Explorando Inovações em Israel: Lições para o Brasil
Em janeiro, tive a oportunidade de passar oito dias inesquecíveis em Israel, fazendo trabalho voluntário. Com um espírito de colaboração, ajudei na reconstrução de áreas afetadas pela guerra, e em cada dia, senti como se tivéssemos 48 horas de tantas experiências que vivemos e conhecimentos que absorvemos. Ao voltar para casa, uma pergunta me intrigava: como um país que vive sob constante tensão consegue produzir inovações e manter sua posição como um dos líderes globais em tecnologia?
O Panorama das Startups em Israel
Os números são um reflexo claro desse fenômeno. Em 2025, as startups israelenses arrecadaram impressionantes US$ 11 bilhões em 428 rodadas de investimento, um aumento de 14% em comparação a 2024. Esse cenário se intensifica ainda mais quando consideramos os exits, que chegaram a US$ 17,78 bilhões, e, ao incluir aquisições pendentes como Wiz e CyberArk, o volume totaliza US$ 88 bilhões. Esses dados revelam um movimento contínuo e consistente ao longo dos últimos anos, destacando a resiliência do ecossistema tecnológico israelense.
Setores em Alta: Cibersegurança e IA
Um dado que merece destaque é que a cibersegurança representou 43% do capital levantado, com US$ 4,81 bilhões investidos na área. Além disso, o segmento de inteligência artificial (IA), especialmente a generativa, atraiu US$ 2,75 bilhões. Nesse sentido, Israel se destaca como um polo estratégico em duas das frentes mais relevantes da transformação tecnológica mundial.
A Nova Geração de Investimentos
Conversando com a Mindset Ventures, um fundo de capital de risco que atua como uma ponte entre investidores brasileiros e o ecossistema tecnológico nos EUA e em Israel, compreendi melhor essa dinâmica. Com operações em São Francisco, São Paulo e Tel Aviv, o fundo capta recursos no Brasil para investir em startups B2B em crescimento. Esse modelo contribui significativamente para ampliar os horizontes dos investidores latino-americanos em mercados de alta inovação.
No portfólio do Fund III, empresas como a Turing mostram um múltiplo de 13x, e o Retorno Interno Anual (IRR) consolidado do portfólio já alcança 19,2%. Esses números são mais que indicadores de sucesso; são uma demonstração clara de por que o capital internacional continua a fluir para Israel, mesmo em tempos de incerteza geopolítica.
O DNA Inovador de Israel
O que torna o ambiente israelense único? Uma das chaves está na responsabilização precoce, agilidade nas decisões e transparência nas relações profissionais. Jovens profissionais assumem papéis cruciais desde cedo, em um ambiente onde a hierarquia é menos rígida do que em muitos outros países. A cultura da indagação é valorizada e considerada essencial para o crescimento e a inovação.
A constante instabilidade do país funciona como uma pressão que, paradoxalmente, gera um foco excepcional. Esse direcionamento leva a uma dedicação intensa a resolver problemas emergeentes, resultando em avanços significativos em segurança cibernética, defesa e inteligência artificial — áreas que respondem a necessidades reais e urgentes da sociedade.
Startups com Visão Global
Outro fator relevante é que as startups israelenses nascem com uma mentalidade global. Desde o início, elas são projetadas para operar em mercados internacionais, com modelos de produto e governança elaborados para atender a diferentes contextos culturais e econômicos. O ecossistema de inovação em Israel é muito mais do que a soma de suas partes; ele integra universidades, setor de defesa, capital de risco e grandes indústrias de maneira orgânica.
Comparando Brasil e Israel
Refletindo sobre a situação do Brasil, é impossível não estabelecer comparações. Temos criatividade, um mercado promissor e núcleos de excelência técnica. No entanto, ainda enfrentamos um desafio central: a falta de uma integração estrutural eficaz. Operamos em silos. A comunicação entre universidades e a indústria é deficiente, e a visão do capital muitas vezes tende a ser conservadora, ao invés de estratégica. A previsibilidade regulatória ainda é um fator crítico que impede que investidores internacionais se sintam confortáveis em ingressar no nosso mercado.
Movimentos Urgentes para Avançar
Se queremos que o Brasil avance em maturidade tecnológica até 2026, é crucial implementar três movimentos seguintes:
Alinhamento Estrutural: Diminuir a distância entre pesquisa aplicada e mercado, facilitando a transferência de tecnologia.
Captação de Capital Paciente: Estruturar a atração de investimentos com foco em deep tech, cibersegurança e inteligência artificial.
Valorização da Infraestrutura de Dados: Encarar a infraestrutura de dados e a formação técnica como ativos estratégicos a serem desenvolvidos.
Essas ações não são iniciativas isoladas; estão interconectadas dentro de um mesmo sistema. Quando a pesquisa dialoga com o capital, quando os investidores compreendem o risco de longo prazo e quando os talentos encontram um ambiente propício à execução, o ecossistema se torna mais robusto e preparado para enfrentar os desafios da inovação.
O Caminho da Prontidão
A prontidão é essencial. Ela é o que permite uma reação rápida, uma escalabilidade eficaz e a atração de investimentos globais de forma consistente. A prontidão não surge de circunstâncias favoráveis, mas sim de um processo de preparação contínua. Israel é um exemplo vivente do impacto positivo dessa integração, e o Brasil precisa decidir se prefere operar na lógica de oportunidades passageiras ou na construção estratégica de um futuro sólido.
A maturidade tecnológica é fruto de uma arquitetura institucional forte e de uma disciplina coletiva. Países que realmente dominam a tecnologia não esperam o auge do momento, mas se preparam para ele com antecedência. Ecossistemas maduros não dependem de condições externas favoráveis, mas funcionam em um estado constante de prontidão. Essa consistência estrutural é o que diferencia os países que consomem tecnologia daqueles que a definem.
Pensando Juntos
Iona Szkurnik, fundadora e CEO da Education Journey, uma plataforma de educação corporativa que aplica Inteligência Artificial para personalizar a experiência de aprendizado, nos convida a refletir sobre essas questões. Com um mestrado em Educação e Tecnologia pela Universidade de Stanford e uma rica experiência no Vale do Silício, Iona também é cofundadora da Brazil at Silicon Valley e mentora de mulheres no empreendedorismo.
As reflexões que ela compartilha nos ajudam a compreender que o futuro tecnológico pode ser promissor — se decidirmos a atuar de forma conjunta, organizada e inovadora.
Então, o que você acha das diferenças entre os ecossistemas de Israel e Brasil? Que passos devemos dar para fomentar essa conexão no Brasil? Sinta-se à vontade para deixar suas opiniões e compartilhar suas experiências. Juntos, poderemos construir um ambiente mais propício à inovação!




