O Crescimento da Música Gerada por Inteligência Artificial e Seus Impactos na Indústria
Nos últimos anos, a inteligência artificial generativa emergiu como uma força poderosa na produção e distribuição de música. Contudo, essa inovação também traz desafios significativos, especialmente no que diz respeito à autenticidade e à fraude na indústria musical. Um estudo realizado pela CISAC e PMO Strategy sugere que até 2028, quase 25% das receitas dos criadores de música poderão estar em risco, totalizando cerca de quatro bilhões de euros. Vamos explorar esse cenário e entender melhor como a IA está moldando a música que ouvimos.
Deezer na Vanguarda da Detecção
Em janeiro de 2025, a Deezer se tornou a primeira plataforma de streaming a identificar e rotular músicas geradas por IA em sua plataforma. Desde então, seus dados têm proporcionado um panorama esclarecedor sobre a realidade dos uploads de música gerada por IA.
Até o final de 2025, a Deezer havia detectado e classificado mais de 13,4 milhões de faixas geradas por inteligência artificial. Essas músicas foram removidas de playlists editoriais e recomendações algorítmicas. Além disso, a Deezer começou a oferecer sua tecnologia de detecção a outras plataformas, refletindo uma preocupação crescente com a integridade do conteúdo musical.
Em abril de 2026, a situação se agrava: a Deezer reporta um impressionante volume de 75.000 faixas geradas por IA diariamente, representando 44% de todos os uploads. É alarmante notar que 85% dos streams dessa música são considerados fraudulentos, o que levou Thibault Roucou, chefe de streaming da Deezer, a enfatizar que “gerar streams falsos é o principal objetivo de quem faz uploads de músicas geradas por IA.”
O Impacto da Apple Music
A Apple Music não ficou de fora dessa questão. Em 2025, a plataforma reportou que desmonetizou duas bilhões de reproduções fraudulentas, o que corresponde a cerca de US$ 17 milhões em royalties que poderiam ter ido para artistas legítimos. Para ter uma ideia, essa quantidade de reproduções fraudulentas representa menos de meio por cento do total de streams na plataforma.
O Processo de Geração de Música por IA
Mas como essa onda de música gerada por IA se propaga? Um dos principais facilitadores é a plataforma Suno, que, com seus dois milhões de assinantes, gera impressionantes sete milhões de músicas diariamente. Isso equivale a todo o catálogo histórico do Spotify a cada duas semanas!
A Suno, que alcançou uma receita recorrente anual de mais de US$ 300 milhões em fevereiro de 2026, utiliza um novo método de upload. Em vez de relies em pequenas quantidades de faixas, os fraudadores agora inundam plataformas com milhões de faixas, garantindo que cada uma delas receba algumas milhares de reproduções. Essa estratégia, embora arriscada, evita disparar os alarmes dos sistemas de detecção.
Como mencionou Melissa Morgia, Diretora Global de Proteção de Conteúdo da IFPI, a inteligência artificial tem sido o principal facilitador dessa fraude, permitindo que os criminosos operem de forma invisível, mas em uma escala que os torna lucrativos.
Ferramentas para Burlar a Detecção
Existem ferramentas específicas desenvolvidas para ajudar na manipulação desse sistema de detecção. Uma delas é chamada Undetectr, que promete remover quaisquer indícios de que uma música foi gerada por IA. As funcionalidades dessa ferramenta abrangem correção espectral, humanização do tempo, variação de tom e limpeza de metadados. O TrackWasher é outro exemplo de sistema que ajuda a “camuflar” as marcas geradas por IA.
Essas ferramentas estão disponíveis comercialmente e são acessíveis a qualquer um que deseje distribuir música gerada por IA com maior chance de sucesso no upload.
O Desafio Legal e a Falta de Proteção
Enquanto isso, as plataformas de streaming enfrentam um dilema legal. A lei de direitos autorais presume que a entidade que reivindica os direitos é a criadora da obra. Um exemplo emblemático é o caso de Murphy Campbell, uma musicista que encontrou faixas no Spotify com sua voz sintetizada por IA. Ela enfrentou processos de violação de direitos autorais que afetaram sua própria monetização, levando-a a um estado de frustração em que dependia de sistemas automatizados para resolver um problema que lhe dizia respeito diretamente.
A Lacuna nas Leis de Direitos Autorais
O fato de que Taylor Swift registrou marcas sonoras e visuais em abril de 2026 evidencia a necessidade de novas abordagens legais. Com a capacidade da IA de replicar vozes e composições sem tocar em gravações existentes, a atual legislação de direitos autorais não é capaz de oferecer a proteção necessária.
De acordo com o advogado especializado em marcas registradas, Josh Gerben, as legislações precisam evoluir para incluir as especificidades da criação musical em um futuro dominado pela inteligência artificial.
Spotify e o Futuro das Música
Enquanto isso, o Spotify se vê em uma posição única. Com acesso a gravações, análises de desempenho e metadados, a plataforma está pronta para explorar um novo cenário no qual os direitos autorais e a proteção de vozes se tornam cruciais. Em uma teleconferência em janeiro de 2026, o co-CEO Gustav Söderström declarou que a empresa possui “as capacidades necessárias” para criar um novo modelo de negócios baseado em produtos derivados da música.
Além disso, o lançamento do selo Verified by Spotify em abril de 2026, que exige engajamento constante do ouvinte e presença identificável fora da plataforma, é um passo em direção à autenticidade. No entanto, essa validação não impede que um artista verificado envie faixas geradas por IA sob seu nome.
À Procura de Soluções
Todas essas fraudes exigem um ciclo de fornecimento de conteúdo barato, canais de distribuição amplos e sistemas fiscais que possam ser manipulados. A inteligência artificial já fornece a primeira parte dessa equação. As plataformas de streaming ainda estão se adaptando à segunda, enfrentando a corrupção do sistema criado para garantir a qualidade e a autenticidade.
Recentemente, plataformas como Bandcamp, Believe e TuneCore começaram a tomar medidas mais rígidas contra música gerada por IA. No entanto, as tentativas de bloquear uploads de ferramentas como a Suno foram neutralizadas por serviços que ainda permitem a distribuição sem restrições.
A construção de uma infraestrutura de direitos autorais que funcione para o novo ambiente da música digital está se mostrando um desafio. Como destacou Jongpil Lee, da Neutune, “a detecção identifica o conteúdo gerado por IA. A atribuição responde à questão de onde ele foi criado.” Criar essa segunda camada poderá permitir uma compensação e rastreabilidade efetiva.
Um Olhar para o Futuro
À medida que a indústria musical navega nesta nova era de produções geradas por IA, o futuro da música parece incerto. As estatísticas revelam que o número de faixas geradas por IA aumentou drasticamente — de 10.000 em janeiro de 2025 para impressionantes 75.000 em abril de 2026. A proteção dos direitos dos criadores de conteúdo se torna mais crucial do que nunca.
A conversa sobre o impacto da inteligência artificial na música não é apenas técnica, mas profundamente humana. Como podemos garantir que o verdadeiro talento continue a ser recompensado em um mundo repleto de fraudes? A conscientização é o primeiro passo. Convidamos você, leitor, a compartilhar suas opiniões sobre a evolução da música com inteligência artificial. Como você vê o papel da tecnologia na criatividade? O que você acredita ser o caminho a seguir para proteger os verdadeiros criadores?
Vamos continuar essa conversa.


