Desvendando o Agro do Futuro: Como Tecnologia e Estratégia Estão Transformando o Campo


“A inteligência artificial se tornará a tecnologia mais crucial para o agronegócio na próxima década.” Esta afirmação vem do engenheiro agrônomo Marcos Jank, que possui mestrado em política agrícola e comércio, além de um doutorado em economia empresarial.

Com uma carreira que abrange academia, setor privado e formulação estratégica para o agronegócio, Jank é reconhecido como um dos principais especialistas em agronegócio global no Brasil. Atualmente, ele atua como professor sênior no Insper, onde coordena o programa Insper Agro Global.

Em uma entrevista exclusiva para a Forbes Agro, Jank não apenas vislumbra uma transformação tecnológica, mas descreve uma mudança de paradigma. Segundo ele, o agronegócio brasileiro, que tradicionalmente se destacou pela adaptação tropical e pela produção em larga escala, está mudando para uma operação baseada em dados, eficiência marginal e um risco global maior.

Essa transformação ocorre em um cenário mais desafiador. Enquanto o setor busca aumentar a produtividade internamente, enfrenta também a volatilidade geopolítica, a dependência de insumos e as limitações estruturais ainda presentes na produção.

Jank será um dos participantes do São Paulo Innovation Week (SPIW), onde compartilhará ideias sobre inovação durante o evento, que ocorrerá de 13 a 15 de maio na Mercado Livre Arena Pacaembu e na FAAP em São Paulo.

Construindo uma Vantagem Competitiva

Colheita de soja em plena operação no Brasil
Lucas Ninno/Getty ImagesColheita de soja em plena operação no País

“O Brasil se destaca como um dos líderes em sistemas de agricultura tropical”, afirma Jank. Essa vantagem foi construída ao longo de décadas, combinando ciência pública e inovações privadas.

O país desenvolveu um modelo único: “Não existe outro lugar com a mesma escala que utilize esse conjunto de tecnologias e inovações”, declara. Esse modelo permite que o Brasil produza em ambientes tropicais com alta produtividade e eficiência ambiental crescente.

Um fator-chave dessa vantagem é a integração produtiva. “Integramos soja, milho, algodão, carne, etanol e celulose”, explica. A prática da segunda safra e o crescimento do etanol de milho são exemplos desse arranjo, onde ativos são continuamente utilizados ao longo do ano.

No entanto, esse modelo ainda é pouco replicado fora do Brasil. “A agricultura tropical é extremamente heterogênea e desigual”, observa, destacando a dificuldade de replicar esse sucesso em outras partes da América do Sul, na África ou na Ásia.

A Revolução Digital no Campo

Agricultora monitorando área de plantio de algodão
José Antonio Vidal Humanes/Getty ImagesAgricultora monitorando área de plantio de algodão

Se antes a transformação no agronegócio era agronômica, agora ela é informacional, com o surgimento de tecnologias como mecanização avançada, drones, biotecnologia e inteligência artificial.

O foco da inovação está mudando. A ênfase agora é em produzir mais com menos insumos e com maior precisão. A eficiência, portanto, não é apenas física, mas também analítica.

A inteligência artificial se torna fundamental nesse cenário. “Ela afetará a operação, a produção, a comercialização e a proteção de preços”, diz Jank. Essa tecnologia aumenta a capacidade de prever cenários, diminui incertezas e otimiza a tomada de decisões.

Um dos impactos mais significativos é a mudança no perfil do produtor, que passa a tomar decisões baseadas em dados que integram clima, mercado e operações.

Além da IA, a biotecnologia continua a desempenhar um papel importante. “Temos avançado na criação de variedades mais resistentes e que requerem menos agroquímicos”, explica. A agricultura de precisão e o uso de drones promovem uma aplicação mais localizada, resultando em menos desperdício e maior controle.

Menos Insumos, Mais Eficácia

A busca por eficiência também redefine o uso de insumos. “Há várias técnicas focadas em otimizar a produção, utilizando menos insumos”, afirma Jank.

A fronteira tecnológica agora envolve soluções biológicas de maneira mais significativa.

“Durante muito tempo, todas as soluções eram químicas. Agora estamos vendo um grande avanço nas soluções biológicas”, diz.

Essa mudança não elimina os insumos tradicionais; ao contrário, altera suas funções dentro do sistema produtivo. Com essa combinação entre soluções químicas e biológicas, e a aplicação localizada, é possível reduzir custos e aumentar a eficiência agronômica.

A recente pressão sobre fertilizantes acelerou essa transição, levando muitos produtores a buscar alternativas como rocha fosfática e resíduos orgânicos.

A lógica do reaproveitamento está ganhando destaque. “A vinhaça, por exemplo, pode ser utilizada como fertilizante, mas também pode gerar biogás e energia elétrica”, observa Jank, ressaltando que a economia circular no campo agora tem uma base econômica sólida.

O Impacto da Geopolítica

Carregamento de soja em navio graneleiro
Sandsun/Getty ImagesCarregamento de soja em navio graneleiro

No entanto, a tecnologia não opera isoladamente. “Estamos vivendo um mundo cada vez mais polarizado”, afirma Jank.

O Brasil se encontra em uma posição delicada. “A China representa cerca de 35% das nossas exportações e é nosso principal parceiro”, diz. Ao mesmo tempo, grande parte da tecnologia usada no agronegócio tem origem ocidental.

Essa dupla dependência torna necessário um equilíbrio estratégico, especialmente em um contexto de regras comerciais mais frágeis. “A OMC perdeu relevância, e estamos vendo acordos cada vez mais arbitrários”, acrescenta Jank.

As consequências são diretas. “Conflitos recentes revelam vulnerabilidades em insumos como diesel e fertilizantes”, observa. A guerra e disputas comerciais não são mais variáveis externas; agora afetam diretamente o custo de produção.

Alta Eficiência, Mas Fragilidades Externas

Apesar dos avanços tecnológicos, as barreiras estruturais ainda estão presentes. “Temos uma agricultura muito eficiente dentro das propriedades, mas enfrentamos fragilidades antes e após a produção”, ressalta Jank.

A logística é um dos obstáculos principais. “Mato Grosso está a cerca de 2 mil quilômetros dos portos”, destaca. A dependência do transporte rodoviário em percursos longos eleva os custos e afeta a competitividade.

A falta de opções de armazenamento também obstrui estratégias comerciais. “Frequentemente, o produtor é forçado a vender rapidamente, o que diminui sua capacidade de negociar melhores preços”, conclui.

Valor Agregado: Um Desafio Persistente

Embora o Brasil tenha alcançado avanços significativos, o desafio da agregação de valor ainda persiste. “O Brasil não pode ser visto apenas como o celeiro do mundo”, enfatiza Jank. O país representa cerca de 4% da produção global e 9% do comércio internacional de alimentos.

A pauta exportadora é robusta, mas ainda muito concentrada. “Há oportunidades para agregar valor e diferenciar produtos”, acrescenta.

O exemplo do café ilustra bem essa limitação. “Exportamos principalmente café verde, enquanto outros países conseguem agregar mais valor aos seus produtos”, diz.

O aspecto central está na estratégia. “Não se trata apenas de produzir com valor agregado, mas também de saber como distribuí-lo e posicioná-lo no mercado externo”, conclui.

Com isso, a equação do agronegócio brasileiro se torna mais complexa. A vantagem competitiva não se baseia apenas na escala ou na produtividade, mas na capacidade de integrar tecnologias, reduzir vulnerabilidades e captar valor em um ambiente global cada vez mais instável.


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