A confiança dos empresários do comércio brasileiro caiu ao menor nível desde maio de 2021, enquanto recuaram os planos de contratação e investimento às vésperas da Black Friday e do Natal. O Índice de Confiança do Empresário do Comércio (Icec), da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC), diminuiu 2,7% em outubro, para 96,7 pontos, na quarta queda mensal seguida.
Contratações e investimentos recuam
A intenção de contratar funcionários caiu 2,8% em outubro. O movimento ocorre antes de dois períodos importantes para as vendas do varejo, quando lojistas costumam reforçar as equipes para atender à demanda. A pesquisa, porém, não informa quantos postos de trabalho deixaram de ser planejados.
O subíndice de investimentos recuou 2,4% e ficou em 98,9 pontos. Dentro desse indicador, os investimentos nas próprias empresas diminuíram 2,7% em relação a setembro e acumularam queda de 4,4% em um ano. Consideradas em conjunto, as intenções de investimento ficaram 1,8% abaixo do nível de outubro do ano passado.
Para José Roberto Tadros, presidente do Sistema CNC-Sesc-Senac, a redução dos planos empresariais pode repercutir além das lojas. “Quando o empresário pisa no freio das contratações e dos investimentos, toda economia desacelera”, afirmou.
Tadros também defendeu maior previsibilidade econômica e condições mais favoráveis para os negócios. Segundo ele, o comércio “quer expandir e gerar postos de trabalho, mas precisa de um ambiente mais favorável para manter o crescimento”.
Piora na avaliação da economia
O indicador que mede a percepção dos empresários sobre as condições econômicas atuais teve a maior queda entre os componentes citados pela CNC: recuou 5,5% em outubro, para 68,2 pontos. Foi o sexto mês consecutivo de retração. Além disso, 78,2% dos entrevistados disseram perceber piora na situação econômica, maior parcela de pessimismo desde maio de 2021.
Também se deterioraram as avaliações sobre o próprio setor de atuação e sobre as condições das empresas. Os indicadores caíram, respectivamente, 6,1% e 4,5% no mês. O resultado geral do Icec, de 96,7 pontos, representa o patamar mais baixo desde maio de 2021, quando o índice havia marcado 94,5 pontos. A queda de outubro foi a mais intensa desde julho.
Entre os segmentos, o de bens semiduráveis — que inclui roupas, calçados, tecidos e acessórios — registrou redução de 5,4% na confiança em relação a setembro e de 3,3% na comparação anual. A CNC relaciona a pressão sobre os comerciantes nacionais à concorrência de produtos importados, especialmente após o fim do imposto de importação conhecido como “taxa das Blusinhas”.
Importações e endividamento pressionam vendas
Fabio Bentes, economista-chefe da CNC, apontou as compras internacionais e o endividamento dos consumidores como obstáculos à recuperação do comércio. “Há uma desaceleração de toda economia, bem como do comércio, impactado por importações diretas sem as cargas tributárias equivalentes para o empresário e com o consumidor mais acanhado por conta do alto endividamento duradouro”, afirmou.
Dados da Receita Federal citados no levantamento mostram que o número de remessas internacionais declaradas passou de 14,4 milhões no ano passado para 25,7 milhões em setembro, alta de 78,7%. O valor das importações chegou a US$ 523,2 milhões, avanço de 84,3%. A expansão amplia a concorrência enfrentada pelos lojistas brasileiros, segundo a entidade.
Apesar da piora nos indicadores, parte dos empresários ainda espera uma recuperação nos próximos meses. A pesquisa aponta que 58,1% acreditam em melhora econômica. O indicador de expectativas, contudo, caiu 1,3% em outubro, registrando a segunda retração mensal consecutiva. O resultado revela que a expectativa positiva permanece entre os entrevistados, mas convive com avaliações mais negativas das condições atuais e com menor disposição para contratar e investir.