A Embrapa apresentou a Embrapa Trace, ferramenta digital para comprovar a rastreabilidade e a conformidade socioambiental das cadeias de soja, café e carne bovina. Integrada à plataforma AgroBrasil Mais Sustentável, do Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa), a solução deve ajudar produtores e empresas a atender exigências comerciais, entre elas as regras da União Europeia contra o desmatamento.
Rastreabilidade para atender mercados externos
A Embrapa Trace reunirá informações cadastrais e geográficas de sistemas como TerraClass e ElegiAgro. A ferramenta permitirá gerar relatórios por QR Code e criar registros digitais de auditoria por lote, que podem embasar negociações comerciais e contestar eventuais barreiras. A proposta também é reduzir custos de certificação para cooperativas e outros participantes das cadeias produtivas.
O cronograma do Regulamento da União Europeia sobre Desmatamento (EUDR, na sigla em inglês) prevê que médios e grandes exportadores comprovem conformidade ambiental a partir de 30 de dezembro de 2026. Para micro e pequenos produtores, o prazo se estende até junho de 2027. A Embrapa planeja ampliar a ferramenta para cacau, madeira, borracha, aves, suínos e pescados.
“A Embrapa Trace consolida evidências de sustentabilidade e rastreabilidade em um parecer único de conformidade, como um passaporte digital do produto”, afirmou Anderson Alves, pesquisador da Embrapa Agricultura Digital.
Outra iniciativa ligada à rastreabilidade é a operação de US$ 30 milhões, equivalentes a R$ 155 milhões, fechada pela CJ Selecta com o Bradesco por meio de um Pré-Pagamento à Exportação (PPE) Verde. O recurso será usado exclusivamente para comprar soja certificada e rastreada. Em 2025, a empresa rastreou 99,63% da soja adquirida até a área da fazenda por meio do Cadastro Ambiental Rural (CAR) e certificou todo o volume não geneticamente modificado pelo selo ProTerra.
Crédito, investimentos e novos negócios
Fiagros, fundos de investimento voltados ao agronegócio, e Certificados de Recebíveis do Agronegócio (CRAs) responderam por 33% do crédito agropecuário captado no mercado de capitais ao fim de 2025, ante 19% em 2021, segundo a Anbima. No primeiro semestre de 2026, os dois instrumentos somaram R$ 16,4 bilhões em novas emissões. Em paralelo, as agtechs brasileiras captaram R$ 562 milhões em 26 rodadas em 2025, cerca de 50% menos que no ano anterior, de acordo com levantamento do Itaú BBA.
A redução da liquidez aumenta a atenção a auditorias e riscos em operações de investimento e fusões e aquisições. Rodrigo Barbeti, CEO do Grupo BLB, afirmou que demonstrações contábeis consistentes e o mapeamento de passivos passaram a influenciar avaliações e a precificação de riscos de companhias agrícolas.
A startup Vereda captou R$ 30 milhões em uma rodada seed, etapa inicial de investimento, liderada por Valor Capital Group e Canary, com participação do fundo Speedrun, da Andreessen Horowitz. A empresa conecta fabricantes de insumos a produtores rurais e não mantém estoque nem assume risco de crédito. Em um projeto-piloto na safrinha 2026/27, bancos, tradings e fundos de crédito privado financiam as compras. A Vereda pretende consolidar sua operação em Goiás e iniciar expansão geográfica a partir de 2027.
Em Mato Grosso, a Associação Mato-Grossense de Apoio à Pesquisa Medicinal Cannabis (AVIDA-MT) calcula que precisará de cerca de R$ 2 milhões para instalações, equipamentos e protocolos de qualidade e rastreabilidade. A estimativa ainda não representa captação confirmada nem cronograma de obras. Com sede em Cuiabá e cerca de 50 pacientes atendidos, a entidade estuda parcerias com laboratórios e universidades.
Tecnologia e produtividade no campo
A BASF anunciou uma soja transgênica destinada ao controle de nematoides das lesões radiculares e de cisto. A planta incorpora um gene da bactéria Bacillus thuringiensis e também tolera o herbicida isoxaflutole. O lançamento comercial no Brasil está previsto a partir de 2028, condicionado à aprovação regulatória. Segundo a Sociedade Brasileira de Nematologia, essas pragas causam perdas anuais de R$ 35 bilhões ao agronegócio, dos quais R$ 16 bilhões correspondem à soja.
A Bayer criou a marca Biológicos Bayer e projeta lançar 17 produtos na América Latina até 2030, oito deles no Brasil. O primeiro previsto para a safra de soja 2026/27 é o Curvet, bioinsumo testado em 114 localidades ao longo de quatro safras. Segundo a companhia, os testes registraram ganho médio de três sacas por hectare. A empresa também fechou parceria com a brasileira IdeeLab para desenvolver um biofungicida voltado a doenças foliares.
Na pecuária de corte, a Zoetis registrou taxa média de prenhez de 50,5% por Inseminação Artificial em Tempo Fixo (IATF) em levantamento que reuniu 1,86 milhão de dados de matrizes. O estudo apontou variação de até 16 pontos percentuais entre fêmeas primíparas conforme o escore de condição corporal. A adoção de uma segunda IATF elevou a prenhez acumulada a até 79,8% em vacas multíparas taurinas e cruzadas.
Outros projetos incluem cultivares de trigo transgênico da OR Genética e da Trigall Genetics, previstas para 2029, com tolerância à seca e ao glufosinato de amônio; crédito do BRDE para ampliar lavouras orgânicas de erva-mate em Santa Catarina; e a entrada do Brasil no Banco Regional de Antígenos de Febre Aftosa, com aporte de US$ 600 mil somado pelos fundos do Rio Grande do Sul e de Mato Grosso. A Novonesis também recebeu reconhecimento da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura por sua plataforma de biossoluções para nutrição e produção de aves, suínos e bovinos.