


O americano Jay Farmer, fundador da Ascribe Bioscience, poderia ter escolhido lançar seu primeiro produto ativo nos Estados Unidos, onde sua empresa foi criada. Com raízes em Nova York e desenvolvimento de tecnologia nos laboratórios da Universidade Cornell, a Ascribe Bioscience tem uma trajetória que inicia no berço da ciência americana.
Entretanto, o Brasil será o palco da estreia global do primeiro produto biológico da empresa, prevista para este mês de maio, com expectativa de faturamento de US$ 10 milhões (aproximadamente R$ 50 milhões, conforme a cotação atual).
Esta informação, divulgada em primeira mão para a Forbes Agro, não é apenas uma curiosidade; ela sinaliza uma transformação significativa no cenário global da inovação agrícola.
Brasil: O Novo Centro de Inovação Agrícola
Nos últimos anos, o Brasil passou de mero consumidor de tecnologias para se tornar um hub estratégico de validação e adoção de soluções biológicas sofisticadas.
“Quando fundamos a Ascribe, nosso foco inicial estava no mercado americano. Mas essa visão mudou quando testemunhamos os resultados promissores do nosso produto contra a ferrugem asiática da soja em testes realizados no Brasil”, declara Farmer, CEO da Ascribe Bioscience.
Esse movimento torna-se ainda mais relevante, já que o novo biológico da Ascribe recebeu recentemente a aprovação regulatória do Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa), da Anvisa e do Ibama, com o anuncio oficial feito no dia 19.
Transformando a Proteção de Cultivos com Inovação

O registro simboliza a chegada ao Brasil de uma molécula inédita, fundamentada em ascarosídeos, compostos que ativam a imunidade das plantas. Ao contrário dos fungicidas convencionais, que atuam diretamente sobre os patógenos, esta inovação estimula as defesas naturais da planta antes mesmo do ataque.
“A possibilidade de revolucionar a proteção das lavouras foi o que nos motivou a fundar a empresa”, afirma Farmer. “Notamos que quantidades minúsculas de moléculas naturais poderiam amplificar as defesas das plantas contra fungos, bactérias e vírus.”
Essa descoberta é fruto das pesquisas do cientista Frank Schroeder, cofundador da Ascribe e professor da Universidade Cornell. Farmer menciona que os resultados iniciais foram tão promissores que transformaram um projeto acadêmico em uma startup de biotecnologia voltada para o agronegócio.
No último ano, a Ascribe completou uma rodada de financiamento no valor de US$ 12 milhões (aproximadamente R$ 61 milhões), com investimentos de importantes players como Corteva, por meio da Corteva Catalyst, e Acre Venture Partners.
Motivação para Acelerar no Brasil

O Brasil se tornou um foco para a empresa em 2021, após os resultados positivos contra a ferrugem asiática da soja em estudos realizados na Europa. Desde então, a Ascribe tem se estruturado no país, realizando uma série de testes em campo.
A empresa conduziu cerca de 400 ensaios agrícolas em quatro anos, focando nas regiões produtoras de Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Paraná e Minas Gerais.
Esses testes englobaram culturas de soja, milho, café e, em estágios iniciais, algodão. Gabriel Wilmoth, COO da Ascribe, enfatiza que o ambiente agrícola brasileiro favorece a rápida validação de novas tecnologias.
“Como uma empresa americana lançando nosso primeiro produto no Brasil, isso demonstra claramente a evolução do ambiente regulatório brasileiro para biológicos nos últimos anos”, informa Wilmoth.
Ele também destaca outro ponto positivo: o perfil dos agricultores brasileiros, que se mostram técnicos, progressistas e abertos a inovações. O Brasil, com suas grandes propriedades agrícolas, se destaca como um cenário único em comparação a muitos mercados globais. A Ascribe entra no momento certo, numa época de expansão acelerada do mercado de bioinsumos no país.
Crescimento Rápido do Mercado de Bioinsumos
A indústria movimentou R$ 6,2 bilhões em 2025, com um crescimento impressionante de 28% em relação ao ano anterior, de acordo com a CropLife Brasil. O número de hectares tratados com produtos biológicos chegou a 194 milhões.
Consultores internacionais estimam que o mercado global de biológicos já ultrapassa US$ 13 bilhões (cerca de R$ 65 bilhões) e continua em expansão, impulsionado pela necessidade de alternativas às moléculas químicas tradicionais, resistência de pragas e a busca por práticas agrícolas mais sustentáveis.
Nesse contexto, a abordagem da Ascribe merece destaque, pois visa produtos biológicos que operam de forma semelhante aos defensivos químicos tradicionais.
Inovação que Funciona como um Químico

