Descubra Susana Salvador: A Pecuarista que Transformou 120 Anos de Tradição em Legado Inesquecível


Com cerca de 6 mil bovinos e uma área de 8 mil hectares, Susana Macedo Salvador, 63 anos, é um nome de destaque no melhoramento genético bovino no Brasil. À frente da Cia. Azul Agropecuária, localizada em Uruguaiana (RS), essa médica-veterinária dedica-se a diversas raças taurinas, combinando seleção genética a uma produção anual de 4 mil toneladas de arroz. A trajetória do criatório é marcada por significativos resultados em exposições e prêmios, incluindo reconhecimentos nas raças Angus e Ultrablack, esta última composta por aproximadamente 80% de sangue Angus e 20% de sangue Zebuíno. Mas, além dos números impressionantes, Susana se tornou sinônimo de excelência em melhoramento genético animal, que é essencial para aumentar a produtividade, otimizar a eficiência alimentar e minimizar os impactos ambientais da pecuária.

A história familiar teve início com seu bisavô, João Vieira de Macedo, que começou a trabalhar na zona rural entre Quaraí e Uruguaiana, no oeste do Rio Grande do Sul, onde os Pampas Gaúchos se encontram com as fronteiras do Brasil, Uruguai e Argentina. Desde então, quatro gerações se dedicaram ao aprimoramento do rebanho. Susana deu continuidade ao legado deixado por seu pai, João Vieira Guerra Macedo Neto, e agora se prepara para passar o bastão à quinta geração de sua família. Ela é mãe de três filhos e avó de sete netos.

“Para mim, um dos maiores desafios atuais nas empresas rurais é ter grandes empreendimentos e, em muitos casos, não ter para quem passar o bastão”, reflete Susana. Contudo, a produtora encontrou uma solução eficaz para essa questão, envolvendo todos os filhos na produção na fazenda. “Desde 2010, estruturamos essa transição. Hoje, nosso patrimônio está organizado dentro de uma pessoa jurídica, com uma governança bem definida. Temos um conselho de família e um conselho de administração, e todos os filhos atuam como acionistas.”

Susana é destaque na série AGRICULTORES FORBES, da Forbes Agro, que busca retratar a rotina, a vida e os desafios dos empreendedores rurais em um país tão diverso. Independentemente do tamanho da propriedade, a Forbes Farmers destaca quem transforma sua fazenda em um exemplo, unindo produção, gestão, inovação e visão de futuro.

Da Cabanha Azul à Seleção Genética

Susana, formada pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), iniciou sua carreira ao lado de seu pai na Cabanha Azul, onde desenvolveu sua interação com técnicos e pesquisadores internacionais. Sua autonomia para conduzir o rebanho veio do incentivo do pai, que sempre acreditou em seu potencial.

Em 1999, seu pai decidiu dividir o patrimônio entre os filhos. Assim, a operação do casal Susana e Reynaldo Titoff Salvador passou a ser conhecida como Cia. Azul. Nessa nova fase, enquanto os irmãos seguiram focos diferentes, dedicando-se mais à produção de arroz, Susana e Reynaldo permaneceram comprometidos com a genética bovina.

“Meu pai abriu muitas portas quando entrei na Cabanha Azul. As oportunidades de aprendizado foram enormes, mesmo com o desafio de lidar com uma empresa reconhecida internacionalmente”, recorda Susana.

A empresa lida com raças bovinas como Angus, Hereford, Devon, Brangus e Braford, além de ovinos da raça Merino Australiano, voltados para a produção de lã fina. A seleção dos animais evolui acompanhando o avanço das tecnologias, utilizando dados que identificam características que podem impulsionar o desempenho do rebanho.

“Temos a satisfação de sermos pioneiros em todos os programas de melhoramento genético que participamos”, afirma Susana. O setor em que a pecuarista atua é lucrativo e, de acordo com o Beef Report 2026 da Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carne (Abiec), o mercado de animais para melhoramento movimentou R$ 6,13 bilhões em 2025.

Os Números do Melhoramento

Resultados do melhoramento genético.

