Copom mantém Selic em 13,75% e cenário orienta escolhas de investimento


O Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central manteve a Selic em 13,75% ao ano nesta quarta-feira (4), interrompendo uma sequência de cinco cortes consecutivos. A decisão, esperada pela maioria do mercado, ocorre após a reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva e uma forte alta dos juros futuros e do dólar, em meio à mudança de expectativas dos investidores.

Antes da eleição, a maior parte dos investidores estava posicionada para uma vitória de Flávio Bolsonaro (PL). Depois do resultado das urnas, os juros futuros de longo prazo dispararam: a taxa do contrato de Depósito Interfinanceiro (DI) para janeiro de 2031 saiu de 12,6% ao ano e superou 15% no primeiro pregão após o segundo turno. O dólar voltou a passar de R$ 5,45.

Inflação e câmbio limitam cortes

Para Tadeu Arantes, head de alocação da Ghia Multi Family Office, a eleição foi determinante para a decisão do Copom. Ele afirma que a desaceleração da atividade econômica poderia abrir espaço para novos cortes, mas a inflação segue acima da meta e as expectativas se afastaram dela. Essa desancoragem aparece tanto no boletim Focus, que reúne projeções de analistas, quanto na inflação implícita nos juros negociados no mercado.

Arantes também cita a alta do petróleo e a pressão sobre o câmbio como fatores que reduziram a margem do Banco Central para continuar baixando a taxa. Matheus Villela, analista da gestora de patrimônio Aware Investments, avalia que um corte neste momento poderia ser interpretado como leniência com a inflação. Essa leitura, segundo ele, poderia provocar nova alta dos juros longos e pressionar ainda mais o dólar.

A comunicação do Banco Central sobre os próximos passos ganha peso junto com a decisão, afirma Marcelo Boragini, sócio e especialista em renda variável da Davos Investimentos. “Dólar, Bolsa e títulos públicos costumam reagir menos ao que acontece no presente e mais às expectativas sobre a trajetória futura dos juros”, diz.

O cenário econômico também preocupa Arantes por partir de uma base que ele considera fragilizada, com atividade em desaceleração, juros reais elevados e famílias altamente endividadas. Na avaliação do especialista, a confiança do mercado no governo diminuiu desde o início do terceiro mandato de Lula, quando houve um voto de confiança no arcabouço fiscal, conjunto de regras para orientar as contas públicas.

Arantes distingue o déficit primário, que não inclui os juros da dívida, do déficit nominal, que considera esse custo. Segundo ele, o problema maior está no déficit nominal, estimado em cerca de 10% do Produto Interno Bruto (PIB). Sem uma mudança que recupere a credibilidade, o especialista vê risco de câmbio mais depreciado, inflação maior e juros altos por mais tempo. Ele afirma que o país pode caminhar para um cenário de estagflação, combinação de inflação elevada e atividade econômica fraca.

Carteiras com cautela

Apesar da mudança no cenário, os especialistas ouvidos recomendam não fazer alterações bruscas nos investimentos por causa de uma única reunião do Copom. “Nenhuma decisão de investimento deve ser pautada em apenas uma reunião do Copom”, diz Arantes. Villela também defende disciplina e respeito ao perfil de risco de cada investidor, em vez de reagir a cada notícia.

Na renda fixa, os dois apontam títulos atrelados ao Certificado de Depósito Interbancário (CDI), indicador que acompanha de perto a taxa básica de juros, e à inflação como base para as carteiras. Já os títulos prefixados, que definem uma taxa de retorno no momento da aplicação, devem ser evitados até haver mais clareza sobre a situação fiscal.

Na Bolsa, a orientação é manter uma posição menor e escolher os investimentos com mais cuidado. Boragini afirma que a Selic elevada prolonga o período de crédito caro e aumenta a concorrência da renda fixa com as ações. Ele recomenda atenção a empresas endividadas e a setores mais sensíveis ao custo de financiamento e ao consumo, como varejo, construção civil e locação de veículos.

A manutenção dos juros, porém, não significa necessariamente que as ações terão desempenho negativo. Se o comunicado do Banco Central for interpretado como sinal de confiança no controle da inflação, os juros longos podem recuar e favorecer a avaliação das empresas, pondera Boragini. Villela observa que a queda da Bolsa após a eleição atingiu tanto empresas de qualidade e balanços sólidos quanto companhias mais frágeis. Para ele, isso pode abrir oportunidades, embora a volatilidade deva continuar elevada enquanto não houver mais clareza sobre as contas públicas.

Sinais do Banco Central no radar

Como a manutenção da Selic já era esperada, os investidores devem acompanhar a orientação do Copom para as próximas reuniões. Villela diz que uma comunicação firme, indicando estabilidade dos juros por período prolongado e disposição para agir caso a inflação piore, poderia reduzir o prêmio exigido pelos investidores nos títulos de prazo mais longo. Menções explícitas aos riscos fiscais e cambiais também ajudariam, na avaliação dele. Uma sinalização de cortes próximos ou uma abordagem branda sobre a questão fiscal poderia frustrar o mercado.

Arantes espera que o Banco Central tome decisões de acordo com os dados econômicos e a dinâmica do câmbio. Alexandre Pletes, sócio e head de renda variável da Faz Capital, inclui entre os pontos a acompanhar as políticas de subsídio aos combustíveis e seus efeitos sobre a inflação. No campo político, os investidores aguardam a definição de quem comandará o Ministério da Fazenda no novo mandato.

Exposição ao exterior será gradual

Arantes alerta para o risco de vender investimentos no calor da queda. Depois do primeiro turno, segundo ele, clientes mais conservadores da Ghia pediram para aumentar a exposição à Bolsa. Agora, o perigo seria fazer o movimento oposto e vender tudo após as perdas. “É melhor esperar os preços se estabilizarem”, afirma.

A Ghia decidiu acelerar a internacionalização dos investimentos de seus clientes. A carteira já tinha entre 25% e 30% dos recursos no exterior, e a meta é chegar a 50%. Arantes diz que aplicações em moeda forte ajudam a proteger o patrimônio da instabilidade doméstica e permitem acesso a oportunidades que não existem na Bolsa brasileira, como investimentos ligados à inteligência artificial. Villela também considera importante ter exposição internacional em um cenário mais volátil.

A mudança será feita aos poucos, por meio de remessas mensais ao longo de um ano a um ano e meio, sem tentar prever o melhor momento para comprar moeda estrangeira. Arantes afirma que a mesma lógica vale para outras classes de ativos: evitar movimentos bruscos e seguir um plano de investimento.

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui

Quem leu, também se interessou