O Futuro do Agro: Por que um Plano de Estado é Essencial, segundo Executivo da John Deere


O Agronegócio Brasileiro: Entre o Potencial e os Desafios Estruturais

O Brasil é um gigante agrícola, colhendo safras recordes e liderando as exportações de commodities como soja, carne e milho. Contudo, mesmo com essa excelência na produção, o país enfrenta desafios sérios que limitam seu verdadeiro potencial agrícola. Um dos principais responsáveis por essa situação, segundo Alfredo Miguel Neto, executivo sênior da John Deere no Brasil, é a ausência de uma política agrícola de longo prazo.

A Necessidade de um Plano de Estado

Em uma entrevista reveladora concedida durante a Agrishow, em Ribeirão Preto (SP), Alfredo Miguel Neto destacou que o setor agro precisa urgentemente de uma estratégia robusta. Para ele, o agronegócio demanda não apenas planos de governo, mas um verdadeiro “Plano de Estado” que contemple um horizonte de 10 a 20 anos:

“Um plano de Estado tem uma direção única,” enfatizou Miguel Neto, ressaltando que mudanças frequentes de governo têm tornado os esforços agrícolas fragmentados e incoerentes.

O Impacto Econômico do Agronegócio

Os números falam por si só: em 2025, o agronegócio brasileiro representou 25,13% do PIB, com uma receita impressionante de R$ 3,2 trilhões, segundo dados do Cepea/USP em parceria com a CNA. Apesar desses resultados, Miguel Neto acredita que o Brasil poderia estar em uma situação econômica ainda mais favorável, se não fossem os diversos gargalos.

Os Desafios Estruturais do Setor

Os obstáculos que o setor agro enfrenta são conhecidos e preocupantes, especialmente em duas áreas fundamentais: transporte e armazenagem.

  • Transporte: O caminhão é responsável por 62% do transporte de carga no Brasil, o que representa um alto custo para o agronegócio. A média de distância entre fazendas e portos é de 625 km, oito vezes mais que a média dos EUA. Essa dependência do modal rodoviário acarreta custos elevados, já que 90% do transporte de grãos é feito por caminhões.

  • Armazenagem: O Brasil possui capacidade de armazenamento equivalente a apenas 70% de sua produção agrícola, em contraste com os EUA, que têm capacidade para 140%. Isso força os produtores a venderem suas colheitas no pico da safra, quando a demanda por transporte é alta, resultando em fretes ainda mais elevados.

Desafios no Acesso ao Crédito

O crédito é outra área onde os produtores sentem os efeitos da ineficácia de políticas de longo prazo. Apesar de o Plano Safra 2025/2026 ter disponibilizado R$ 516,2 bilhões para o setor, as concessões de crédito caíram 30% nos primeiros nove meses da safra, refletindo um ambiente econômico tenso:

  • Taxas de Juros: A cautela do setor em relação às altas taxas de juros tem desencorajado investimentos significativos, resultando em um recuo no número de contratos de financiamento.

Para Miguel Neto, isso é um alerta: “Os produtores que têm reservas estão conseguindo investir. Mas aqueles que não se prepararam estão enfrentando grandes dificuldades.”

A Importância de um Plano Estratégico de Longo Prazo

Miguel Neto argumenta que a resolução desses gargalos não é uma questão isolada, mas uma questão sistêmica. Para ele, é fundamental criar um plano estratégico que envolva a colaboração entre produtores, associações, instituições financeiras, universidades e o governo. Essa abordagem, voltada para o longo prazo, deveria:

  • Incluir Investimentos em Infraestrutura: Rodovias, portos e armazéns são essenciais para melhorar a logística do agronegócio.
  • Criar Um Ambiente Favorável: Seguros rurais e crédito em condições mais adequadas ajudariam na sustentabilidade e crescimento do setor.

A Embrapa é frequentemente citada como um modelo a ser seguido. Desde sua criação na década de 1970, a empresa tem sido fundamental para transformar a agricultura brasileira, demonstrando o impacto positivo que políticas públicas consistentes podem ter.

O Potencial do Agronegócio na Macroeconomia

Miguel Neto acredita que, com os investimentos certos, o agronegócio pode impulsionar toda a macroeconomia brasileira. Ele usa uma analogia simples para ilustrar sua visão:

“É como um filho que gosta de estudar: o que você faria? Investiria em sua educação para que ele crescesse.”

Os benefícios de um agronegócio robusto vão além do campo, contribuindo para a geração de empregos e renda. “Se tivermos esse apoio, poderemos reverter a migração das áreas rurais para as urbanas, criando novas oportunidades em diversas regiões,” defende.

Mercado de Máquinas Agrícolas: O Cenário Atual

A discussão sobre políticas de longo prazo também atinge a indústria de máquinas agrícolas, que enfrenta um cenário desafiador após anos de volatilidade. A Abimaq havia projetado um crescimento de 3,4% para 2026, mas agora prevê uma retração de 5% devido a fatores como:

  • Valorização do real;
  • Queda na rentabilidade do produtor;
  • Aumento na inadimplência.

Adaptação ao Novo Cenário

No contexto atual, apenas 36% das vendas de máquinas contaram com juros equalizados, uma queda significativa em relação aos 60% de anos anteriores. Essa realidade força os produtores a serem mais cautelosos em seus investimentos.

Miguel Neto observa que a John Deere tem se adaptado a esta nova realidade, oferecendo taxas de juros mais acessíveis através de seu banco, um movimento que demonstra o compromisso da empresa em ser parceira dos produtores.

Uma Relação de Parceria com os Produtores

A abordagem da John Deere tem evoluído significativamente, deixando para trás o tradicional modelo de vendas pontuais e passando a uma relação contínua com o produtor. Com uma rede de 300 lojas no Brasil, a empresa mantém acesso aos dados de produção em tempo real, permitindo um atendimento proativo:

“Ligamos para o cliente e dizemos: isso aqui pode dar problema, temos que agir”, explica Miguel Neto.

Esse modelo não apenas melhora a manutenção das máquinas, mas também aumenta a confiança do produtor no mercado financeiro ao reduzir o risco de crédito com dados confiáveis.

Trabalhando os Dados para um Futuro Sustentável

A coleta de dados se mostra uma ferramenta poderosa para o agronegócio. A comunicação transparente e baseada em informações sólidas promove a confiança de investidores e parceiros internacionais. “O Brasil precisa usar dados para demostrar o crescimento sustentável do agro,” finaliza Miguel Neto, enfatizando a importância de se contar boas histórias sobre o que acontece por trás da produção.


O desafio está lançado: temos a oportunidade de construir um futuro mais promissor para o agronegócio no Brasil, mas isso dependerá da união de esforços para criar um ambiente sustentável e favorável. Como você vê o futuro do agronegócio no Brasil? Compartilhe suas ideias e venha debater com a gente!

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui

Mais Recentes

Preços globais dos alimentos caem em outubro, mas ficam acima dos de um ano atrás

Os preços mundiais dos alimentos caíram ligeiramente em outubro, com a menor demanda por importações pressionando as cotações de...

Quem leu, também se interessou