Anualmente, a Cia. Azul realiza a venda de cerca de 320 touros, distribuídos entre as várias raças. Segundo Susana, a empresa frequentemente figura entre os cinco maiores vendedores de genética taurina em rankings especializados.

O relacionamento familiar com o melhoramento genético começou na época de seu pai. Dados do rebanho da família foram fundamentais para o geneticista Luiz Alberto Fries numa pesquisa que resultou no Programa de Melhoramento de Bovinos de Carne (Promebo), iniciado em 1974 e essencial para a seleção genética de gado de corte no Brasil. Desde então, a coleta de dados e a avaliação dos animais tornaram-se parte integrante das atividades na propriedade.

As conquistas também refletem nas competições de genética bovina. Em 2018, a Cia. Azul ganhou destaque na Expointer, com a vaca Cia. Azul TE15 Reliquia NET Worth, que foi reconhecida como reserva grande campeã Angus. No mesmo ano, a matriz Cia. Azul Kayene TE 1425 brilhou no Prêmio Difusão Genética Nacional, com 18 descendentes registrados. Em 2019, a propriedade trouxe prêmios significativos com machos e fêmeas na estreia da raça Ultrablack, e na Expoutono de Uruguaiana, em 2024, conseguiu mais vitórias nos julgamentos Angus. Em 2025, Susana alcançou o segundo lugar no Prêmio Mérito Genético Ultrablack, promovido pela Associação Brasileira de Angus.

A estratégia da Cia. Azul consiste em selecionar animais que transmitem características desejáveis aos rebanhos, sendo que essa abordagem precisa estar acompanhada de um manejo adequado. Susana define o sucesso na pecuária em três pilares: sanidade, genética e nutrição.

Arroz, Pastagens e Eficiência

Integração entre lavoura e pecuária.

Além do trabalho com a pecuária, a Cia. Azul também atua com a produção de arroz e sementes de arroz. A operação integra agricultura e criação de bovinos, com um modelo que envolve a rotação de pastagens após a colheita do arroz para alimentar os animais.

A empresa cultiva cerca de 350 hectares de arroz anualmente. Segundo Susana, a produtividade alcança em média 11,5 toneladas por hectare, resultando em uma safra anual de aproximadamente 4 mil toneladas. Essa integração promove um uso eficiente da terra e auxilia na conexão entre as atividades. Ela compara essa abordagem à função de um touro melhorador, que é visto como uma “semente qualificada” para o rebanho.

A continuidade do negócio está ligada à responsabilidade sobre os recursos naturais e às condições de produção. “Estamos aqui há 120 anos e quero que meus netos também estejam. É vital devolver à terra o que ela nos proporciona”, salienta Susana. Entre os valores que fundamentam a empresa estão a preservação ambiental, o bem-estar animal e o cuidado com as pessoas.

Governança para Preparar a Quinta Geração

Susana acredita que a preparação para a transição de responsabilidades deve ser iniciada antes da transferência formal do comando. Seus filhos crescem na fazenda, sempre envolvidos nas atividades do campo, mas é essencial que a identificação com a atividade também esteja atrelada à rentabilidade, participação nas decisões e autonomia.

“Todo jovem precisa de um espaço próprio onde possa desfrutar de certa autonomia para se comprometer verdadeiramente com o trabalho”, afirma.

Para a boa gestão da propriedade, Susana defende a necessidade de ouvir opiniões divergentes. Ela vê a participação dos mais jovens como uma oportunidade de atualizar as práticas, incorporando novas tecnologias e visões do mercado. Quando surgem desavenças, a família busca tomar decisões baseadas em dados e, quando necessário, recorre a consultores externos para orientação.

“A família é a célula essencial. Para que uma empresa prospere, é fundamental que a família empresarial seja estruturada, organizada e mantenha uma relação e comunicação eficazes”, diz. “Para alcançar o sucesso no agronegócio, é necessário ter paixão e comprometimento, mas as decisões devem ser fundamentadas rigorosamente em dados e números,” conclui Susana.


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