A XP Investimentos rebaixou de compra para neutra sua recomendação para as ações brasileiras após a forte correção da Bolsa em outubro. No relatório Raio-XP de novembro de 2026, a equipe aponta juros elevados, inflação em aceleração e risco de queda nos lucros das empresas em 2027, fatores que tornam o cenário mais difícil apesar dos preços menores.
Os estrategistas liderados por Fernando Ferreira fixaram em 200 mil pontos o valor justo do Ibovespa ao fim de 2027, o que representa potencial de alta de cerca de 19% ante os níveis atuais. Para a XP, porém, esse retorno não supera de forma significativa o que a renda fixa brasileira pode oferecer, o que reduz a atratividade relativa das ações.
Queda de outubro elevou a cautela
O mercado passou por um dos meses mais turbulentos dos últimos anos. Depois de um forte rali na sequência do primeiro turno das eleições, quando o Ibovespa avançou 7,7% em um único pregão, os ganhos foram revertidos após o segundo turno. Em 26 de outubro, o índice recuou 13,9%, no terceiro pior pregão desde 2000.
No fechamento do mês, o Ibovespa acumulou perdas de 10% em reais e de 14,2% em dólares. A XP atribui a mudança de avaliação a três riscos principais: a retomada das preocupações fiscais, a perspectiva de inflação e juros em alta e a possibilidade de desaceleração da economia em 2027. Esse último fator poderia levar a revisões para baixo nas estimativas de lucro das companhias.
O relatório avalia que a combinação de inflação e juros crescentes costuma ser desfavorável para a renda variável brasileira. Além disso, a piora fiscal contribuiu para a deterioração dos ativos domésticos. A corretora não considera, contudo, que a correção tenha levado as ações a níveis tão baixos quanto os registrados em episódios anteriores de estresse.
Valuation ainda não indica compra ampla
O Ibovespa negocia a 8,2 vezes o lucro projetado das empresas, abaixo da média histórica de 10 vezes. A relação entre o preço das ações e os lucros esperados é uma das medidas usadas para avaliar se os papéis estão caros ou baratos. O prêmio de risco, indicador da compensação exigida pelos investidores para permanecer em ações, subiu para 4,5%.
Mesmo com esses números, a XP entende que os múltiplos — medidas de avaliação baseadas em indicadores financeiros — ainda não chegaram aos patamares mais descontados observados em momentos anteriores de tensão. A leitura ajuda a explicar por que a instituição manteve uma postura neutra, em vez de recomendar a compra generalizada de ações depois da queda.
Entre os setores, exportadoras foram exceções positivas em outubro. Papel e celulose subiu 6,9%, impulsionado pela Suzano (SUZB3), e óleo e gás avançou 4%, com apoio da alta do petróleo e da valorização de Petrobras (PETR3; PETR4) e PRIO (PRIO3). Na outra ponta, educação caiu 27,5%, transportes recuou 24,1% e bancos perderam 18,2%. Segundo o relatório, esses segmentos são mais sensíveis à piora das condições financeiras.
Preferência por balanços sólidos
Mesmo com a recomendação neutra para o mercado, a XP afirma que continua priorizando empresas de alta qualidade, com balanços sólidos, baixa alavancagem e boa geração de caixa. Entre as oportunidades apontadas após a correção estão Sabesp (SBSP3), Rede D’Or (RDOR3), TOTVS (TOTS3), Itaú Unibanco (ITUB4), Cury (CURY3), WEG (WEGE3), Embraer (EMBJ3) e Petrobras (PETR4).
A corretora também alterou as carteiras recomendadas para novembro. Na Top Ações, incluiu WEG, JBS (BDR: JBSS32) e Caixa Seguridade (CXSE3), e retirou BTG Pactual (BPAC11) e Nubank (BDR: ROXO34). Na carteira de dividendos, aumentou a participação de Caixa Seguridade e reduziu a exposição à B3 (B3SA3).
Na carteira de small caps, formada por ações de empresas de menor porte, entraram São Martinho (SMTO3) e Vitru (VTRU3). Elas substituíram Cogna (COGN3), Viva (VIVA3) e LWSA (LWSA3).
Sentimento segue pessimista
O Índice de Sentimento XP caiu para 18 pontos em uma escala de zero a 100, nível que a instituição classifica como pessimista. Ainda assim, o indicador não alcançou patamares historicamente associados a sinais claros de compra. Para a estratégia da XP, o pessimismo elevado, portanto, não é suficiente para afastar os riscos apontados para juros, inflação e lucros em 2027.