Economista da FGV defende incluir impacto dos juros na dívida nas análises do Copom


A proposta do economista André Lara Resende de relacionar o déficit público ao custo dos juros reacendeu o debate sobre a coordenação das políticas fiscal e monetária. Em meio à desconfiança do mercado financeiro sobre a capacidade do governo Lula de cortar gastos, a economista Carla Beni, professora da Fundação Getulio Vargas (FGV), afirma que a discussão expõe resistências a questionamentos sobre a Selic e a meta de inflação.

Para Beni, o embate entre correntes econômicas ortodoxas e heterodoxas ganhou força porque Lara Resende, um dos formuladores do Plano Real, propôs discutir o peso dos juros nas contas públicas. Segundo ela, o mercado aceita debater cortes de despesas, mas reage com intensidade quando a conversa se volta para o custo da dívida ou para a meta de inflação.

Propostas para juros e metas

Em artigo, Lara Resende argumenta que os juros elevados contribuem para o déficit fiscal e defende reduzir gradualmente a taxa básica de juros, a Selic, para cerca de 7,5% ao ano. A proposta foi criticada por integrantes do mercado como um “tabelamento de juros”.

O economista também sugere criar o Conselho Fiscal e Monetário Nacional (CFMN), para integrar metas fiscais e monetárias. A estratégia incluiria usar as reservas internacionais para neutralizar pressões cambiais e reduzir o custo do serviço da dívida pública. Na avaliação de Lara Resende, a queda dos juros seria um caminho para o equilíbrio fiscal.

Beni afirma que o sistema atual de metas de inflação, fixado em 3%, limita a atuação do Banco Central e não seria compatível com a realidade brasileira. Ela defende uma meta de 4,5%, com uma banda de tolerância de 1,5 ponto percentual, por considerar que esse patamar daria mais flexibilidade e evitaria altas acentuadas da Selic.

Entre as manifestações políticas sobre a proposta, José Sérgio Gabrielli, coordenador do programa de governo para 2027, apoiou a tese. Ele argumentou que o custo financeiro da dívida é uma fonte relevante de pressão sobre o endividamento e que concentrar o ajuste nas metas primárias pode restringir o crescimento sem alterar a trajetória do passivo público.

O ministro da Fazenda interino, Dario Durigan, e o presidente do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), Aloizio Mercadante, descartaram a adoção de um teto para os juros e a realização de reuniões oficiais com Lara Resende. A ministra Gleisi Hoffmann elogiou o diagnóstico, enquanto o presidente do PT, Edinho Silva, procurou conter especulações e reafirmou a autoridade da Fazenda.

O peso dos juros na dívida

Lara Resende reconhece que o Brasil tem problemas na qualidade dos gastos e menciona emendas parlamentares, benefícios no Judiciário, vinculações de receitas, isenções e subsídios. No entanto, sustenta que cortar despesas primárias — gastos do governo que não incluem o pagamento de juros — não é a principal causa nem a solução central para o desequilíbrio fiscal. Segundo o economista, um ajuste baseado apenas em cortes não produziria superávit suficiente para compensar os juros sem provocar uma recessão profunda.

Beni cita números para dimensionar o impacto. De acordo com ela, 46% do orçamento da União é destinado a juros e amortizações. A economista também afirma que, segundo o relatório de sensibilidade do Banco Central, cada aumento de 1 ponto percentual na Selic adiciona R$ 50 bilhões ao custo do Tesouro Nacional.

Na apresentação de Beni, a dívida bruta brasileira corresponde a 82,5% do Produto Interno Bruto (PIB), ou R$ 10,9 trilhões, e o custo médio do endividamento chegou a 12,68% ao ano. A despesa bruta com juros soma R$ 1,4 trilhão, equivalente a 10,5% do PIB; na dívida líquida, o valor é de R$ 1,15 trilhão, ou 8,7% do PIB.

A economista também cita dados do Fundo Monetário Internacional (FMI) segundo os quais o Brasil tem um dos menores déficits primários do mundo. Para ela, esse indicador sugere que as contas estão próximas do equilíbrio, enquanto a diferença entre a Selic e o crescimento da economia seria um fator importante para a evolução da dívida.

Coordenação entre políticas

Beni defende que as decisões fiscais e monetárias sejam avaliadas em conjunto, porque a Selic influencia diretamente o custo da dívida. Ela propõe que o Banco Central adote um duplo mandato, considerando emprego e inflação, como ocorre em outros países após a pandemia. Nesse modelo, o Comitê de Política Monetária (Copom) levaria em conta, ao decidir sobre os juros, tanto o controle da inflação e as expectativas quanto o efeito da taxa sobre a dívida e o emprego.

A discussão sobre os juros, porém, não elimina a necessidade de controlar gastos, segundo Beni. Ela aponta espaço para combater ineficiências e “supersalários” nos poderes Executivo, Legislativo e Judiciário, além do Ministério Público. Outra frente seria rever isenções e benefícios fiscais, que somam cerca de R$ 620 bilhões por ano, conforme o Tribunal de Contas da União (TCU).

A economista também defende uma redução linear e escalonada desses benefícios ao longo de uma década e afirma que a medida poderia liberar dezenas de bilhões de reais rapidamente. Para Beni, a revisão deveria ser acompanhada de transparência na destinação dos cerca de R$ 60 bilhões em emendas parlamentares.

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