As eleições de terça-feira colocaram o custo de vida, a corrupção política e as guerras entre as principais preocupações dos eleitores americanos, segundo uma análise que defende mudanças na política externa dos Estados Unidos. Com a nova maioria democrata no Congresso, a partir de janeiro, o partido terá instrumentos para investigar o governo de Donald Trump e tentar interromper a guerra no Irã. O texto argumenta que essas frentes estão ligadas e que a resposta também deve enfrentar fatores internos que afetam a segurança e a prosperidade do país.
Pressão para interromper a guerra
A análise afirma que a primeira prioridade dos democratas deveria ser encerrar o conflito no Irã, descrito como impopular e prejudicial ao orçamento das famílias. Para isso, o Congresso poderia usar o poder de controlar a liberação de recursos e se opor a pedidos de verbas adicionais para a guerra.
O texto propõe ir além: bloquear o financiamento das Forças Armadas e impedir a aprovação da Lei de Autorização de Defesa Nacional, que define o escopo e o orçamento do Departamento de Defesa. Também sugere que os democratas considerem reter recursos de todo o governo e ameaçar uma paralisação caso a legislação orçamentária não proíba o financiamento do conflito. A resolução provisória que mantinha o governo em funcionamento tinha prazo até 11 de dezembro.
Na avaliação apresentada, a resistência a novos gastos militares responderia à insatisfação dos eleitores com a guerra e com o uso dos poderes presidenciais para iniciar hostilidades. O texto observa que, em ocasiões anteriores, democratas temeram ser acusados de não apoiar as tropas quando se opuseram ao financiamento de conflitos. Agora, segundo a análise, o partido deveria manter a oposição a recursos adicionais.
A proposta também inclui examinar a continuidade entre as ações de Trump e decisões de governos anteriores dos dois partidos. O texto relaciona a escalada no Irã ao apoio da administração de Joe Biden a Israel durante a guerra em Gaza e à falta de consequências para o governo israelense, apesar de denúncias de violações de direitos humanos e do direito internacional. Também associa os ataques americanos a embarcações suspeitas de tráfico no Caribe à política de tratar as drogas como uma “guerra” e de usar a classificação de “terrorista” para justificar medidas extremas.
Investigações sobre corrupção
Com o controle de comissões e da agenda legislativa, os democratas poderão ampliar a fiscalização do governo Trump. A análise defende investigações sobre presentes estrangeiros ao presidente, conflitos de interesse envolvendo familiares, contratos concedidos a doadores e a venda de indultos. Também propõe apurar o chamado “Conselho de Paz” de Trump para Gaza, que o deputado Jamie Raskin, democrata de Maryland, descreveu como um “fundo secreto global”, além de examinar os conflitos de interesse atribuídos aos enviados Steve Witkoff e Jared Kushner.
Pesquisas citadas no texto indicam preocupação disseminada com a corrupção. Uma pesquisa Harris feita para o jornal The Guardian apontou que quase nove em cada dez americanos consideram problemático que autoridades eleitas priorizem interesses financeiros próprios ou de doadores. Uma sondagem econômica da CNBC, realizada em meados de outubro, identificou a corrupção governamental como preocupação maior que os preços de alimentos e gasolina. Em setembro, a Gallup registrou que 89% dos adultos americanos consideravam a corrupção disseminada, o maior índice em 20 anos, segundo a pesquisa.
A análise sustenta que parte do combate pode ocorrer pela aplicação de leis já existentes, como a Lei de Transparência Corporativa e a Lei de Práticas de Corrupção no Exterior. Também defende reformar o financiamento de campanhas, ampliar os recursos da Comissão Eleitoral Federal para investigar violações e responder à decisão da Suprema Corte de 2010 no caso Citizens United, que permitiu gastos corporativos sem limite em campanhas políticas.
Custo de vida e política externa
O texto propõe conectar a agenda anticorrupção à pressão sobre o orçamento doméstico. Entre as medidas mencionadas estão contestar as tarifas adotadas por Trump, enfrentar a alta dos preços da gasolina associada à guerra no Irã e restaurar o imposto mínimo global. A análise também cita o risco de perdas de empregos ligadas à inteligência artificial (IA) e a concentração de poder econômico e político em grandes empresas de tecnologia.
Como exemplo da influência dessas companhias na política externa, o texto menciona a restrição da conexão Starlink da Ucrânia por Elon Musk. A proposta é que o Congresso combine audiências, investigações e projetos de lei para tratar desses temas, mesmo que nem todas as iniciativas resultem em novas leis durante os dois anos seguintes.
Na avaliação apresentada, as medidas poderiam formar a base de uma plataforma democrata para o Congresso e para uma futura administração do partido em 2029. O objetivo seria construir apoio político para uma mudança duradoura na política externa, ao mesmo tempo que o governo enfrenta corrupção e custos que pesam sobre os americanos.
