Após o segundo turno das eleições de 2026, publicações de influenciadores, políticos e empresários passaram a incentivar nas redes sociais a demissão de trabalhadores por causa do candidato em quem votaram. A prática pode prejudicar a produtividade, é contestada do ponto de vista legal e, segundo os argumentos apresentados por economistas e filósofos citados no debate, tende a substituir a avaliação profissional por um critério sem relação com o trabalho.
Critérios políticos podem afetar a produtividade
Uma empresa que escolhe ou dispensa funcionários com base na preferência eleitoral pode deixar de considerar as habilidades necessárias para cada função. Nesse cenário, a qualidade dos serviços e a eficiência econômica ficam sujeitas a um critério que não mede a capacidade de realizar o trabalho.
O economista Milton Friedman abordou a questão em Capitalismo e Liberdade. Segundo o argumento apresentado na obra, o empresário que discrimina por motivos alheios à produtividade assume o custo da própria decisão, e a concorrência tende a penalizar essa escolha. Se o voto passa a orientar a seleção de profissionais, a empresa não tem garantia de que o funcionário escolhido terá as qualidades atribuídas ao candidato preferido pelo empregador — nem de que deixará de ter os defeitos associados ao candidato adversário.
A prática também pode estimular candidatos a esconder ou mentir sobre sua opção de voto para conseguir uma vaga. Isso pode comprometer a confiança entre empregador e empregado, embora a justificativa para usar o critério político seja justamente buscar alinhamento entre os dois.
“Eu sou absolutamente contra demissões em razão de ideologia política. Já tive excelentes funcionários e sócios de diferentes ideologias”, afirma Samer Agi, ex-juiz do Tribunal de Justiça do Distrito Federal e dos Territórios (TJDFT) e empresário.
O voto e a avaliação do profissional
As críticas à prática também recorrem à filosofia moral. Na Suma Teológica, Tomás de Aquino descreve a “acepção de pessoas” como um vício contrário à justiça: ocorre quando alguém recebe um cargo por uma razão que não corresponde ao que o torna digno dele. A contratação ou a demissão motivada pelo voto pode ser entendida, nessa perspectiva, como uma forma de privilegiar um fator alheio à competência exigida pela função.
Alasdair MacIntyre, filósofo escocês, diferencia em Depois da Virtude os bens internos de uma atividade — como a excelência no ofício — dos bens externos, como poder, prestígio e dinheiro. Sua análise sustenta que uma prática se corrompe quando a instituição dá prioridade aos bens externos em detrimento dos internos. Aplicada às relações de trabalho, essa ideia aponta para o risco de a lealdade política ocupar o lugar da qualidade profissional.
Nesse tipo de decisão, o voto passa a ser tratado como se definisse o conjunto de características de uma pessoa. Mas a escolha eleitoral pode decorrer de motivos diversos e não necessariamente revela as habilidades ou virtudes relacionadas ao desempenho profissional. O resultado é reduzir o trabalhador à sua preferência por um candidato, em vez de avaliá-lo pelo conjunto de competências que o levou a ocupar o cargo.
Contestação jurídica e efeitos políticos
A dispensa motivada por convicções políticas também é juridicamente contestável. O artigo 5º, inciso VIII, da Constituição estabelece que ninguém será privado de direitos por motivo de convicção política. Embora não exista uma lei específica sobre demissões por voto, a Justiça do Trabalho tem tratado dispensas baseadas em convicções políticas como discriminatórias.
Há ainda uma possível contradição para empregadores que demitem trabalhadores com a intenção de enfraquecer o eleitorado adversário. A contratação de outra pessoa não garante que ela compartilhe as convicções do patrão. Além disso, um cruzamento de resultados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) com dados do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged) sugere que pessoas contratadas durante o atual governo tendem a atribuir a melhora nas oportunidades de trabalho ao governo, e não ao empregador ou à sua posição ideológica.
Pesquisas em psicologia política indicam que opiniões podem mudar conforme as experiências, os valores e o ambiente social de cada pessoa. Estudos do Rooney Center for the Study of American Democracy, da Universidade de Notre Dame, apontam o ambiente profissional como um dos espaços em que o contato com argumentos e interpretações diferentes sobre economia, mérito, responsabilidade e impostos pode contribuir para essa revisão. Demitir alguém por seu voto interrompe essa convivência.
A reação também pode reforçar a polarização, em vez de alterar a preferência eleitoral do trabalhador. Uma pessoa dispensada por apoiar determinado candidato pode encontrar acolhimento entre integrantes do mesmo grupo e fortalecer suas opiniões. O resultado, segundo essa análise, tende a ser mais intolerância e distanciamento entre grupos.
O debate inclui ainda o ambiente educacional e cultural, no qual contratações podem ter alcance político. Críticos apontam uma hegemonia da esquerda nos meios acadêmicos, especialmente nas universidades federais, e relatam perseguições a alunos e professores com posições contrárias. Mesmo diante desse diagnóstico, a tentativa de compensar o quadro por meio de contratações em empresas privadas, sem finalidade educacional ou formativa, dificilmente atingiria esse objetivo.