O Protagonismo das Mulheres no Agronegócio Brasileiro: Desafios e Oportunidades
Nos últimos anos, as mulheres ganharam espaço significativo no agronegócio brasileiro, administrando cerca de 30 milhões de hectares, o que representa 8,5% da área rural do país. Essa evolução é impressionante, mas ainda não reflete um verdadeiro protagonismo econômico. O estudo intitulado “Mulheres nas Cadeias de Valor do Agronegócio Brasileiro” traz à tona um paradoxo: embora a presença feminina no campo esteja aumentando, a renda, o controle da terra e a tomada de decisões continuam a ser dominados por homens.
A Pesquisa e Seus Impactos
Conduzida pela Fundação IDH, uma organização internacional com sede na Holanda, a pesquisa busca entender e transformar o agronegócio por meio de soluções que incorporem a equidade de gênero. O objetivo é mobilizar recursos para promover modelos de agricultura sustentáveis e, ao mesmo tempo, ampliar a inclusão feminina no setor.
Manuela Santos, diretora da Fundação IDH no Brasil, destaca que o estudo revela as barreiras e alavancas para gerar impacto no setor. “Isso é crucial, pois há uma real demanda por parte do mercado e uma carência de soluções eficazes,” afirma Manuela. Atualmente, 19% das 5,07 milhões de propriedades rurais no Brasil são geridas por mulheres, mas elas ainda controlam menos de 10% da área total.
Desigualdades Estruturais: A Terra e a Renda
Uma das principais questões enfrentadas pelas mulheres no agronegócio brasileiro está relacionada ao tamanho das propriedades que elas administram. Um impressionante 77,8% dessas propriedades não passa de 20 hectares. Essa realidade indica uma concentração em áreas menores, muitas vezes ligadas à agricultura familiar. Além de restrições territoriais, a desigualdade se manifesta em termos de renda: apenas 17,4% das mulheres no setor recebem mais de três salários mínimos, em comparação com 29,8% dos homens.
É alarmante que 31% das mulheres relatem a falta de acesso à assistência técnica, um fator vital para aumentar a produtividade e a adoção de novas tecnologias. As cooperativas, que deveriam ser um espaço de apoio, têm apenas 8,6% de participação feminina, reforçando a hierarquia no setor.
A Presença Feminina nas Cadeias de Valor
A pesquisa abrangeu seis cadeias agrícolas consideradas estratégicas no Brasil: soja, cana-de-açúcar, citros, cacau, café e pecuária. Um padrão emergente é o crescimento da presença feminina, porém de forma desigual e ainda permeado por barreiras históricas.
- Pecuária: Um dos casos mais emblemáticos, com um aumento de 55% no número de mulheres liderando fazendas de gado entre 2006 e 2017.
- Café: Embora as mulheres liderem apenas 13,2% das propriedades, elas impulsionam a participação feminina na força de trabalho, que chega a 43% em fazendas lideradas por mulheres.
- Cacau: As mulheres administram 22% das propriedades, mas somente 13% da área total, mantendo a tendência de concentração em áreas menores.
- Citrus e Soja: Enquanto a presença feminina é de 18% e 17%, respectivamente, nas propriedades, a presença tende a aumentar para 34,5% nos serviços agro.
Por outro lado, o setor de cana-de-açúcar apresenta os piores índices de inclusão feminina, com uma presença de apenas 5,4% em cargos de liderança. Essa realidade reflete um contexto historicamente mais mecanizado e masculino.
Escolaridade e Desigualdade Salarial
Um dado surpreendente revela que, apesar de possuírem em média um nível educacional superior, muitas mulheres ainda ocupam funções de menor valorização e remuneração dentro do agronegócio. Isso reitera um padrão encontrado em várias áreas do mercado de trabalho: mais qualificação não garante igualdade salarial ou acesso a posições de liderança.
A desigualdade no acesso a recursos fundamentais, como terra, crédito e assistência técnica, ainda é uma barreira significativa. A falta de títulos de propriedade torna difícil para muitas mulheres acessarem financiamentos e expandirem suas operações.
Sucessão e Representação: Barreira Cultural
A sucessão familiar é um aspecto que reproduz desigualdades. Muitas vezes, o herdeiro homem é considerado o sucessor natural do negócio, enquanto as mulheres são relegadas a papéis secundários. Essa dinâmica não só atrasa a formação de lideranças femininas, mas também limita seu acesso a terras e dá menos chances de controle completo das operações.
Além disso, a baixa representatividade em cooperativas e fóruns de decisão impede o acesso a informações de mercado e a oportunidades financeiras. Essa exclusão tem um impacto direto na capacidade das mulheres de maximizar sua produtividade e potencial econômico.
O Potencial Econômico de Atração de Talentos
É vital que a discussão sobre a inclusão das mulheres no agronegócio se desloque de uma agenda meramente social para um foco estratégico e econômico. A presença feminina liderança pode trazer práticas mais responsáveis e sustentáveis, além de contribuir para a inovação no setor.
Mulheres em posições de comando tendem a promover uma gestão mais empática e focada na conservação dos recursos, o que, por sua vez, se traduz em eficiência econômica. É inegável que a exclusão de uma parte substancial da força de trabalho resulta em perdas significativas em produtividade.
Propostas para Mudar o Cenário
O estudo apresenta uma série de recomendações para superar os obstáculos enfrentados pelas mulheres no agro:
- Mecanismos financeiros inclusivos que ampliem o acesso ao crédito sem depender do título de propriedade da terra.
- Políticas de compras que priorizem produtos de propriedades geridas por mulheres.
- Programas de capacitação técnica e formação de liderança adaptados à rotina feminina no meio rural.
- Redes de mentoria para apoio e desenvolvimento.
- Transparência salarial que promova igualdade.
- Canais seguros para denúncias de assédio moral e sexual.
- Investimentos em infraestrutura para apoio, como creches e escolas.
Por meio da implementação dessas ações, a Fundação IDH busca integrar a agenda de gênero com a lógica de negócios do agronegócio, convertendo uma questão social em uma alavanca de eficiência e inovação.
Reflexões Finais
O avanço das mulheres no agronegócio brasileiro não deve ser encarado como uma mera formalidade, mas como uma mudança fundamental que verifica não apenas a justiça social, mas também a produtividade e sustentabilidade do setor. O que o estudo enfatiza é a necessidade de alinhar a presença feminina com patrimônio e remuneração.
A mudança é um processo contínuo, e o desafio agora é transformar esse potencial em realidade. Ao final do dia, como você vê a participação das mulheres no agronegócio? O que pode ser feito para garantir um espaço mais equitativo e produtivo? Compartilhe suas reflexões e vamos juntos construir um futuro mais promissor.


