A Volatilidade do Oriente Médio: Um Olhar Sobre a Cisjordânia
O Oriente Médio é conhecido por sua instabilidade, e os eventos recentes apenas reforçam essa realidade. Após os protestos no Irã, os EUA ameaçaram ações; a violência em Gaza persiste apesar de um cessar-fogo; o Hezbollah se rearma no Líbano e as rivalidades internas estão desestabilizando a Síria. Contudo, o próximo caos pode ocorrer em um lugar que tem sido tratado como uma mera nota de rodapé pelos formuladores de políticas: a Cisjordânia.
O Contexto Atual da Cisjordânia
Depois do ataque maciço do Hamas em 7 de outubro de 2023 e a subsequente resposta militar israelense em Gaza, o governo israelense intensificou suas operações na Cisjordânia. Entre as novas medidas, o país ampliou sua presença militar, pressionou a Autoridade Palestina (AP) e acelerou a aprovação de assentamentos judaicos. As ações violentas de colonos tornaram-se rotina, colocando a região à beira de uma crise.
Na última decisão, o gabinete de segurança do primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, autorizou uma série de medidas que convertem a anexação de fato da Cisjordânia em uma política formal. Essa decisão, anunciada um dia antes da visita de Netanyahu à Casa Branca, visa facilitar a venda de terras para colonos e expandir os limites de jurisdição em áreas que antes estavam sob controle da AP. Como declarou o ministro das Finanças israelense, Bezalel Smotrich, o objetivo é “matar a ideia de um estado palestino”.
Riscos de Instabilidade
Os riscos de instabilidade estão crescendo rapidamente. A AP está à beira da insolvência, incapaz de prover serviços básicos para milhões de palestinos. Num cenário ainda mais delicado, o mês sagrado do Ramadã está prestes a começar, um período que historicamente exacerba as tensões em torno do complexo de al-Aqsa em Jerusalém Oriental. Com a polícia israelense enfraquecendo as restrições, a probabilidade de incidentes que possam provocar um grande levante aumenta.
Esses pontos de tensão não são meros acidentes. Eles fazem parte de uma estratégia israelense bem delineada. Ministros influentes têm defendido abertamente que a Cisjordânia deve ser incorporada à esfera política e administrativa de Israel. O “Plano Decisivo” de Smotrich, publicado em 2017, delineou um caminho para criar fatos irreversíveis que obstruiriam qualquer possibilidade de um estado palestino.
Desde os eventos de outubro, Smotrich e outros líderes israelenses de direita exploraram a névoa da guerra para implementar essa visão. Netanyahu, por sua vez, possui uma posição ambígua, reiterando que Israel não deseja governar totalmente os territórios palestinos, mas seu futuro político depende do apoio de eleitores nacionalistas-religiosos, limitando sua capacidade de conter os fanáticos pela anexação.
Efeitos na Segurança e na Governança
A segurança na Cisjordânia tem sido mantida através de um delicado equilíbrio: prevenir a tomada do poder pelo Hamas, conter a violência por meio de inteligência e confiar nas forças de segurança da AP. Antes de outubro, o número de soldados israelenses e a frequência de operações na região estavam relativamente estáveis. Após os eventos trágicos de outubro, as Forças de Defesa de Israel (IDF) intensificaram suas operações, levando a deslocamentos massivos, mas também a uma redução temporária dos ataques terroristas, graças à coordenação de segurança com a AP.
No entanto, essa situação pode mudar rapidamente. Parte do governo israelense está trabalhando para desestabilizar os ganhos de segurança alcançados, minando a própria AP que ajudou a conter a insurgência. O movimento de assentamentos israelense, fortalecido por um bloco de votação disciplinado, influencia as políticas do governo, buscando transformar a Cisjordânia em uma extensão de Israel.
