Divina Cana: Descubra Como um Alambique Transformou Três Pontas na Capital da Cachaça Artesanal


Divina Cana: A Cachaça de Tradição e Inovação em Três Pontas

Localizado em Três Pontas, uma cidade do Sul de Minas Gerais famosa por sua qualidade excepcional de café, o alambique Ouro Verde se destaca pela produção da cachaça Divina Cana. Enquanto a tradição de aguardente da vizinha Salinas reverbera por mais de dois séculos, Paulo Sérgio Souza Rodrigues, um empresário de 54 anos, delineou sua trajetória sem heranças familiares. Com uma vasta coleção de mais de 110 mil litros de cachaça em barris de diferentes madeiras, ele estabeleceu uma marca que conquistou o primeiro lugar na categoria extra-premium do concurso da Emater-MG em 2024.

O Surgimento da Divina Cana

A Divina Cana surgiu em 2016, fruto da paixão de Paulo e sua esposa, Regina Helena, por cachaças de alambique. O que começou como um hobby transformou-se em um projeto estruturado, resultando na produção anual de 17 mil litros de cachaça, dos quais apenas 4 mil são comercializados. O restante é cuidadosamente envelhecido. “Eu quis primeiro fazer envelhecimento”, Regina, sócia e coidealizadora do projeto, teve a ideia de criar um espaço onde a família pudesse relaxar e onde a produção pudesse florescer.

Cocatrel_DivulgPaulo Rodrigues revela sua jornada de transformação pessoal

O Prolongado Processo de Envelhecimento

Um fator que caracteriza o alambique é a decisão de um envelhecimento prolongado. Nenhuma cachaça da Divina Cana é liberada antes de dois anos. A cachaça branca, armazenada em inox, repousa por dois anos, enquanto as envelhecidas em madeira permanecem por, no mínimo, três anos. O lote mais antigo do estoque data de 2018. “Tenho aqui cachaça de seis anos”, compartilha Paulo, enquanto o aroma do ambiente, misturando madeira e caldo de cana fermentado, envolve os visitantes.

A cachaça se tornou a segunda bebida mais consumida no Brasil, atrás apenas da cerveja. Com raízes no período colonial, a bebida carrega consigo a resistência de estigmas que ainda persistem, apesar de gerar mais de 600 mil empregos diretos e indiretos. Em 2024, o Brasil registrou 1.266 alambiques, marcando o terceiro ano consecutivo de crescimento, com uma alta acumulada de 35,4% desde 2021. A produção alcançou 292,4 milhões de litros, representando um aumento de 29,6% em relação ao ano anterior, conforme o Anuário da Cachaça 2025, elaborado pelo Ministério da Agricultura e Pecuária.

A Química por Trás da Cachaça

A formação de químico de Paulo, adquirida durante anos na indústria de curtumes, reflete suas escolhas técnicas no alambique. A fermentação do mosto ocorre a um nível de Brix de 16, inferior ao padrão comum de muitos produtores, que optam por 19. “O Brix-19, por exemplo, ocasiona estresse nas leveduras e aumenta a acidez”, explica ele. “Portanto, preferimos o padrão de 16, que, apesar de reduzir a produção, melhora a qualidade.”

Além disso, a levedura utilizada é única, desenvolvida especificamente para o alambique por Cauré Portugal, um hemólogo renomado. Ela foi formulada para trazer um perfil aromático superior. A fermentação ocorre em caixas com capacidade de 150 a 180 litros, mantidas entre 24°C e 31°C, garantindo um ambiente controlado para as leveduras. “A levedura é um ser vivo”, afirma Paulo. Para preservar sua qualidade, o pé de cuba é renovado a cada 40 dias.

A Destilação Cuidadosa

O nível de atenção se estende à destilação, onde 500 litros de mosto são aquecidos com o bagaço da própria cana. Os primeiros cinco litros, conhecidos como cabeça, são descartados devido à alta concentração de metanol. A destilação continua até que o teor alcoólico caia para 38%, momento em que a calda é interrompida. “Nosso alambique não mistura a calda com a cabeça, o que acontece em muitos processos.” Apenas 50 a 55 litros de cachaça boa são obtidos de 500 litros de mosto, resultando em um aproveitamento de cerca de 10%.

A acidez é outra preocupação importante; enquanto a legislação brasileira permite até 150 miligramas de ácido acético por 100 mililitros, as cachaças da Divina Cana contêm entre 12 e 15 miligramas. Mesmo após o envelhecimento, raramente ultrapassam 40 miligramas, o que é um diferencial significativo no mercado.

A Magia dos Barris

A sala dos barris é o coração do alambique. Nela, repousam barris de diversas madeiras, incluindo carvalho americano de primeiro uso, carvalho francês, jequitibá, bálsamo, amburano e castanheira. Cada tipo de madeira afeta a cachaça de maneira singular. Por exemplo, o jequitibá suaviza a bebida sem adicionar muitos aromas, enquanto o amburana confere notas de especiarias, especialmente canela.

V.Ondei/ForbesPaulo e Regina Helena: a essência do alambique é a união do casal

Antes de criar um blend, Paulo coleta amostras de cada barril, sente os aromas e decide a composição. “Às vezes, um barril de três anos pode ser superior a outro de cinco”, revela. O blend Febo, que passou pelo jequitibá e amburana, conquistou uma medalha de bronze no Concours Mondial de Bruxelles em 2024, enquanto o Júpiter ganhou o primeiro lugar na categoria extra-premium do concurso da Emater-MG no mesmo ano.

Um Olhar para o Futuro

O projeto mais ambicioso de Paulo é uma cachaça envelhecida pelo método solera, um sistema clássico usado em destilados de alta qualidade. Essa cachaça será obtida de cinco barris de reserva, com a produção de 2018 sendo parcialmente esvaziada e reabastecida anualmente com lotes mais novos. “A cada ano, a cachaça se torna mais complexa”, explica Paulo. O estoque será limitado, dado que o alambique prioriza a produção controlada e a maturação.

Sobre o envelhecimento, Paulo tem uma análise que mostra a complexidade do processo, revelando que, embora o envelhecimento seja intenso nos primeiros três anos, a partir daí, as mudanças tornam-se sutis. “Uma cachaça de um ano é muito diferente de uma de cinco, mas uma de oito não é tão distinta de uma de cinco”, observa ele. Depois de seis anos do primeiro lote, a Divina Cana já produz 17 mil litros anualmente, vendendo 4 mil e guardando o restante para futuras delícias. Essa filosofia de esperar mais do que se vende é a única forma de criar uma cachaça que seja realmente moldada pelo tempo.


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