Soja deve interromper ciclo de expansão de área no Brasil em 2027, projeta Rabobank


A área plantada com soja no Brasil deve ficar estável na safra 2026/27, interrompendo uma sequência de expansão de cerca de 20 anos. A projeção é do RaboResearch, área de pesquisa do Rabobank, que apresentou na quarta-feira (4) seu relatório de perspectivas para o agronegócio em 2027. Endividamento, juros elevados e margens apertadas devem limitar novos investimentos, apesar da expectativa de uma safra de 178 milhões de toneladas.

O banco estima que a área cultivada alcance 49 milhões de hectares. Com a produtividade de volta à média histórica, depois do ciclo recorde anterior, a produção deve recuar ante as cerca de 182 milhões de toneladas da temporada passada, mas ainda será a segunda maior já registrada no país.

“Para 2027, a gente está vendo que vai ser aí o primeiro ano, depois de 20 anos, que não esperamos uma expansão da área plantada de soja”, afirmou Marcela Fernandez Marini, analista sênior de grãos e oleaginosas do Rabobank. Segundo ela, a estabilidade reflete a cautela dos produtores após os investimentos feitos entre 2020 e 2023/24 e a compressão das margens observada em 2026.

Soja depende de câmbio e controle de custos

As exportações brasileiras de soja devem diminuir de 114 milhões para 113 milhões de toneladas. O Rabobank relaciona a queda, entre outros fatores, à retomada dos embarques dos Estados Unidos para a China após um acordo comercial entre os dois países. Já o esmagamento doméstico, processo que transforma o grão em farelo e óleo, deve permanecer perto de 64 milhões de toneladas, apoiado pela demanda por óleo vegetal e biocombustíveis.

O câmbio também seguirá influenciando os preços recebidos pelos produtores. Entre janeiro e outubro de 2026, a valorização da soja na Bolsa de Chicago não se refletiu na mesma proporção nos preços em reais, devido ao fortalecimento da moeda brasileira. “Chicago alcançou um patamar acima de 13 dólares por bushel, mas o câmbio não permitiu que os preços em reais se fortalecessem na mesma proporção, fazendo com que a margem do produtor não apresentasse uma melhora expressiva”, disse Marini.

O banco vê 2027 como um período de transição, com possibilidade de alívio gradual, mas sem recuperação rápida garantida para a rentabilidade. Além do câmbio, endividamento, custos e disciplina na oferta devem pesar nas decisões de investimento. O relatório também aponta incertezas sobre a política fiscal após as eleições, com possíveis efeitos sobre câmbio, inflação e juros, além de riscos climáticos associados ao El Niño.

Por enquanto, a projeção para a soja não considera redução do potencial produtivo. Marini afirmou que o banco começará a avaliar esse risco a partir de dezembro. Um período seco em Mato Grosso, por exemplo, poderia levar a uma revisão das estimativas caso afete o desenvolvimento das lavouras.

Milho e algodão têm perspectivas distintas

A produção brasileira de milho deve somar 141 milhões de toneladas na safra 2026/27: 32 milhões na primeira safra e 109 milhões na safrinha, colhida depois da soja. A demanda das usinas de etanol deve crescer 18% em relação a 2026, para 32 milhões de toneladas. As exportações estão projetadas em 38 milhões de toneladas, e o consumo para alimentação animal deve aumentar 2%.

Com maior demanda, o balanço interno do milho tende a ficar mais ajustado, reduzindo os estoques e limitando quedas mais expressivas nas cotações, segundo o relatório. A expansão do etanol também aumenta o peso do mercado doméstico na formação dos preços do cereal.

Para o algodão, a estimativa é de aumento de 3,5% na área cultivada, para 2,1 milhões de hectares, e produção de 4,1 milhões de toneladas de pluma. As exportações brasileiras podem chegar a 3,5 milhões de toneladas. No mercado global, a produção deve cair cerca de 3%, enquanto a relação entre estoques e consumo recuaria de 63% para 57%. Juros altos e endividamento, porém, devem restringir investimentos no setor.

Menor oferta de carne bovina e avanço dos biocombustíveis

Na pecuária bovina, a retenção de fêmeas para recompor o rebanho deve reduzir a oferta de animais para abate. O Rabobank projeta queda de cerca de 3% na produção de carne em 2027, para 10,96 milhões de toneladas em equivalente carcaça (TEC), medida que padroniza o peso da carne com osso. A disponibilidade para o mercado interno deve diminuir 6%, para aproximadamente 6,5 milhões de toneladas, enquanto as exportações podem atingir 4,49 milhões.

A oferta menor pode sustentar as cotações, mas o consumo interno será determinante. “O consumo doméstico representa cerca de 61% de toda a produção de carne bovina; se ele responder abaixo do esperado, teremos pressão nas cotações, pois a demanda local tem um peso muito maior do que a externa”, avaliou Wagner Yanaguizawa, analista de proteína animal do Rabobank. A valorização do bezerro também pressiona os custos de reposição para quem trabalha com terminação.

Para a carne suína, o banco prevê alta de 3% na produção, que deve ficar entre 6,02 milhões e 6,05 milhões de toneladas, e exportações de 1,65 milhão de toneladas em equivalente carcaça. A produção de frango pode avançar 2,5%, para 16,7 milhões de toneladas, com embarques de 5,93 milhões.

No setor de açúcar e etanol, o Rabobank estima potencial de moagem de até 655 milhões de toneladas de cana na safra 2027/28, incluindo matéria-prima que permaneceu no campo na temporada anterior. Com 49,5% da cana destinada ao açúcar, a produção poderia alcançar 42,5 milhões de toneladas. No mercado internacional, a previsão é de déficit de 2,2 milhões de toneladas de açúcar em 2026/27, com colheitas menores na Índia e na Tailândia. Andy Duff, estrategista global do setor no banco, estimou preços em Nova York entre 17 e 19 centavos de dólar por libra-peso.

A capacidade de produção de etanol de milho deve receber cerca de 2,2 bilhões de litros com a entrada de novas usinas, levando o volume a aproximadamente 14 bilhões de litros em 2027/28. O etanol de cana deve somar 26,8 bilhões de litros. A oferta maior, especialmente do combustível hidratado, pode pressionar os preços mesmo com o crescimento da demanda.

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