O Impacto do Conflito no Oriente Médio na Segurança Alimentar Global
Por: Peter S. Goodman
A Conexão Entre Conflitos e Preços de Alimentos
A guerra no Oriente Médio tem um efeito dominó, e quanto mais se prolonga, maior o risco que o mundo enfrenta em relação aos preços dos alimentos. Em particular, as populações mais vulneráveis em diversas regiões podem ficar à mercê da fome. Essa é uma realidade que precisamos encarar.
O Papel Fundamental do Golfo Pérsico
A Produção de Fertilizantes
O Golfo Pérsico é uma vital fonte de fertilizantes, embora seja amplamente conhecido pela sua riqueza em petróleo e gás natural. A disponibilidade de energia nessa região facilitou a construção de fábricas que produzem insumos agrícolas críticos, como os fertilizantes nitrogenados. Esses fertilizantes são, na essência, gás natural transformado em nutrientes que alimentam nossas plantações — responsáveis por cerca de 50% da produção alimentar mundial.
Obstáculos no Transporte
Atualmente, a maioria dessas fábricas ainda está operando, mas a logística de entrega para os agricultores se tornou uma tarefa praticamente impossível. O fechamento do Estreito de Ormuz, chave para a movimentação de produtos entre o Golfo Pérsico e o Oceano Índico, está causando essa interrupção. Essa situação é a principal culpada pela recente alta nos preços do petróleo e gás. Se essa condição persistir, o custo dos fertilizantes e das matérias-primas para sua produção só tende a subir, forçando os agricultores a restringir seu uso e, assim, reduzindo a oferta de alimentos mundialmente.
As Lições de Conflitos Passados
Chris Lawson, vice-presidente de inteligência de mercado do CRU Group, ressalta: “A situação é desesperadora. O mundo confia essencialmente em fertilizantes e matérias-primas vindas dessa região.” Essa dependência não é nova. Em 2022, quando a Rússia invadiu a Ucrânia, o mundo já havia sentido na pele a fragilidade das cadeias de suprimento de grãos, levando à escassez de alimentos em várias partes do mundo, de África Ocidental à Ásia do Sul.
A Conexão com a Ucrânia e a Rússia
Assim como os fertilizantes, a produção de grãos na Europa Oriental também foi severamente impactada. A prolongação desse conflito resultou numa escassez generalizada, aumento de preços e colheitas prejudicadas. Agora, a instabilidade no Oriente Médio coloca mais um fator de risco, desta vez, afetando diretamente o setor de fertilizantes, o que, segundo Sarah Marlow da Argus Media, pode ter efeitos ainda mais profundos devido ao maior número de países envolvidos.
A Dependência de Fertilizantes
Os fertilizantes podem ser classificados em três categorias principais: nitrogênio, fósforo e potássio. Os cinco maiores exportadores de fertilizantes — Irã, Arábia Saudita, Catar, Emirados Árabes Unidos e Bahrein — dependem quase que exclusivamente do Estreito de Ormuz para enviar seus produtos ao mercado global. Juntos, esses países são responsáveis por mais de um terço do comércio mundial de ureia, um tipo predominante de fertilizante nitrogenado. Além disso, produzem uma significativa parcela de fertilizantes fosfatados.
O Futuro dos Fornecedores
Recentemente, a QatarEnergy, um dos principais fornecedores de ureia, teve que interromper sua produção devido a ataques a suas instalações de gás natural. Outras fábricas ainda conseguem produzirem ureia, mas convivem com a incerteza de quando poderão reiniciar as exportações.
A Correlação entre Crise e Sustentabilidade
A Questão Estrutural
Numa perspectiva de longo prazo, essa crise deve servir como um alerta sobre nossa excessiva dependência de um pequeno número de países para suprir uma necessidade tão essencial como a produção de alimentos. A pandemia de COVID-19 já havia exposto o risco de confiar em um único país para ingredientes farmacêuticos, e agora, a revolução na indústria de fertilizantes nos lembra da vulnerabilidade das cadeias de suprimento alimentares.
Raj Patel, economista da Universidade do Texas em Austin, argumenta que precisamos desenvolver soluções que reduzam a dependência de fertilizantes que precisam passar pelo Estreito de Ormuz. Ele sugere que países como Índia e Brasil têm mostrado caminhos mais sustentáveis, incentivando agricultores a diversificar suas colheitas e utilizar nutrientes disponíveis localmente.
Enfrentando a Crise Atual
A Pressão Sobre os Agricultores do Hemisfério Norte
Os agricultores do Hemisfério Norte estão agora em um momento crítico, pois precisam aplicar fertilizantes em suas plantações para a próxima safra de primavera. Os custos elevados impostos por tarifas já tinham forçado muitos a não estocar fertilizantes suficientes, e a recente isenção das tarifas pela Casa Branca, apesar de benéfica, não resolve o problema imediato.
A Vulnerabilidade da Índia
Em particular, a Índia se encontra em uma posição delicada, uma vez que cerca de 40% de seus fertilizantes são adquiridos do Oriente Médio. Nesse cenário, muitos países estão em busca de alternativas, sendo a China uma das opções mais evidentes. No entanto, o governo chinês restringiu as exportações de fertilizantes no ano passado para proteger seus próprios agricultores.
A Evolução dos Preços e Suas Consequências
Os comerciantes já estão reagindo à incerteza do fornecimento. Somente na última semana, a ureia vendeu-se por cerca de US$ 665 por tonelada no Egito, um aumento de aproximadamente 37%. Este patamar ainda é inferior ao que foi visto após a invasão russa da Ucrânia, mas a continuidade da crise no Golfo Pérsico pode provocar aumentos ainda mais drásticos.
O Efeito Cascata nos Países em Desenvolvimento
Um aumento constante no custo dos fertilizantes pode levar países do Sul da Ásia e da África Subsaariana a subsidiar custo dos cultivos, ou simplesmente assistir à elevação dos preços dos alimentos. Isso, por sua vez, poderá aprofundar a dívida de nações já fragilizadas economicamente. Para piorar a situação, como muitos fertilizantes são negociados em dólares americanos, a valorização do dólar torna os insumos ainda mais caros em outras moedas, impactando negativamente os pequenos agricultores.
Preocupações Finais
A escassez de insumos como o enxofre, um subproduto do refino de petróleo e gás, também gera preocupações. Com quase metade do enxofre estocada no lado “errado” do Estreito de Ormuz, essa situação poderá complicar ainda mais o mercado, especialmente para países que precisam do enxofre para produzir fertilizantes fosfatados.
Conclusão: Pensando no Futuro
A atual crise no setor de fertilizantes não é apenas uma questão agrícola, mas uma questão de segurança alimentar que pode reverberar em várias partes do mundo. À medida que o cenário geopolítico evolui, é vital que governos e produtores se unam para desenvolver soluções mais sustentáveis e resilientes. Como consumidores, devemos também refletir sobre nosso papel nesse sistema interconectado. Nossas escolhas e hábitos de consumo podem impactar o futuro da produção alimentar global.
A situação exige ação consciente e, juntos, podemos buscar um caminho para um futuro mais seguro e sustentável. O que você acha? Como podemos, coletivamente, contribuir para um sistema alimentar mais resiliente? Comente abaixo e compartilhe suas reflexões!


