As menções a “bets” nas redes sociais dispararam após o governo assinar, em 25 de setembro, uma medida provisória (MP) que proíbe as apostas. No sábado seguinte, X e Instagram somaram 58.723 menções em português, mais de 1.250 vezes a média diária registrada entre 19 e 24 de setembro. O levantamento do Claritor indica, porém, que o aumento não correspondeu necessariamente a mais pessoas debatendo a medida: contas de entretenimento dominaram os conteúdos de maior alcance.
Menções cresceram após a assinatura da MP
O tema já havia ganhado força antes da medida provisória. Em 17 de setembro, quando clubes das séries A e B divulgaram uma nota contra as primeiras sinalizações do governo, as menções em português no X e no Instagram passaram de uma média combinada de 504 por dia para 13.687 em um único dia, segundo o monitoramento do Claritor.
Nos dias seguintes, o volume caiu. Entre 19 e 24 de setembro, a média ficou em 47 menções diárias nas duas redes. A assinatura da MP pelo governo, na sexta-feira, 25 de setembro, foi seguida pelo pico de 58.723 menções no sábado.
Para identificar quem impulsionou a conversa, o levantamento examinou, em cada rede, os 100 posts de maior impacto e os 100 mais retuitados. Um perfil com 1.103 seguidores, chamado @acervogarrito, havia alcançado mais retuítes do que a conta oficial do presidente durante o primeiro pico. No ranking posterior à assinatura da MP, porém, o perfil não apareceu.
Imprensa, futebol e políticos disputaram o debate
Entre os conteúdos ligados diretamente à discussão da medida, o levantamento identificou três grupos: veículos de imprensa, páginas e instituições do futebol e políticos. Cada um tinha motivações próprias para falar do assunto, como atrair audiência, ampliar a exposição ou obter capital político.
- Imprensa: contas como NewsLiberdade, g1, jornalnacional, cnnpolitica e metropoles somaram cerca de 19,3 milhões de impacto combinado.
- Futebol institucional: páginas de dados, torcidas organizadas com operação profissional e clubes oficiais, como o Flamengo, alcançaram cerca de 10,2 milhões.
- Políticos: Lula, Guilherme Boulos e Nikolas Ferreira reuniram aproximadamente 1,9 milhão, a menor parcela entre os três grupos.
Os números mostram que, no recorte analisado, a imprensa teve o maior impacto entre esses grupos, seguida pelas contas ligadas ao futebol. Os políticos, embora incluíssem o presidente que assinou a medida e nomes que a apoiaram ou criticaram, tiveram alcance menor no conjunto dos posts examinados.
Contas de entretenimento dominaram o alcance
Outro tipo de perfil ocupou a maior parte do topo dos rankings: páginas de entretenimento, como PortalBabados e Bunklr. Esta última se descreve como um negócio de “entretenimento, cultura pop, charts, cinema, humor”. No X, 77 dos 100 posts de maior impacto vieram de contas desse segmento, que concentraram 81% do impacto total do ranking. Entre os 100 conteúdos mais retuitados, 82 também eram desse tipo.
O levantamento associa parte dessa circulação ao uso de “bets” como gíria de concordância entre jovens, sem referência a apostas ou dinheiro. Nesse contexto, contas de entretenimento podem aproveitar o interesse repentino pela palavra para publicar conteúdos e ampliar o alcance, mesmo sem discutir a MP. O grupo inclui empresas de conteúdo e também perfis menores e pessoais.
A diferença de alcance aparece na comparação entre publicações. Posts da conta oficial do presidente Lula sobre a medida tiveram impacto entre 143 mil e 276 mil. Já um post viral de entretenimento chegou a 6,3 milhões de visualizações, mais de vinte vezes o alcance do melhor post do autor da MP.
Volume de menções não mede a discussão
Os dados mostram uma distância entre o crescimento das menções e a presença de publicações dedicadas a debater a medida. A palavra “bets” pode aparecer em conteúdos sem relação com apostas, e o ranking de alcance reúne perfis com objetivos diferentes: informar, expressar posições políticas, divulgar o futebol ou aproveitar um assunto em alta.
O perfil de 1.103 seguidores ilustra essa mudança: apareceu no primeiro pico, ligado à reação de clubes, mas não figurou entre os conteúdos de maior alcance depois da assinatura da MP. Isso não significa que tenha deixado de publicar, mas que não estava entre os destaques do recorte analisado. Para interpretar uma alta nas redes, os números de menções precisam ser considerados junto com quem publicou e com o conteúdo de cada post.

