Sanções econômicas podem limitar a capacidade de governos adversários sem resolver por completo os conflitos que motivaram as medidas. Essa é a principal conclusão de uma análise sobre a política externa dos Estados Unidos, que compara os efeitos das sanções contra Iraque e Irã com os custos das guerras travadas pelos americanos nesses países. No caso iraniano, o texto sustenta que a ofensiva iniciada pelos Estados Unidos e por Israel em fevereiro de 2026 não eliminou o regime e provocou impactos sobre o comércio e a economia globais.
Sanções como contenção de longo prazo
O argumento central é que as sanções não devem ser avaliadas apenas por sua capacidade de derrubar governos ou fazê-los abandonar todas as suas ambições. Também podem reduzir, ao longo do tempo, os recursos disponíveis para financiar atividades militares e programas considerados ameaçadores. A análise afirma que, quando combinadas com outras ferramentas de política externa, essas medidas ajudam a administrar problemas que seriam difíceis de resolver a um custo aceitável por meio da guerra.
O efeito econômico pode ser cumulativo. Uma economia que cresce 3% ao ano — aproximadamente a média global citada no texto — dobra de tamanho em cerca de 23 anos. Se o crescimento cai para 1% ao ano, o prazo sobe para 70 anos. A pressão econômica também pode desestimular outros governos a adotar comportamentos que levem a sanções.
Esse custo não recai apenas sobre os governos. A população civil também pode ser afetada, especialmente quando as lideranças transferem o peso das medidas para grupos com menor influência política. Por isso, a análise diferencia sanções amplas, que podem provocar danos econômicos generalizados, das chamadas sanções inteligentes, direcionadas a pessoas ou instituições específicas e aplicadas, por exemplo, por meio do bloqueio de transações financeiras.
O precedente do Iraque
As sanções impostas ao Iraque a partir de 1990 condicionavam sua suspensão ao desmantelamento de programas de armas de destruição em massa e ao respeito à soberania do Kuwait. Como a verificação dos programas iraquianos foi difícil, muitas medidas continuaram após o armistício de 1991 e permaneceram em vigor até a invasão liderada pelos Estados Unidos, em março de 2003.
Depois da derrubada de Saddam Hussein, segundo a análise, ficou evidente que o isolamento econômico havia impedido o Iraque de recuperar sua economia, reconstruir as forças armadas e retomar o desenvolvimento de armas de destruição em massa. Antes da invasão, porém, críticos consideravam insuficiente a política de sanções e contenção. A expulsão de inspetores da ONU por Bagdá levou Estados Unidos e Reino Unido a bombardear o país em 1998, e a presença militar americana na região alimentava oposição entre governos, populações árabes e parte dos europeus.
A guerra de 2003 tinha como objetivos desarmar o Iraque, libertar sua população e afastar uma ameaça internacional, associada a supostos arsenais de armas proibidas e a vínculos com a Al-Qaeda. O conflito, contudo, desencadeou novos problemas. A ocupação alimentou o recrutamento de jihadistas, e a violência entre sunitas e xiitas se intensificou em 2006, após um atentado contra a Mesquita Dourada de Samarra. Mais de 4 mil americanos e mais de 200 mil iraquianos morreram durante a guerra, segundo os números apresentados no texto.
Após a retirada americana, em 2011, integrantes estrangeiros de grupos jihadistas e remanescentes do partido Baath de Saddam formaram o Estado Islâmico, também conhecido como ISIS, que ocupou áreas do Iraque e da Síria em 2014 e 2015. Forças apoiadas pelos Estados Unidos e pelo Irã expulsaram gradualmente o grupo, mas parte dos combatentes se deslocou para outras regiões. A análise conclui que a guerra custou mais do que a aplicação das sanções e não alcançou o objetivo de construir um Iraque estável e aliado a Washington.
O acordo nuclear e a guerra com o Irã
As sanções contra o Irã se intensificaram ao longo de décadas, em resposta a diferentes ações do governo. Entre 2010 e 2011, restrições americanas limitaram a capacidade iraniana de vender petróleo e gás no exterior. A pressão econômica contribuiu para a eleição de Hassan Rouhani, em 2013, e fortaleceu setores favoráveis a uma negociação nuclear.
Em 2015, o Irã fechou um acordo com Estados Unidos, China, França, Alemanha, Rússia, Reino Unido e União Europeia. O pacto limitou o enriquecimento de urânio e o número de centrífugas em operação, além de prever inspeções internacionais. Em troca, as sanções seriam aliviadas conforme a verificação do cumprimento dos termos. O acordo não restringia o apoio iraniano a grupos aliados nem o programa de mísseis balísticos, mas estabelecia uma forma de adiar o desenvolvimento nuclear, afirma a análise.
Após a retirada americana do acordo em 2018, o Irã retomou seu programa nuclear. A guerra iniciada em fevereiro de 2026 por Estados Unidos e Israel não destruiu todas as instalações nucleares iranianas, e o regime permaneceu no poder mesmo após a morte do líder supremo e de integrantes de sua família em ataques. Em resposta, Teerã fechou na prática o Estreito de Hormuz e atacou instalações de petróleo, gás e infraestrutura militar na região.
Custos que ultrapassam o campo de batalha
A interrupção das exportações de petróleo, fertilizantes e hélio contribuiu para a inflação, ameaçou reduzir colheitas e levantou o risco de falta de componentes para a produção de chips. Os ataques também danificaram sistemas de defesa aérea, terminais de comunicação por satélite e equipamentos de radar em bases dos Estados Unidos e de seus parceiros no Oriente Médio. A análise informa que pelo menos 43 aeronaves americanas foram perdidas, incluindo aviões de reabastecimento e vigilância, e que uma aeronave de monitoramento avaliada em US$ 700 milhões foi destruída.
Para o texto, a guerra mostrou que o Irã pode afetar a economia mundial ao ameaçar uma rota marítima estratégica. Sanções não garantem vitória e também impõem sofrimento a civis, mas, em comparação com a guerra, podem conter a capacidade de um adversário com custos menores e sem dividir os danos com países distantes do conflito. A experiência do Iraque e do Irã, segundo essa avaliação, indica que a pressão econômica pode ser uma forma de administrar ameaças quando uma solução definitiva não está ao alcance.