Filtros de seleção podem deixar os melhores talentos fora dos processos seletivos


O LinkedIn disponibilizou recentemente em português o Hiring Assistant, agente de inteligência artificial (IA) voltado a apoiar recrutadores na identificação de profissionais por qualificações e habilidades. A ferramenta chega em um cenário em que empresas relatam dificuldade para encontrar candidatos qualificados e enfrentam desafios para avaliar currículos adaptados com auxílio de IA.

Segundo pesquisa do LinkedIn citada por Milton Beck, diretor-geral da empresa para América Latina e África, 84% dos profissionais de Recursos Humanos (RH) no Brasil consideram que a falta de candidatos qualificados tornou as contratações mais difíceis. Outros 42% apontam que o uso crescente de IA por candidatos para ajustar currículos e candidaturas aos requisitos das vagas dificulta avaliar o alinhamento entre as pessoas e as posições.

Para Beck, esses dados indicam uma contradição: embora as empresas recebam cada vez mais informações sobre quem se candidata, ainda encontram obstáculos para identificar as competências de que precisam. O executivo defende que a tecnologia pode ampliar a busca para além da correspondência direta entre os termos de uma vaga e as informações de um currículo.

Busca além dos currículos tradicionais

Processos seletivos costumam considerar formação acadêmica, cargos ocupados e empresas em que o profissional trabalhou. Esses critérios podem facilitar a triagem, mas também restringir a procura a trajetórias consideradas convencionais. O resultado, segundo Beck, é o risco de deixar de encontrar pessoas que desenvolveram habilidades úteis em outras áreas ou por caminhos diferentes dos previstos na descrição da vaga.

A proposta de usar IA no recrutamento é analisar informações profissionais de forma contextualizada e localizar possíveis candidatos que filtros tradicionais talvez não identificassem. A tecnologia pode, assim, ajudar a direcionar a busca para qualificações e competências, em vez de depender apenas de títulos de cargos ou experiências muito semelhantes às listadas pela empresa.

O Hiring Assistant foi apresentado pelo LinkedIn como um recurso de apoio aos recrutadores. Beck afirma que a possibilidade de reduzir o tempo gasto em tarefas operacionais pode permitir que profissionais de RH dediquem mais atenção às conversas com candidatos. Para ele, o processo também exige compreender as necessidades da empresa, as expectativas de quem busca uma oportunidade e a capacidade de contribuir para os desafios do negócio.

Vieses e supervisão humana

O uso de sistemas automatizados também envolve o risco de reproduzir distorções presentes nos dados utilizados para orientar as buscas. Beck observa que recrutadores podem, mesmo sem intenção, favorecer pessoas com trajetórias parecidas com as suas, como profissionais que estudaram nas mesmas instituições ou seguiram percursos semelhantes. A IA pode ampliar o conjunto de perfis considerados, mas, segundo o executivo, os sistemas precisam ser avaliados continuamente.

O diretor do LinkedIn ressalta que a decisão de contratação continua sob responsabilidade humana. A tecnologia pode apoiar a identificação de candidatos, mas não substitui a avaliação das pessoas envolvidas no processo. Essa distinção é relevante porque encontrar correspondências em informações profissionais não basta, por si só, para compreender as motivações e a capacidade de cada candidato.

A mudança também pode alterar a forma como os profissionais apresentam suas experiências. Em vez de se limitar a listar cargos e locais de trabalho, candidatos podem explicar o que aprenderam, quais problemas resolveram e como essas competências podem ser aplicadas em outros contextos. Uma mudança de carreira ou uma experiência empreendedora, por exemplo, pode demonstrar habilidades que não aparecem de forma clara no título de um cargo.

Competências em trajetórias diversas

Para Beck, as empresas terão de compreender melhor quais habilidades precisam, revisar exigências que já não fazem sentido e preparar lideranças para reconhecer competências em percursos variados. A adoção de ferramentas de IA pode ampliar a busca, mas também depende de critérios de seleção bem definidos e de acompanhamento contínuo dos resultados.

O executivo afirma que profissionais com potencial podem não aparecer em uma busca convencional quando suas experiências não reproduzem o perfil descrito para a vaga. Nesse cenário, a tecnologia é apresentada como uma forma de ajudar recrutadores a considerar outras trajetórias e identificar conhecimentos que possam ser úteis ao trabalho, sem reduzir a decisão a uma correspondência automática entre currículo e oportunidade.

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