“O produto Phytalix pode parecer um químico, mas é completamente natural”, explica Wilmoth. “Ele é estável, resistente a temperaturas extremas e pode ser incorporado na rotina operacional das fazendas.”
Essa característica responde a um dos principais desafios do setor de bioinsumos: muitos produtos microbiológicos demandam refrigeração e têm limitações na aplicação e armazenamento. A Ascribe busca desenvolver uma solução que se integre à logística já estabelecida na agricultura.
Além disso, o produto recebeu uma classificação específica do Comitê de Ação à Resistência a Fungicidas (FRAC), que irá facilitar sua inclusão nos programas de manejo de resistência. Isso pode potencializar a relevância do novo biológico nos planos de rotação de mecanismos de ação.
“Acredito que não chegaremos a um futuro onde produtos orgânicos substituirão completamente os químicos. O que veremos será uma combinação de abordagens”, prevê Wilmoth. “Os agricultores precisarão integrar diferentes tecnologias para manter a produtividade em grande escala.”
Uma Estratégia Comercial Bem Definida
A Ascribe não pretende romper com o sistema atual, mas sim integrar seu produto às aplicações de fungicidas químicos já adotadas pelos produtores. Os testes no Brasil incluíram aplicações combinadas com esses produtos, e os resultados mostraram um aumento consistente na produtividade.
A expectativa da Ascribe é posicionar o produto em uma faixa de custo acessível, entre US$ 10 e US$ 12 (R$ 50 a R$ 60) por hectare.
“Nossos dados indicam aumentos de três a cinco sacas de 60 quilos de soja por hectare, com duas aplicações”, afirma Wilmoth. A estratégia financeira da empresa foi desenhada para se alinhar ao potencial do mercado brasileiro.
A Ascribe acredita que, se alcançar cerca de 10 milhões de hectares tratados nos próximos anos, seu faturamento anual pode chegar a US$ 100 milhões (R$ 500 milhões). Para 2026, a meta é mais cautelosa, mirando os US$ 10 milhões como um objetivo inicial desafiador para uma startup recém-chegada ao mercado.
Para viabilizar essa expansão, a Ascribe montou uma estrutura operacional enxuta no Brasil, enquanto a produção do ingrediente ativo permanece nos Estados Unidos, com a formulação e envase sendo realizados localmente por parceiros. “Somos uma empresa pequena e precisamos fazer parcerias para alcançar todos os agricultores”, afirma Wilmoth, destacando que a equipe técnica brasileira é composta por oito profissionais.
Brasil: Um Laboratório Global de Inovação Agrícola
Além das atividades no Brasil, a Ascribe está realizando estudos no Paraguai e planejando a entrada na Argentina. Nos Estados Unidos, o registro do produto ainda aguarda aprovação.
Essa dinâmica reforça um movimento que está redesenhando o mapa global da inovação agrícola. Durante décadas, os EUA dominaram o setor, mas hoje o Brasil se destaca, especialmente em áreas promissoras da agricultura mundial. Farmer acredita que essa mudança não é por acaso.
“O Brasil criou um ambiente muito favorável para inovação agrícola. Encontramos aqui pesquisadores altamente habilitados, agricultores dispostos a experimentar e um mercado vasto”, destaca.
A importância estratégica do Brasil está diretamente relacionada aos desafios fitossanitários enfrentados pelos produtores. A ferrugem asiática da soja, por exemplo, continua a ser uma das doenças mais impactantes da agricultura tropical, exigindo frequentes aplicações de fungicidas. A crescente resistência de patógenos aos produtos tradicionais aumenta ainda mais a pressão sobre o manejo agrícola.
Nesse cenário, soluções que estimulem as defesas naturais das plantas estão se tornando imprescindíveis. “O agricultor precisa de novas ferramentas, não apenas para melhorar a produtividade, mas para manter a eficácia dos sistemas existentes”, conclui Wilmoth.


