A rede ConservaIn, coordenada pela Embrapa, recebeu cerca de US$ 200 mil (R$ 1 milhão, segundo a estatal) do Fundo de Repartição de Benefícios da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) para ampliar a conservação de variedades agrícolas no Brasil. Divulgado pela Embrapa em 21 de outubro de 2026, o projeto prevê atendimento direto a pelo menos 400 famílias e 20 comunidades em dez estados.
A iniciativa reúne agricultores familiares, comunidades indígenas, guardiões de sementes e pesquisadores para preservar recursos genéticos usados na produção de alimentos. O projeto já estava ativo desde 25 de junho de 2023; a divulgação no portal internacional da FAO deu visibilidade às atividades, mas não marcou o início de uma nova operação.
Rede atua em cinco biomas
A rede de pesquisa e conservação foi criada pela Embrapa há seis anos e abrange Rio Grande do Sul, Bahia, Pernambuco, Alagoas, Sergipe, Amapá, Roraima, Tocantins, Mato Grosso e Mato Grosso do Sul. As atividades alcançam cinco biomas: Amazônia, Caatinga, Cerrado, Mata Atlântica e Pampa. Sete unidades descentralizadas da estatal participam do trabalho.
O projeto reúne 35 pesquisadores, além de curadores de bancos de germoplasma, técnicos, associações, organizações não governamentais e comunidades que mantêm variedades vegetais. Germoplasma é o conjunto de materiais genéticos de plantas que pode ser preservado e utilizado em pesquisas e na produção agrícola.
Além do financiamento internacional, a Embrapa estima um cofinanciamento de US$ 688 mil, composto principalmente pelo trabalho dos pesquisadores e por recursos das instituições participantes. O ConservaIn está registrado na FAO sob o código PR-154-S, com o nome de Rede de Apoio à Conservação Local de Recursos Genéticos Vegetais no Brasil e Integração com os Bancos de Germoplasma da Embrapa.
O financiamento está ligado ao Tratado Internacional sobre Recursos Fitogenéticos para Alimentação e Agricultura, voltado à conservação e ao uso sustentável da diversidade genética vegetal. A coordenação do projeto combina dois métodos. A conservação in situ ocorre nas propriedades rurais, roças e florestas, enquanto a conservação ex situ mantém materiais em bancos de germoplasma, armazenados em condições controladas por instituições públicas.
Sementes circulam entre lavouras e bancos
Entre as culturas contempladas estão arroz, milho, feijão-comum, fava, feijão-caupi, mandioca, batata, batata-doce e inhame. O trabalho também alcança outras plantas mantidas nas propriedades, como abóboras, pimentas, amendoim, açaí e frutas nativas.
Nas comunidades, as famílias plantam, colhem e selecionam as variedades ao longo de gerações. Esse cultivo mantém as plantas em contato com as condições de cada região, que incluem mudanças de temperatura, estiagens e pragas. Nos bancos públicos, parte dos materiais fica armazenada como reserva para o caso de sementes deixarem de estar disponíveis nas áreas de cultivo.
Uma das ações previstas é a duplicação de segurança das sementes crioulas, variedades tradicionais preservadas por agricultores. Materiais mantidos nas propriedades poderão ser incorporados às coleções da Embrapa, sem retirar dos agricultores seus direitos sobre as sementes. O fluxo também pode ocorrer no sentido inverso: variedades que desapareceram das lavouras, mas continuam armazenadas em bancos públicos, podem voltar às comunidades de origem.
A escolha das variedades não cabe apenas aos pesquisadores. Em ensaios participativos, agricultores e guardiãs de sementes avaliam arroz, milho, feijão e mandioca de acordo com o desempenho nas condições locais e com as necessidades alimentares das famílias. No Pampa, o projeto também mapeia parentes silvestres de plantas cultivadas, como batata-doce silvestre, ervilhaca, berinjela nativa e cevada.
Capacitação e registros comunitários
A execução começou a incorporar novas atividades comunitárias em 2026. A Embrapa informa que houve uma visita de campo em junho e outras duas ações em setembro. Até dezembro, estão previstas cerca de dez iniciativas com agricultores e comunidades tradicionais.
O plano inclui capacitação para multiplicar, armazenar e avaliar a qualidade das sementes. Também prevê a distribuição de kits simplificados para testes de germinação em bancos comunitários e orientações sobre conservação e controle de contaminação por materiais transgênicos. As ações devem considerar diferenças de equipamentos e instalações disponíveis em cada localidade.
Outra frente prevê modernizar e disponibilizar um portal público com registros de bancos comunitários, iniciativas locais e guardiões de variedades agrícolas. A plataforma deverá conectar informações do Brasil a sistemas internacionais. O projeto também produzirá diagnósticos e recomendações técnicas que poderão contribuir para políticas de agroecologia, produção orgânica, gestão ambiental em terras indígenas e segurança alimentar.
O planejamento inclui capacitação de mulheres rurais em seleção de sementes, conservação de variedades e empreendedorismo, além da participação de estudantes do ensino médio de escolas rurais, professores e extensionistas. Até o fim de 2026, a programação prevê novas visitas, avaliações de variedades nas lavouras e ações de conservação nos bancos de germoplasma, com agricultores participando da escolha dos materiais.

