Jovem engenheira nuclear da periferia brasileira constrói carreira no exterior


A engenheira nuclear brasileira Dandara Araújo da Silva, de 30 anos, trabalha na Agência Internacional de Energia Atômica (Aiea), em Viena, na Áustria. Nascida em São Gonçalo, na região metropolitana do Rio de Janeiro, ela chegou à instituição depois de estudar na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), obter uma bolsa na França e superar obstáculos raciais e socioeconômicos ao longo da formação.

Em entrevista ao Podcast ONU News, Dandara contou que cogitou profissões como veterinária, detetive, diplomata e advogada antes de escolher a engenharia. A decisão começou a tomar forma aos 15 anos, quando passou em dois cursos técnicos: Química e Edificações. Como as matrículas coincidiam, precisou escolher entre as escolas. O pai, Reginaldo, era engenheiro civil, e ela se interessou por uma área que pudesse aplicar no cotidiano.

Da escola técnica à UFRJ

Depois da formação técnica, Dandara ingressou em engenharia na UFRJ. O deslocamento de São Gonçalo até a universidade podia levar pelo menos uma hora e meia, com dois ônibus, caminhada e trânsito. Para reduzir o tempo de viagem, ela chegou a descer no meio da ponte que fazia parte do trajeto. Segundo contou, gastava com transporte o equivalente a dois terços do salário mínimo.

A rotina também incluía longas jornadas no campus. Dandara chegava às 8h para as primeiras aulas e, em alguns dias, permanecia na universidade até as 21h para evitar o trânsito na volta. Ela relatou que o peso do deslocamento e o ambiente universitário, que descreveu como muitas vezes elitista, tornavam a experiência difícil.

O racismo e o preconceito social também fizeram parte de sua trajetória desde a infância. Dandara disse que ouvia comentários ofensivos sobre a aparência, o nome, a cor e a origem humilde. Os pais, Reginaldo e Magali, escolheram seu nome em homenagem a uma guerreira negra. Na escola, as ofensas de outras crianças chegaram a motivar reclamações da família à direção.

Para a engenheira, o contexto social pode dificultar a busca por oportunidades. “O contexto não te empurra para ir longe. Na verdade, ele te puxa para a sua posição inicial”, afirmou. Ela atribuiu aos pais um papel decisivo para continuar estudando. O pai também enfrentou obstáculos: começou engenharia civil depois de entrar no mercado de trabalho, mas precisou interromper o curso no terceiro ano para sustentar a filha.

Intercâmbio abriu caminho para a Europa

A educação dos pais influenciou a relação de Dandara com os estudos. Quando ela tirava nota 8 ou 9, Reginaldo dizia: “Ótimo, mas lembra que existe o 10.” Magali, que trabalhava como animadora cultural, cursou direito depois do nascimento da filha e, em algumas ocasiões, levava Dandara para a faculdade.

Na UFRJ, Dandara identificou no programa Ciência sem Fronteiras uma possibilidade de estudar fora do Brasil. A redução das oportunidades do programa, em meio à crise financeira brasileira, levou-a a buscar outra alternativa. Ela decidiu aprender francês para disputar uma bolsa de estudos na França e estudou o idioma sozinha, por meio de um curso na internet.

Depois de estudar e trabalhar no país europeu, Dandara se naturalizou francesa. Com o passaporte, concorreu a uma vaga de Profissional Júnior, iniciativa patrocinada pelo governo francês para jovens que iniciam a carreira em organizações internacionais, como as Nações Unidas. O percurso a levou à Aiea, instituição com sede em Viena.

Mais mulheres em áreas científicas

Dandara também defende o incentivo à presença de mulheres e meninas em ciência, tecnologia, engenharia e matemática. O pai, que morreu há mais de um ano, estava entre seus principais apoiadores nessa causa. Ela reconhece ainda a influência da mãe, das avós, de professores, mentoras e chefes. “Nossos heróis estão no nosso cotidiano”, disse.

Os dados citados na entrevista apontam a desigualdade de gênero em diferentes áreas. Embora mais mulheres do que homens se matriculem em universidades pelo mundo, 35% das meninas se formam em ciências, segundo o conteúdo apresentado. A participação feminina também é baixa em setores de pesquisa e tecnologia: menos de 2% dos candidatos a postos na área quântica são mulheres, e mais de 80% das empresas do setor são lideradas por homens. Na inteligência artificial, mulheres representam 22% dos profissionais.

A ONU estabeleceu o Dia Internacional das Mulheres e Meninas na Ciência, celebrado em 11 de fevereiro. Para Dandara, ampliar oportunidades depende também de iniciativas de incentivo e patrocínio, como as que ajudaram a viabilizar sua formação e a experiência no exterior.

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