A alta de 8,36% do dólar na segunda-feira (26), após a reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, não levou a um aumento expressivo das vendas de soja por produtores brasileiros. O ganho cambial foi compensado pela queda dos contratos futuros em Chicago e pela redução dos prêmios da soja brasileira, enquanto a volatilidade afastou vendedores do mercado.
O câmbio, ainda assim, favorece a formação dos preços em reais durante o plantio da safra 2026/27. Especialistas afirmam que uma valorização mais estável da moeda americana, combinada à sustentação das cotações internacionais, pode estimular negócios nas próximas semanas. O impacto sobre os custos de produção, porém, também precisa ser considerado.
Volatilidade limita os negócios
Na segunda-feira, a valorização do dólar chegou a elevar em até R$ 8 por saca os preços da soja em algumas praças brasileiras. O movimento ocorreu tanto no mercado disponível, para entrega mais imediata, quanto em negociações com entrega em 2027. Mas a queda em Chicago e a instabilidade dos mercados reduziram o efeito positivo para os produtores.
“Ontem, mesmo com Chicago em queda, a alta do dólar resultou em altas de até R$ 8 por saca em algumas praças, tanto no disponível como para entrega em 2027. Mas a volatilidade foi tão grande, e estava tudo tão confuso, que muita gente saiu do mercado. Por isso, poucos negócios foram registrados”, disse Daniele Siqueira, analista da consultoria AgRural.
Na bolsa de Chicago, onde são negociados contratos futuros de soja, os preços recuaram mais de 2% durante o pregão de segunda-feira. A desvalorização do real tornou a soja brasileira mais competitiva em relação à dos Estados Unidos, o que contribuiu para pressionar as cotações internacionais.
Os prêmios FOB — valores adicionais ou descontos em relação aos contratos de referência, para a mercadoria embarcada no navio — da nova safra brasileira caíram 15 centavos de dólar por bushel na segunda-feira. Um bushel é uma unidade de volume usada na negociação de grãos. Para Chau Hue, chefe de Pesquisa da corretora Stag International, a queda dos futuros e dos prêmios absorveu boa parte do benefício do câmbio.
Na terça-feira (27), às 15h25, horário de Brasília, o dólar à vista recuava 1,22%, a R$ 5,3408. No mesmo horário, a soja em Chicago caía cerca de 1%, a US$ 12,285 por bushel. Na véspera, a moeda americana havia superado R$ 5,60 durante o dia, em meio à avaliação de investidores sobre questões fiscais, dívida pública e perspectivas para os juros no Brasil.
Vendas ainda superam o ano passado
Apesar do ritmo mais fraco em outubro, a parcela da nova safra já comercializada no Brasil permanece acima da registrada no mesmo período do ano passado. A AgRural estima que os produtores fixaram vendas equivalentes a 31,5% da produção projetada para a safra 2026/27, ante 26% um ano antes.
As negociações perderam força em outubro após meses mais movimentados, em um período no qual os preços brasileiros recuaram. Segundo Siqueira, as quedas em Chicago e momentos em que o dólar ficou abaixo de R$ 5 contribuíram para reduzir as cotações internas. Ela avalia que preços em alta, sem oscilações tão bruscas, poderiam levar os produtores a vender volumes maiores.
Hue também considera possível uma reação nas vendas caso Chicago e os prêmios se mantenham estáveis e o real se desvalorize. Nesse cenário, uma alta de R$ 4 por saca no mercado interno poderia incentivar a comercialização, segundo o especialista. Ele ponderou, contudo, que o plantio adiantado, favorecido pelas condições climáticas, oferece pouco suporte imediato aos preços.
Câmbio eleva preços e custos
Uma estimativa da consultoria Céleres indica que a soja para março de 2027 na praça de referência de Rondonópolis (MT) pode alcançar R$ 123 por saca. Antes do segundo turno das eleições, a projeção era de R$ 114. A revisão reflete o efeito do câmbio sobre as cotações da soja em moeda brasileira.
Gabriel Santos, analista da Céleres, afirmou que a desvalorização do real aumenta a competitividade dos grãos brasileiros no mercado internacional e pode pressionar Chicago para baixo. Mesmo com esse recuo, disse, o saldo dos dois movimentos foi positivo para o produtor em reais.
O dólar mais alto também encarece insumos importados, como fertilizantes e pesticidas. Assim, embora a conversão das cotações internacionais para reais possa elevar a receita potencial da soja, parte do ganho pode ser compensada pelo aumento dos custos de produção.