Crise no Agro: R$ 256 Bilhões em Dívidas e as Perspectivas Sombrio para o Futuro


“A situação no campo é alarmante, especialmente devido aos juros elevados que persistem por um longo período. A margem de lucro no agronegócio está extremamente curta.” Essa é a afirmação de Ingo Plöger, presidente da Associação Brasileira do Agronegócio (ABAG), em entrevista exclusiva à Forbes Agro. Ele revela uma das maiores contradições enfrentadas pelos agricultores brasileiros atualmente.

Enquanto o Brasil continua a aumentar sua produção de alimentos, com safras recordes e um bom desempenho nas exportações, o endividamento do setor também cresce, alcançando a marca de R$ 256 bilhões, juntamente com um aumento no número de produtores que optam pela recuperação judicial para reestruturar suas finanças.

“Estamos muito próximos do limite. A maior parte das dívidas já está vencida ou em processo de recuperação judicial,” alerta o advogado Amauri de Oliveira, especializado em recuperação de crédito no agronegócio e sócio-fundador da Oliveira Paolucci Advogados, em São Paulo (SP). “E aqueles que já solicitaram recuperação não podem pedir novamente de imediato.”

Apesar do anúncio do Plano Safra 2026/27, que prevê R$ 622,4 bilhões disponíveis para a agricultura empresarial e familiar, espera-se que esse montante não seja suficiente para solucionar a crise de crédito no setor. Isso ocorre porque muitos produtores inadimplentes não têm acesso aos financiamentos oficiais.

Assim, a dificuldade não está na capacidade de produção, mas na transformação dessa produtividade em resultados financeiros positivos. Mesmo com um crescimento acelerado nos últimos anos, o setor enfrenta juros elevados, custos persistentes, queda nos preços agrícolas e diminuição da oferta de financiamentos privados. Os reflexos disso já podem ser vistos em diversas estatísticas.

Análise do Endividamento Rural

Do total da carteira de crédito agropecuário, que chega a R$ 1,2 trilhão, cerca de R$ 256 bilhões configuram a parte problemática do setor, conforme levantamento da Frente Parlamentar do Agronegócio (FPA). Esta quantia abrange contas em atraso, inadimplentes, renegociadas e dívidas prorrogadas.

De acordo com dados da Serasa Experian, o agronegócio brasileiro finalizou 2025 com 1.990 pedidos de recuperação judicial, o maior número registrado até hoje, representando um aumento de 56,4% em comparação ao ano anterior. Esse número inclui pedidos de recuperação de produtores rurais, tanto pessoas físicas quanto jurídicas, além de empresas da cadeia agroindustrial. Mato Grosso se destacou com 332 solicitações.

O aumento no número de recuperações repete um padrão preocupante observado em outra pesquisa do Instituto Mato-grossense de Economia Agropecuária (Imea), que indicou que o crédito problemático em Mato Grosso, que inclui operações inadimplentes, renegociadas e prorrogadas, chegou a R$ 21,79 bilhões, o que corresponde a 18,22% de toda a carteira de crédito rural do estado.

Em 2022, esse percentual era apenas de 2,08%, evidenciando a rapidez com que a saúde financeira do setor se deteriorou.

Perspectivas Futuras

Ingo Plöger, presidente da Abag
Divulgação/AbagIngo Plöger, presidente da Abag

Apesar do crescimento nas recuperações judiciais, especialistas não acreditam que o agronegócio brasileiro está fadado ao colapso.

“A expectativa é que o cenário comece a melhorar em 2027,” prevê Oliveira. “No entanto, ninguém pode garantir, pois isso depende de fatores como a continuidade do governo e as questões fiscais, que, por sua vez, estão ligadas à taxa de juros.”

O setor continua competitivo, liderando a produção de várias commodities mundialmente e mantendo um bom desempenho nas exportações. O verdadeiro desafio reside na capacidade de financiar esse crescimento em um cenário de juros altos e margens cada vez mais reduzidas.

Para enfrentar esse período desafiador, Amauri de Oliveira sugere que os produtores busquem uma gestão financeira mais profissionalizada em suas propriedades. Ingo Plöger, por sua vez, acredita que mudanças estruturais na política agrícola são necessárias, como substituir a lógica do Plano Safra, que é anual, por uma política permanente de crédito, seguros rurais e reestruturação de garantias, com uma perspectiva de médio e longo prazo.

