Investir no exterior não exige exposição direta ao dólar


A exposição a investimentos internacionais pode incluir ou não a variação do dólar, conforme a estrutura do produto escolhido. O tema foi discutido em um podcast por Clara Sodré, analista de fundos da XP, Leonardo Vasques, gestor da XP Asset, e Malek Zein, analista da Suno Research, em conversa apresentada por Danielle Lopes, sócia e analista de ações da Suno. A escolha entre fundos com e sem proteção cambial depende dos objetivos e da tolerância a riscos de cada investidor.

Mercado externo e efeito do dólar

Investir fora do Brasil amplia o acesso a empresas e mercados que não têm representação relevante na Bolsa local e pode reduzir a concentração da carteira na economia brasileira. Mas a rentabilidade em reais também pode ser afetada pelo câmbio, dependendo do fundo escolhido.

Um ETF — sigla em inglês para fundo de índice negociado em bolsa — que acompanha o S&P 500 sem proteção cambial fica sujeito tanto às oscilações das ações que compõem o índice quanto à variação do dólar frente ao real. Se a Bolsa americana subir, mas a moeda dos Estados Unidos perder valor em relação ao real, a queda do dólar pode reduzir o retorno convertido para a moeda brasileira. Se o dólar subir, o câmbio pode contribuir positivamente para o resultado.

Vasques afirmou que investidores podem acertar a direção do mercado de ações e, ainda assim, ter um retorno diferente do esperado por não considerar a moeda. “A gente viu o investidor que apostava, por exemplo, na valorização do S&P, acertar a valorização do S&P, mas não ver que vinha uma desvalorização do dólar em conjunto”, disse.

Um produto com proteção cambial busca neutralizar o efeito direto das oscilações da moeda sobre o investimento. Isso não elimina o risco de queda do índice acompanhado. O resultado também depende das características e dos custos da estratégia de proteção.

Como diferem os ETFs ligados ao S&P 500

Dois fundos negociados na B3 ilustram a diferença. O SPXU11 mantém a exposição cambial: seu resultado em reais reflete o desempenho do mercado acionário americano e a variação do dólar. O SPXH11 tem proteção cambial e busca acompanhar o S&P 500 sem incorporar diretamente as oscilações da moeda. A estratégia do SPXH11 também considera o diferencial de juros entre Brasil e Estados Unidos.

Se o índice e o dólar se valorizarem ao mesmo tempo, o SPXU11 poderá se beneficiar dos dois movimentos. Se o S&P 500 subir, mas o dólar cair frente ao real, a moeda poderá reduzir o retorno do fundo. No SPXH11, o desempenho fica mais ligado ao índice e aos efeitos da estratégia de proteção. Os resultados efetivos variam conforme a metodologia de cada fundo, seus custos e o diferencial de juros.

A mesma distinção aparece nos ETFs de ouro citados por Vasques. O GOLD11 combina a exposição ao metal com a variação cambial, enquanto o GOLX11 oferece exposição ao ouro sem a variação direta do dólar. Como o metal é negociado globalmente em dólares, o retorno para o investidor brasileiro pode refletir tanto o preço do ouro quanto o câmbio. A escolha depende de o investidor querer incluir apenas a commodity ou também exposição à moeda americana.

A escolha depende do objetivo do investidor

Para Sodré, não há uma resposta única sobre usar ou não proteção cambial. “Eu vou trazer uma resposta que muitos investidores não gostam de ouvir, mas que eu gosto muito de falar, que é o famoso depende. E não depende do cenário, depende do objetivo desse investidor na hora de alocar”, afirmou.

Quem quer diversificar geograficamente, mas tem menor tolerância à volatilidade do dólar, pode optar por produtos que não incorporam diretamente a variação cambial. “Se ele não tem um perfil de investidor muito arrojado, retirar essa exposição cambial da parcela local é um caminho eficiente e recomendável para esse investidor mais conservador”, disse a analista.

Já quem deseja manter o dólar como parte da estratégia pode considerar um ETF sem proteção cambial, desde que entenda que a moeda tanto pode ampliar quanto reduzir o retorno em reais. Nenhuma das estruturas é necessariamente superior: a decisão depende do papel que o câmbio deve desempenhar na carteira.

Parcela internacional varia conforme a carteira

Não há uma proporção única de investimentos internacionais adequada a todos. A parcela depende do perfil de risco, do horizonte de investimento, dos objetivos financeiros e da distribuição do patrimônio entre renda fixa, ações e outras classes de ativos.

Sodré citou 15% de alocação internacional como referência usada pela equipe de alocação da XP naquele contexto. O percentual não foi apresentado como regra universal nem como recomendação individual. Segundo a analista, a carteira deve ser avaliada de forma integrada, considerando também reserva de emergência, investimentos com liquidez, renda fixa e demais posições em renda variável. Um investidor conservador tende a manter mais recursos em renda fixa e menos em renda variável; quem aceita mais oscilações pode distribuir o patrimônio entre um conjunto maior de ativos.

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