As ações da Cyrela (CYRE3) acumulam queda de 51% desde o início da desvalorização e recuaram 36,9% no último mês. Diante da preocupação dos investidores, o JPMorgan avaliou até que nível os papéis poderiam chegar, comparando o comportamento histórico da companhia em períodos de crise com uma análise baseada em fundamentos financeiros.
O banco chegou a cenários diferentes conforme a abordagem utilizada. A leitura histórica aponta riscos de novas revisões nas projeções de lucro e de permanência da ação em múltiplos baixos caso se repita um ciclo prolongado de mercado baixista. Já a avaliação fundamentalista sugere que parte desse risco já está refletida no preço atual. Ainda assim, sem catalisadores para uma recuperação no curto ou médio prazo, o JPMorgan manteve recomendação neutra para o papel.
Histórico aponta risco de cortes nas projeções
Na análise histórica, os analistas observaram como o lucro por ação (LPA), indicador que divide o lucro da empresa pelo número de ações, e os múltiplos de valuation, usados para relacionar o preço do papel a medidas financeiras, se comportaram em períodos de crise. O levantamento indica que a Cyrela teve revisões negativas nas estimativas de LPA em todos os anos entre 2009 e 2018. A redução média foi de aproximadamente 25%.
Com base nesse histórico, o JPMorgan simulou um cenário semelhante à crise de 2014 e 2015. Nesse caso, as estimativas de LPA da Cyrela para 2027 poderiam sofrer revisões negativas de 40% a 60%, segundo o banco. A projeção é um cenário de risco, não uma estimativa apresentada como certa pelos analistas.
As previsões para 2026 já foram reduzidas em 14%. Se a companhia enfrentar um novo ciclo de mercado baixista que dure vários anos, o múltiplo da ação poderia permanecer entre 0,5 vez e 0,8 vez por um período prolongado. Essa faixa representa uma hipótese para a avaliação do papel em um contexto de pressão sobre as projeções e sobre o mercado.
Fundamentos indicam faixa de valor justo
A avaliação fundamentalista do JPMorgan oferece uma leitura mais construtiva. O banco considera o retorno sobre o patrimônio líquido (ROE, na sigla em inglês), que mede a rentabilidade em relação ao capital próprio da empresa, e aplica uma metodologia própria. Na análise, o preço atual da ação, em torno de R$ 17,40, já pressupõe custo de capital próprio de 18% a 19% e ROE sustentável de cerca de 14%.
O ROE médio da Cyrela desde 2008 foi de 12%, de acordo com os dados citados pelos analistas. Com essa referência, o valor justo estimado pelo banco fica entre R$ 13,50 e R$ 15,50. A faixa está abaixo da cotação aproximada de R$ 17,40, mas, na leitura do JPMorgan, indica que o potencial de queda a partir dos níveis atuais seria limitado pela avaliação fundamentalista.
As duas abordagens, portanto, não apontam para a mesma conclusão. A histórica mostra o que poderia ocorrer se a empresa atravessasse uma crise semelhante à de 2014 e 2015, enquanto a fundamentalista considera parâmetros de rentabilidade e custo de capital. O resultado depende de como as projeções de lucro e o retorno esperado pela companhia evoluírem.
Composição dos lançamentos pode mudar o cenário
O JPMorgan também ressalta que o LPA da Cyrela pode apresentar mais resiliência do que em crises anteriores. Um dos fatores apontados é a participação maior da empresa no segmento de baixa renda. Esse público respondeu por 27% dos lançamentos nos primeiros nove meses de 2026. Entre 2014 e 2015, a fatia era inferior a 10%.
Além da mudança na composição dos lançamentos, os analistas observam que a rentabilidade dos empreendimentos voltados à baixa renda era significativamente menor no passado do que é atualmente. Essa diferença pode influenciar a comparação entre o cenário presente e os períodos anteriores usados na análise histórica, embora o banco não descarte a possibilidade de revisões negativas nas estimativas.
Na avaliação do JPMorgan, a maior exposição à baixa renda e a rentabilidade atual desses projetos são elementos que podem tornar o desempenho do LPA mais resistente do que foi em crises passadas. Mesmo com essa possibilidade e com a faixa de valor justo indicada pela análise fundamentalista, a falta de catalisadores de curto ou médio prazo levou o banco a manter posição neutra sobre as ações da Cyrela.