O Aumento dos Assentamentos
Desde 2023, o número de assentamentos na Cisjordânia disparou. Foram emitidas aprovações para quase o dobro de unidades de habitação do que nos anos anteriores, e a legalização de postos avançados ilegais se tornou prática comum. Isso não apenas aumenta a presença israelense, mas também mina cada vez mais a Autoridade Palestina.
As recentes aprovações incluem projetos como o E1, que visa conectar Jerusalém Oriental ao assentamento de Maale Adumim. Esse plano, inicialmente sugerido na década de 1960, foi evitado por outros primeiros-ministros sob pressão internacional, pois poderia dividir a Cisjordânia e impedir qualquer possibilidade de um estado palestino coeso.
A Violência dos Colonos
Os palestinos enfrentam um aumento alarmante da violência diretamente perpetrada por colonos israelenses, que é tacitamente aprovada pelo governo. Em 2024 e 2025, houve uma explosão no número de ataques de incendiários, atos de vandalismo e agressões físicas. Em resposta, as ações legais contra esses colonos têm sido inconsistentes, e a polícia israelense, sob a liderança do ministro de segurança nacional, Itamar Ben-Gvir, frequentemente ignora esses crimes.
Um aspecto preocupante desse cenário é que, pela primeira vez na história de Israel, o número de atos de terror perpetrados por israelenses contra palestinos superou o número inverso. As decisões tomadas pelo governo, como a suspensão da detenção administrativa de colonos, mostram uma aceitação tácita da violência contra palestinos, minando a possibilidade de uma resposta eficaz às provocações.
O Futuro da Autoridade Palestina
Apesar de suas falhas evidentes, a Autoridade Palestina não pode colapsar. Netanyahu, em seu oportunismo político, percebe que um colapso total da AP acarretaria um alto custo em termos de serviços civis para milhões de palestinos. Mas, atualmente, a gestão da Cisjordânia está nas mãos de Smotrich e outros aliados que buscam enfraquecer a economia da AP e limitar sua operacionalidade.
A situação se agrava, uma vez que Israel parou de transferir receitas de impostos à AP, levando a cortes nos salários e serviços básicos. As escolas já operam em semanas de quatro dias, e a qualidade de vida dos palestinos continua a cair.
Mudanças Necessárias
Embora a Autoridade Palestina precise superar suas falhas, a situação atual exige uma solução funcional. Washington deve intervir rapidamente para evitar a destruição das instituições palestinas. Isso inclui restaurar as transferências de receita, parar a legislação que fere a AP e reforçar a aplicação das leis contra a violência dos colonos.
Ao mesmo tempo, a AP deve acelerar suas reformas administrativas e financeiras, garantindo transparência e prestação de contas em seus processos. Isso pode ajudar a restaurar a confiança entre os palestinos e criar uma base para uma governança mais estável.
Oportunidade de Stabilização
Diante do que está em jogo, a proposta de Trump para Gaza pode trazer uma oportunidade única para estabilizar a Cisjordânia economicamente. Reconfigurando acordos antigos, como o Protocolo de Paris, os esforços para desenvolver o potencial econômico da região podem beneficiar palestinos e israelenses. Um hub logístico na Cisjordânia, por exemplo, poderia impulsionar a recuperação e o desenvolvimento local, ao mesmo tempo que apazigua as tensões.
Conclusão: Um Chamado à Ação
O governo israelense está se movendo rapidamente para selar o destino da Cisjordânia, enquanto a janela de oportunidade para mudanças se fecha. A sociedade internacional, especialmente os EUA e seus aliados árabes, deve agir para impedir a erosão das instituições palestinas. O futuro da paz e da segurança na região depende de um esforço conjunto que considera a complexidade do conflito, promovendo não apenas a preservação da AP, mas também a criação de condições que possibilitem a coexistência.
É essencial que todos os interessados reflitam sobre essas questões e considerem o impacto de suas ações na busca por uma solução duradoura. O que está em jogo não é apenas a estabilidade de uma região, mas também o futuro de uma convivência pacífica entre dois povos.




