A temporada de balanços do terceiro trimestre de 2026 deve mostrar um cenário mais difícil para as incorporadoras brasileiras, pressionadas por juros elevados, crédito restrito e menor acessibilidade aos imóveis. As projeções de analistas indicam desaceleração operacional entre julho e setembro, embora as empresas voltadas à baixa renda devam ter desempenho relativamente melhor, apoiadas pelo programa Minha Casa, Minha Vida (MCMV).
Os sinais de enfraquecimento já apareceram nos dados operacionais do setor. Segundo a XP Investimentos, a maioria das companhias lançou menos imóveis do que o esperado e adotou uma postura cautelosa diante do quadro econômico. As vendas perderam ritmo, os distratos — cancelamentos de contratos — aumentaram e a velocidade sobre vendas (VSO), indicador que acompanha o ritmo de comercialização dos imóveis, recuou.
BTG Pactual e Itaú BBA também classificam o período como mais um trimestre fraco para a construção civil. Os custos de construção, por outro lado, permaneceram controlados, o que ajuda a preservar as margens das empresas. A demanda ligada ao MCMV também se mostrou mais resiliente do que a dos segmentos de média e alta renda, apesar de obstáculos recentes na concessão de crédito.
Baixa renda tem desempenho desigual
Mesmo com o apoio do programa habitacional, as incorporadoras de baixa renda enfrentaram dificuldades operacionais. O Itaú BBA calcula que os lançamentos consolidados do segmento caíram 13% em relação ao terceiro trimestre de 2025. Os cancelamentos subiram cerca de 50% na mesma comparação, em meio a critérios mais rigorosos de concessão de crédito pela Caixa Econômica Federal.
As vendas líquidas ficaram 14% abaixo das estimativas do Itaú BBA, e a velocidade de comercialização continuou pressionada. A greve da Caixa em setembro também pesou sobre a atividade, segundo análises de bancos. Ainda assim, XP e Itaú BBA veem a demanda por imóveis de baixa renda como mais firme do que a dos demais segmentos, sustentada pelo MCMV.
A Cury (CURY3) aparece como um dos principais destaques esperados. O BTG projeta lucro líquido de R$ 308 milhões, alta de 21%, e receita líquida de R$ 1,8 bilhão. O retorno sobre o patrimônio (ROE, na sigla em inglês), indicador que relaciona o lucro ao capital próprio da empresa, deve ficar próximo de 70%. O Itaú BBA estima crescimento de 14% do lucro por ação e geração de caixa de R$ 254 milhões.
A Tenda (TEND3) também pode registrar avanço nos resultados. O BTG estima crescimento de 24% no lucro, enquanto o Itaú BBA prevê alta de 39% no lucro ajustado. As projeções consideram a melhora das margens e medidas de redução de custos. Para a Direcional (DIRR3), o Itaú BBA espera manutenção de margens elevadas, mas um lucro mais estável, pressionado por resultados financeiros mais fracos.
Na MRV&Co (MRVE3), o Itaú BBA projeta melhora operacional, com alta anual de 12% na receita líquida e lucro líquido de aproximadamente R$ 140 milhões. O crescimento da receita deve ser impulsionado principalmente pela evolução das vendas e por mudanças na metodologia de reconhecimento contábil. Já a Plano & Plano (PLPL3) tende a sentir mais a desaceleração: a estimativa do banco é de queda de cerca de 30% no lucro líquido.
Média e alta renda enfrentam mais pressão
As incorporadoras voltadas à média e alta renda devem ter um trimestre mais desafiador. O BTG aponta queda anual de 27% nos lançamentos do segmento e desaceleração de cerca de cinco pontos percentuais na velocidade média de vendas. O banco estima que a receita líquida consolidada fique próxima da estabilidade e que o lucro líquido do segmento caia 20%.
O Itaú BBA também observa recuo na atividade: os lançamentos consolidados caíram 32% na comparação anual, e as vendas líquidas ficaram cerca de 30% abaixo das expectativas da instituição. Os estoques equivalem a aproximadamente 22 meses de vendas, ante 19 meses no trimestre anterior, ampliando o desafio para as empresas reduzirem imóveis disponíveis sem acelerar lançamentos.
A Cyrela (CYRE3) deve se destacar entre as companhias desse grupo. O BTG projeta lucro líquido de R$ 478 milhões e geração de caixa próxima de R$ 300 milhões. O Itaú BBA estima alta de 19% no lucro e fluxo de caixa livre de R$ 220 milhões. Os dois bancos consideram a empresa a mais resiliente entre as incorporadoras de média e alta renda.
A Moura Dubeux (MDNE3) também aparece entre os destaques positivos. O BTG prevê crescimento de 30% no lucro líquido e ROE de 26%. O Itaú BBA estima avanço de 25% nos lucros, atribuído ao reconhecimento de vendas de terrenos em condomínios e a melhores resultados financeiros.
Juros elevam riscos para o setor
Na outra ponta, a Eztec (EZTC3) está entre as empresas mais pressionadas nas projeções. As estimativas apontam queda de 28% a 45% no lucro, em um quadro de menor receita, compressão de margens e baixa velocidade de vendas. Even (EVEN3) e Melnick (MELK3) também devem apresentar resultados mais fracos.
O ambiente macroeconômico voltou a piorar após as eleições, segundo o Itaú BBA. O banco afirma que os juros reais de longo prazo subiram cerca de 100 pontos-base nos últimos dias. Esse movimento aumenta os riscos para incorporadoras mais expostas aos compradores de média e alta renda. No segmento de baixa renda, a maior incerteza econômica também voltou a alimentar preocupações com a inflação de custos.