Como a Corrida por Energia Limpa Pode Impulsionar o PIB do Brasil em Até 1,5 Ponto


A Revolução da Economia Global e as Oportunidades para o Brasil

Nos últimos anos, a economia global tem passado por transformações profundas. As mudanças climáticas, as novas dinâmicas geopolíticas e o avanço constante da tecnologia estão alterando os modos de produção, comércio e investimento. Nesse contexto, o Brasil se destaca como um potencial líder na transição para a energia limpa, com a possibilidade de adicionar até 1,5 ponto percentual ao seu crescimento econômico, de acordo com estudo do Instituto de Clima e Sociedade (iCS) em parceria com o Centre for Economic Transition Expertise (CETEx) da London School of Economics.

O Impacto da Transição Energética

A transição energética está provocando uma das maiores realocações de capital que o mundo já viu. Em 2024, os investimentos globais na economia de baixo carbono devem ultrapassar US$ 4 trilhões (aproximadamente R$ 20,67 trilhões), com previsões de chegar a US$ 5,6 trilhões (cerca de R$ 28,94 trilhões) anuais entre 2025 e 2030. Sectores intensivos em energia, como as indústrias de aço, químicos e fertilizantes, devem receber parte significativa desses recursos, somando entre US$ 600 bilhões e US$ 800 bilhões anuais na próxima década.

O Papel dos Mercados Emergentes

Os países em desenvolvimento, incluindo os mercados emergentes, estão em uma posição estratégica neste novo cenário. Embora enfrentem dificuldades para se adaptar, esses países têm o potencial de atrair investimentos, aumentar sua competitividade e acelerar o crescimento através da transição para uma economia limpa. Segundo Jorge Arbache, professor da Universidade de Brasília e coautor do estudo, “o mundo está mudando de uma era em que a energia era transportada para a indústria para uma em que a indústria buscará cada vez mais a energia limpa”.

O Brasil Como Potência Verde

O Brasil aparece como um dos países com maior capacidade de transformar a transição ecológica em uma oportunidade concreta de desenvolvimento econômico e geração de empregos. A urgência climática e a reconfiguração das cadeias globais de valor tornaram as vantagens naturais do país em verdadeiros ativos para atrair capital. O relatório enfatiza que os investimentos em sustentabilidade estão impulsionando o crescimento no Brasil.

Maria Netto, diretora executiva do iCS, destaca que o Brasil pode oferecer segurança em três áreas essenciais: energia limpa e sustentáveis, minerais críticos extraídos de forma responsável, e segurança alimentar inovadora.

Transformando Vantagens em Investimentos

Atualmente, o Brasil está em um ponto em que não apenas possui recursos passivos, mas sim “ativos-instrumentos” que podem atrair investimentos estrangeiros. Mesmo uma modesta participação nesse redirecionamento de capital pode elevar o PIB brasileiro em até 1,5 ponto percentual a médio prazo, fortalecendo a indústria nacional e consolidando a posição do país na economia de baixo carbono.

O Custo da Energia Limpa

A economia global está passando por uma mudança significativa na forma como a produção é localizada, uma tendência chamada de “powershoring”. Em vez de depender da energia transportada para centros industriais, as empresas estão realocando atividades para regiões onde a eletricidade limpa é acessível e barata. O Brasil, com 90% de sua matriz elétrica proveniente de fontes renováveis, é um exemplo claro: 56% desse total é de energia hidrelétrica e 23% de solar e eólica.

Em termos de competitividade, o Custo Nivelado de Eletricidade (LCOE) da energia eólica no Brasil é de apenas US$ 33,6 por MWh, em comparação com US$ 67,2 na Bélgica e US$ 140,2 no Japão. Isso representa uma vantagem significativa para indústrias eletrointensivas, como a siderurgia verde, onde produzir aço em condições sustentáveis e com baixas emissões se torna mais viável financeiramente.

O Valor dos Minerais Críticos

O Brasil possui grandes reservas de minerais essenciais como bauxita, nióbio e lítio, mas sua participação no mercado global é relativamente baixa, variando entre 2% e 3% nas últimas décadas. Se o país focar no processamento interno e não apenas na extração, o valor bruto da produção poderá aumentar de US$ 5,4 bilhões em 2024 para até US$ 15,6 bilhões em 2030. Essa é uma oportunidade para impulsionar o crescimento e atrair mais investimentos.

Potencial do Nordeste

O Nordeste do Brasil mostra-se como uma das regiões mais promissoras para investimento em “powershoring”. A região, com alta capacidade de energia eólica, pode atrair aproximadamente US$ 30 bilhões até 2035, resultando em cerca de 300 mil a 350 mil empregos. As evidências mostram que o impacto econômico da infraestrutura verde vai além da criação de empregos diretos, afetando positivamente toda a atividade econômica local.

Sustentabilidade e Competitividade

A luta contra o desmatamento ilegal transformou-se em uma questão de competitividade. Em 2023, 93% do desmatamento no Brasil estava ligado a atividades ilegais. Investir na recuperação de áreas degradadas pode ser uma das maiores oportunidades da próxima década, especialmente com os 107,6 milhões de hectares de pastagens degradadas que podem ser revitalizadas.

Desafios Macroeconômicos e Soluções

Apesar do potencial da transição ecológica, o ambiente macroeconômico brasileiro apresenta desafios. Com um crescimento do PIB abaixo de 2% projetado para 2026-2027 e uma inflação persistente, o país precisa de mecanismos criativos para promover investimentos em sustentabilidade. As medidas propostas incluem a criação de um Orçamento Federal Verde, o fortalecimento do Fundo Clima e a mobilização de recursos privados por meio de programas como o Eco Invest Brasil.

Caminhos para o Futuro

Para que a transição ecológica seja sustentada no longo prazo, recomenda-se uma revisão sistemática dos gastos públicos (spending reviews) e mudanças nas regras de indexação do orçamento. Essas reformas poderiam abrir espaço para investimentos estratégicos e fomentar a produtividade.

Por fim, o estudo sugere que parte das receitas geradas pela exploração de petróleo e gás natural sejam direcionadas para um fundo soberano, criando uma reserva financeira que permitisse sustentar investimentos em infraestrutura ecológica.

O Brasil está diante de uma janela de oportunidades para se converter em um líder no cenário global de energia limpa. Ao transformar suas vantagens naturais em ativos atrativos para investimento, o país não só pode suportar sua economia, mas também se firmar como um pilar na luta contra as mudanças climáticas. Que tal refletirmos juntos sobre como podemos impulsionar essa transformação? O futuro energético do Brasil é uma responsabilidade coletiva.

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