O Impacto da Inteligência Artificial no Mercado de Trabalho: Desafios e Novas Iniciativas
A inteligência artificial (IA) tem se tornado uma força transformadora nas empresas, levantando preocupações sobre o futuro do emprego. Um aumento significativo no número de demissões foi associado a essa tecnologia, conforme indicado pelos dados recentes da consultoria de recursos humanos Challenger, Gray & Christmas.
Somente em julho deste ano, as empresas americanas apontaram a IA como justificativa para 10.970 cortes de postos de trabalho. Este foi o quinto mês consecutivo em que a demissão relacionada à tecnologia liderou os anúncios de cortes, totalizando mais de 100.000 demissões atribuídas à IA até junho de 2026.
Essas estatísticas provocam uma reflexão importante: como podemos realmente determinar o papel da IA nas demissões? É isso que o estado de Nova York está tentando descobrir com uma nova legislação.
A Nova Iniciativa de Nova York
No início deste ano, os legisladores de Nova York aprovaram uma lei que exige que as empresas apresentem um relatório anual sobre o impacto da IA em suas equipes. O Projeto de Lei A9581B, aprovado em junho, ainda aguarda a assinatura da governadora Kathy Hochul.
Se for sancionada, essa legislação pode se tornar um dos mais ousados esforços para quantificar como a IA afeta os empregos, embora também possa expor a complexidade de tais medições.
A Contagem de Demissões Relacionadas à IA
A referência à IA nas notificações de demissões não é uma novidade. A governadora Hochul já havia orientado o Departamento de Trabalho de Nova York a coletar dados sobre como a IA influencia as demissões feitas sob a Lei de Ajuste e Retreinamento do Trabalhador (WARN), que exige que as empresas notifiquem sobre demissões em massa.
Por exemplo, a Nespresso registrou um aviso sobre cortes que afetariam 46 pessoas em Nova York, classificando a razão como “Realocação de Negócios, Inteligência Artificial.” Contudo, esses dados deixam muitas perguntas sem resposta. Não fica claro qual a proporção dos cortes se deve à realocação versus ao uso de IA, nem se a tecnologia substituiu diretamente funções ou apenas facilitou uma reestruturação.
Um Projeto de Lei Abrangente
O A9581B vai além das demissões sob a Lei WARN, aplicando-se a empresas com mais de 50 funcionários e também às de capital aberto. Antes, o limite estava em 100 profissionais, mas, visando uma abrangência maior, os legisladores decidiram ampliar essa faixa.
A legislação impõe que, até 1º de março de cada ano, as empresas devem relatar ao Departamento de Trabalho sobre o impacto da IA no ano anterior. Entre os dados que elas precisam fornecer estão:
- Estimativas de funcionários dispensados ou com carga horária reduzida devido à IA.
- Número de contratações e funcionários com carga horária aumentada.
- Funções que não foram preenchidas por conta do uso de IA.
Além disso, as empresas devem detalhar como utilizam a IA, desde os objetivos até as medidas de supervisão e mitigação de riscos. O Departamento de Trabalho irá compilar essas informações e produzir relatórios anuais que analisam o impacto da IA nos diferentes setores.
Identificando Mudanças Além das Demissões
Embora a legislação se concentre em cortes de empregos, a IA pode influenciar uma equipe de maneiras que não resultam em demissões diretas. Imagine um colaborador que deixa o trabalho por vontade própria e, com isso, a equipe remanescente é capaz de assumir as responsabilidades dele, sem a necessidade de contratar um substituto. Embora ninguém tenha sido demitido, a função anterior deixou de existir. Nesse caso, a IA de fato eliminou um emprego?
Esse cenário ilustra como a tecnologia pode modificar a estrutura de trabalho sem causar demissões explícitas. As empresas também podem:
- Reduzir contratações.
- Reorganizar funções entre funcionários existentes.
- Criar novos cargos para gerenciar a IA.
Essas mudanças, muitas vezes invisíveis, são o que o A9581B busca capturar, promovendo uma compreensão mais aprofundada sobre o impacto da IA no mercado de trabalho.
A Complexidade do Efeito da IA nas Demissões
Um desafio considerável é a determinação de quando a IA desempenha um papel na perda de um emprego. Vamos considerar um exemplo: uma empresa que implementa IA generativa em suas operações. A produtividade aumenta, mas ao mesmo tempo, as condições econômicas se deterioram. A administração decide cortar custos e, no ano seguinte, 100 funcionários se desligam.
A empresa opta por preencher apenas 70 dessas vagas, supondo que os funcionários restantes, com a ajuda da IA, podem realizar a carga de trabalho. Assim, quantas posições ficaram sem preenchimento por conta da IA? Talvez 30. No entanto, a situação financeira da empresa também pode ter contribuído para essa decisão, misturando os fatores e tornando a avaliação mais difícil.
O A9581B tenta abordar essa complexidade pedindo que as empresas estimem o impacto “total ou parcialmente” influenciado pela IA. Entretanto, isso pode introduzir subjetividade nas respostas.
Medindo o Impacto da IA no Trabalho
O cenário atual nos Estados Unidos demonstra a dificuldade de definir com precisão o impacto da IA nas demissões. Em 2025, foram registrados 54.836 cortes associados à IA, e até junho de 2026, esse número subiu para 101.743. Em julho, mais 10.970 demissões foram atribuídas à tecnologia.
A consultoria Challenger alerta para o fato de que esses números não devem ser considerados uma medida exata de causa e efeito, dado que as empresas frequentemente discutem suas estratégias de adoção da IA e os mercados reagem a essas divulgações.
A proposta de Nova York tenta responder a um aspecto mais complexo, capturando como as demissões, contratações e ajustes de horas são afetados pela IA. Contudo, será necessário entender as nuances e variáveis envolvidas no processo.
O Futuro da Regulamentação do Mercado de Trabalho
A abordagem adotada por Nova York representa uma evolução significativa nas políticas relacionadas à IA. A governadora Hochul tem buscado promover investimentos em tecnologia, destacando, ao mesmo tempo, os potenciais riscos que essa inovação representa para a força de trabalho. Em uma iniciativa anterior, a administração expandiu o treinamento em IA para mais de 100.000 funcionários públicos, evidenciando a necessidade de uma força de trabalho preparada.
Se o A9581B se tornar lei e a implementação do sistema acontecer conforme o planejado, Nova York poderá oferecer uma visão mais clara e detalhada sobre como a IA está moldando o futuro dos empregos, além das estatísticas tradicionais de demissões. Isso permitirá que os legisladores entendam melhor se a substituição de trabalhadores por IA é uma tendência setorial ou regional, se novas funções estão surgindo juntamente com as que estão sendo eliminadas e se as consequências são percebidas mais em demissões diretas ou em vagas que ficam em aberto.
Esses dados serão cruciais para moldar discussões sobre o treinamento profissional, educação e regulamentação da IA, contribuindo para um futuro mais equilibrado no mercado de trabalho.
*Reportagem adaptada de Forbes.com


