmente. Por exemplo, as diretrizes sobre dados automotivos publicadas em fevereiro de 2026 definem claramente quais dados dos veículos podem ser compartilhados no exterior, facilitando a expansão de empresas de veículos elétricos sem risco de conflito com os reguladores.
Protegendo os Empreendedores
Além disso, o governo implementou pela primeira vez a Lei de Promoção da Economia Privada, que promete tratamento legal igualitário, proteção de propriedade e acesso justo ao mercado para as empresas privadas. Também houve um esforço do judiciário para diferenciar disputas econômicas de casos criminais, visando acabar com o medo de ações arbitrárias contra empreendedores. Por fim, os meios de comunicação estatais têm dado destaque a decisões judiciais que favorecem empresas em disputas com agências governamentais, indicando uma nova disposição em conter abusos administrativos.
A Influência Política Dentro das Corporações
O partido também tem se aprofundado na estrutura corporativa, utilizando células partidárias—unidades de organização do PCC dentro das empresas. Essas células são necessárias em empresas que empregam ao menos três membros do partido e geralmente incluem gerentes de nível médio ou superior. Embora antes tratadas como secundárias, elas ganharam relevância na transmissão de mensagens políticas e na expectativa de que as companhias alinhem seus objetivos às prioridades do PCC.
Em situações mais diretas, entidades estatais podem assumir ações douradas, ou pequenas participações acionárias em empresas, o que, apesar de não representar grande valor financeiro, confere poder de veto sobre decisões internas. Isso permite que o estado influencie empresas em momentos críticos sem micromanagement, um recurso já aplicado em setores como dados, finanças e tecnologia avançada.
Promovendo Inovações e Oportunidades
No que diz respeito à gestão da interação global das empresas, o modelo anterior era ad hoc. Um exemplo disso ocorreu em 2021, quando a plataforma de caronas Didi buscava um IPO em Nova Iorque. Embora os reguladores tenham recomendado que atrasasse o lançamento, não impuseram bloqueios explícitos, o que levou a uma revisão severa após a listagem. O novo modelo de Pequim se volta para um gerenciamento mais segmentado, ajustando o controle sobre a exposição internacional das empresas de acordo com os riscos e recompensas que cada setor apresenta para o desenvolvimento nacional.
A Indústria de Biotecnologia em Foco
O setor de biotecnologia, por exemplo, enfrenta tensões entre inovação e segurança, já que a competitividade depende de colaborações globais. Apesar de Pequim buscar acelerar inovações, a regulamentação se torna cada vez mais rigorosa, limitando parcerias internacionais e sujeitando colaborações a revisões de segurança nacional. O objetivo é fazer com que empresas do setor rentabilizem mais no mercado interno, embora isso possa prejudicar a velocidade de descobertas que dependem da colaboração internacional.
O Casamento entre Estado e Inovação
O exemplo da Alibaba ilustra como essa nova relação entre estado e empresas está se desenvolvendo. Em vez de sufocar a Ant Group em 2020, o governo restringiu a expansão do setor privado, criando espaço para que фирмы aproveitem suas forças a serviço dos interesses do partido. Assim, a Alibaba se reinventou, mudando seu foco de uma plataforma voltada ao consumidor para provedora de infraestrutura em AI e nuvem, com inovações como a família de modelos de linguagem Qwen, agora referência mundial.
Essa mudança de trajetória não é apenas um gesto de conformidade; a Alibaba agora concentra suas operações principalmente em AI, computação em nuvem e comércio eletrônico, permitindo que o governo a regule mais facilmente. Ao mesmo tempo, a utilização de tecnologia local, como chips desenvolvidos internamente, sinaliza um alinhamento com as ambições do país.
Reflexões sobre o Futuro da Iniciativa Privada na China
O questionamento não é se a China quer revitalizar seu setor privado, mas como fará isso. A comunicação clara entre as políticas do governo e as grandes empresas como Alibaba é crucial para acelerar um crescimento sustentável. No entanto, um grande desafio permanece: reconstruir a confiança do empreendedorizado, abalada por uma série de choques regulatórios.
Num cenário de alta tensão geopolítica, a nova geração de empreendedores surge com a disposição de enfrentar os desafios e se adaptar. Este grupo, muitas vezes chamado de “nova cebolinha”, reflete uma juventude que cresceu já lidando com a maior interferência do estado, aceitando um novo normal que prioriza o alinhamento às necessidades do governo. Se essa nova abordagem criada por Xi Jinping se consolidar com sucesso, pode se tornar uma das maiores marcas de seu governo: um modelo político que combina autoridade centralizada com vitalidade empreendedora.
Portanto, fica a pergunta: será que ao se concentrar em suas estratégias regulatórias com maior clareza e objetivo, o governo chinês será capaz de capitalizar sobre seu “ganso de ouro”—as iniciativas do setor privado—para avançar ainda mais em suas metas tecnológicas e econômicas? Somente o futuro dirá, mas a esperança é que nem as quedas, nem os desafios façam com que a chama da inovação se apague.