“O Plano Safra é um plano de governo, e a cada ano esperamos por milagres que nunca chegam. Quando se investe em um equipamento, não se busca retorno em um ano; a expectativa é de três, quatro, até cinco anos. É essencial ter uma visão mais ampla e duradoura.”

A Imprescindível Necessidade de um Seguro Rural

Além das limitações do crédito oficial, outra questão estrutural que ganha destaque é a baixa cobertura do Programa de Subvenção ao Prêmio do Seguro Rural (PSR) e o valor atual, que está distante do que seria ideal para a agropecuária brasileira.

Um estudo da Confederação Nacional das Seguradoras (CNseg) aponta que o orçamento necessário deveria ser de R$ 4 bilhões, ao contrário dos apenas R$ 1 bilhão disponíveis, dos quais R$ 461,7 milhões foram bloqueados pelo governo federal.

Outra análise da FPA revela que, no último ano, o Programa de Subvenção ao Prêmio do Seguro Rural (PSR) contemplou apenas 3,27% da área plantada no Brasil, deixando a maioria dos produtores desprotegidos contra perdas causadas por eventos climáticos e financeiros.

Os parlamentares afirmam que a atual escalada no endividamento é reflexo de anos de investimentos inadequados nessa política pública. Um programa de seguro rural mais abrangente poderia ter reduzido a necessidade de renegociações de dívidas, já que os custos de prevenção seriam significativamente menores do que os recursos atualmente discutidos para ajudar produtores enfrentando dificuldades.

Ciclos de Crise no Agronegócio

Amauri de Oliveira, advogado especialista em RJs no agro
DivulgaçãoAmauri de Oliveira, advogado especialista em RJs no agro

De acordo com a análise de Oliveira, a atual onda de recuperações judiciais não é resultado de uma safra ruim isolada. O problema começou a ser gerado em 2021, quando muitos produtores não conseguiram cumprir contratos futuros devido à forte alta da soja.

Essas obrigações foram acumuladas para os anos seguintes, justo quando o cenário econômico começou a mudar radicalmente.

“Alcançamos um novo paradigma em relação a insumos e preços. A combinação de juros altos é, de fato, explosiva,” afirma o especialista.

Seguiram-se a elevação da taxa Selic, o aumento dos custos de crédito, bem como o encarecimento de fertilizantes, defensivos e logística, além da queda nos preços internacionais das commodities. Para Oliveira, a questão transcedeu o campo agrícola e agora requer uma gestão financeira mais sofisticada.

“O que importa não é o preço do seu produto, mas o custo de produção,” ressalta o advogado. Ele afirma que o produtor deve incorporar conhecimentos sobre finanças, gestão de riscos e controle de custos para atravessar este novo ciclo do agronegócio.

Essa perspectiva está alinhada ao diagnóstico do Imea, que destaca que o principal desafio atual não é aumentar a produção, mas restaurar a rentabilidade.

Mesmo com melhores índices de produtividade, muitas propriedades estão lidando com preços inferiores aos do período pós-pandemia, custos ainda altos e um aumento das dívidas que provavelmente persistirão nas próximas safras.

Um Cenário de Crédito Desafiador

Para Ingo Plöger, o agronegócio entrou em meio a uma “tempestade perfeita”. Ele observa que a redução das margens de lucro coincide com um ambiente de crédito que se tornou muito mais oneroso. O Plano Safra oferece apenas uma parte das necessidades financeiras do setor, forçando a maioria dos produtores a recorrer ao mercado privado, que é diretamente impactado pela taxa Selic.

“Muitos investiram e se endividaram. Manter essa dívida em um contexto de juros altos pode ser sustentável no curto prazo, mas torna-se cada vez mais difícil a médio e longo prazo,” afirma Plöger.

Amauri de Oliveira ressalta que esse panorama também altera a abordagem dos financiadores. Tradings estão diminuindo sua exposição ao crédito rural, bancos estão se tornando mais rigorosos na análise de operações, e novos investidores estão exigindo estruturas financeiras mais robustas antes de liberar recursos. Essa mudança resulta em um cenário de financiamento mais seletivo para todo o agronegócio.

“O acesso ao crédito vai se restringir ainda mais. As tradings já reduziram sua disposição, enquanto os bancos também tornarão seus critérios de avaliação mais rigorosos.”

Tanto Plöger quanto Oliveira acreditam que o agronegócio brasileiro continuará a produzir. A questão que permanece é: quais produtores conseguirão equilibrar sua produção e finanças antes que o ciclo econômico se torne mais favorável ao setor?


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