Da Terra do Samba aos Palcos de Nova Iorque: A Revolução Lingüística de uma Atriz Brasileira


Andressa Furletti é uma artista multifacetada, atuando como atriz e diretora artística. Natural de Minas Gerais, Brasil, ela é uma das cofundadoras do Grupo Dot BR, também conhecido como Grupo.BR, estabelecido nos Estados Unidos em 2011. Após se formar em artes cênicas no Stella Adler Center for the Arts, em Nova Iorque, Andressa se deparou com uma lacuna significativa nos roteiros disponíveis da escola. Enquanto a biblioteca estava repleta de obras hispano-americanas, faltavam peças em português.

Transformando Desafios em Oportunidades

Em vez de se conformar, Andressa decidiu transformar essa crise em uma oportunidade. Assim, surgiu a ideia de produzir teatro brasileiro em inglês — mesclando partes em português — para um público americano e internacional. Juntamente com seus colegas e cofundadores, Debora Balardini e Thiago Felix, Andressa não apenas criou uma companhia de teatro, mas também um movimento que fortalece a diáspora brasileira nos Estados Unidos.

Para ela, o Grupo.BR é mais do que uma plataforma de expressão artística; é um elo que conecta brasileiros e falantes de português que não se reconheciam nos palcos americanos, ao mesmo tempo em que atrai a curiosidade de americanos e de outras nacionalidades pela beleza e musicalidade da língua portuguesa.

Em uma entrevista ao Podcast ONU News, Andressa compartilha suas experiências ao adaptar e apresentar Clarice Lispector ao público internacional, destacando o espetáculo “Dentro do Coração Selvagem”, baseado no icônico “Perto do Coração Selvagem”.

Teatro Imersivo e Emoção à Flor da Pele

O processo de adaptação foi cercado de desafios. Andressa explica que quiseram criar um espetáculo que fosse uma experiência sensorial. O teatro imersivo, realizado dentro de uma casa, trouxe à vida personagens de Clarice e de seus contos, permitindo que o público interagisse livremente com o ambiente. Os espectadores podiam tocar objetos, comer e até escrever durante a performance, criando uma atmosfera introspectiva.

“É um espetáculo de sensações. Às vezes, você se localizava em um canto e, de repente, algo acontecia ao seu redor. Essa proximidade foi primordial, pois Clarice fala de sentimentos profundos, que todos nós já sentimos”, conta ela, emocionada. “Nós queríamos que fosse uma experiência íntima e tocante.”

A Língua Portuguesa: Poética e Vital

Durante a conversa, Andressa foi questionada sobre a relação com sua língua materna. Para ela, o português é uma celebração da vida, um verdadeiro canto poético. “O português é poesia e música. Cada língua tem suas nuances; o português, para mim, vem do coração”, diz ela. “Deus me livre de não ser brasileira!”

O Grupo.BR é reconhecido como a companhia de teatro brasileiro mais antiga de Nova Iorque, promovendo a valorização do português como uma língua de herança, essencial para a identidade cultural de muitos. Andressa reflete que suas peças e o teatro imersivo são oportunidades para o público redescobrir a riqueza da língua e sua própria herança cultural.

Debora Balardini, Mario Forte e Andressa Furletti em cena na peça de teatro Dentro do Coração Selvagem

Debora Balardini, Mario Forte e Andressa Furletti em cena na peça de teatro “Dentro do Coração Selvagem”

Andressa Furletti: A Arte em Nova Iorque

Em uma passagem fascinante da entrevista, Andressa relembra sua chegada a Nova Iorque em 2007. Ao perceber a ausência de representatividade brasileira nos palcos, decidiu que, se não havia espaço, ela mesma o criaria. “Quando cheguei aqui, não havia cultura brasileira nos teatros. Fui a livrarias especializadas e não encontrei uma única peça brasileira. O que me deixou perplexa”, diz ela.

A Reação do Público e a construção da Comunidade

Surpreendentemente, após a estreia do primeiro espetáculo do grupo, “A Serpente”, Andressa foi acolhida por uma resposta entusiástica do público, que estava faminto por representatividade. “Casas lotadas e pessoas emocionadas ao se verem refletidas no palco foram momentos inesquecíveis,” relembra.

Com o passar dos anos, o Grupo.BR se tornou um ponto de encontro para brasileiro e imigrantes. Sua companhia construiu laços e inspirou colaborações, até mesmo uniões amorosas dentro da comunidade. Andressa destaca a importância desse apoio mútuo, especialmente para a vida do imigrante, que muitas vezes se sente deslocado.

Clarice Lispector e a Profundidade de Seus Personagens

Quando a conversa se volta para Clarice Lispector, Andressa expressa sua paixão por interpretar os nuances das personagens da autora. “Clarice fala da complexidade humana de forma acessível. Ela me inspira a explorar a essência de cada personagem,” afirma. Durante a entrevista, Andressa lê um trecho de “A Hora da Estrela”, sua habilidade em dar vida às palavras de Clarice encanta o público e revela sua profunda conexão com o texto.

As Lutas e as Delícias de Duas Culturas

Andressa também compartilha suas experiências únicas ao transitar entre o português e o inglês. “Meu cotidiano acontece muito em português, o que torna mais fácil o reencontro com minhas raízes,” diz ela. “No entanto, a adaptação ao inglês é necessária. O desafio é manter a sonoridade da língua portuguesa em nossos espetáculos, mesmo quando realizamos adaptações para o inglês,” confessa.

Ela se refere aos desafios de traduções, especialmente em poesia. “Traduzir não é apenas mudar palavras; é capturar emoções e a musicalidade com que elas são expressas,” explica. Algumas obras, como as de Clarice, já possuem boas traduções, facilitando o trabalho dela como artista.

A Persistência e as Ferramentas Modernas

No entanto, a evolução tecnológica ajuda imensamente. “Hoje, com aplicativos que corrigem nossa pronúncia, o aprendizado se torna mais acessível. Antigamente, apenas usávamos CDs para ouvir como falar,” conta Andressa. Essa facilidade facilita o treinamento de sotaque e a engrandecimento artístico.

Uma Coda Poética

A maneira como Andressa resume sua visão sobre o português é pura poesia: “É uma língua que brota do coração, cheia de amor e emoção. Por isso, sou profundamente grata por ser brasileira,” compartilha, antes de encerrar a conversa com um brilho no olhar.

Se foi um prazer mergulhar na história e na vida de Andressa Furletti, imagine o que isso pode significar para nós. Sua jornada e seu trabalho são um lembrete poderoso da força da arte como viabilidade cultural e conexão humana.

Quais são suas reflexões sobre o trabalho de Andressa? Você já se sentiu representado por uma arte que fala a sua língua? Compartilhe suas experiências!(…)

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