Mais de 800 mil pessoas podem ser obrigadas a deixar suas casas na Somália entre outubro e dezembro de 2026, segundo alerta da Organização Internacional para as Migrações (OIM). A previsão considera as fortes chuvas e o transbordamento de rios associados à estação chuvosa sob influência do El Niño, que ameaça comunidades já atingidas por secas e deslocamentos forçados.
Enchentes devem motivar a maioria dos deslocamentos
Projeções da OIM, elaboradas em parceria com o Conselho Dinamarquês para os Refugiados (DRC, na sigla em inglês), indicam que 92% dos deslocamentos previstos para o período de outubro a dezembro serão causados por enchentes. A agência alerta que a chegada da estação chuvosa, com precipitações acima da média, pode agravar os riscos em diferentes áreas do país.
O impacto potencial ocorre em comunidades que já enfrentam secas e ciclos recorrentes de deslocamento. Para parte das pessoas ameaçadas, deixar a própria casa não será uma experiência inédita: o chefe da missão da OIM na Somália, Manuel Marques Pereira, afirmou que muitas já foram deslocadas anteriormente. Ele apontou a necessidade de financiamento para prestar assistência humanitária a essa população.
A projeção de mais de 800 mil pessoas considera o período dos próximos três meses e se refere a quem poderá ser forçado a abandonar sua moradia. O número não significa que todos já tenham sido deslocados. A possibilidade de novas saídas, porém, põe em evidência a pressão sobre comunidades e acampamentos provisórios que já recebem pessoas afetadas por crises anteriores.
Cidades e acampamentos sob pressão
Beletweyne e Gaalkacyo estão entre as cidades com maior risco. A OIM estima que aproximadamente 229 mil pessoas em Beletweyne e 82 mil em Gaalkacyo enfrentem risco iminente de deslocamento. Os números mostram a dimensão da ameaça para moradores dessas localidades, embora a agência não detalhe quantas pessoas efetivamente terão de sair de casa.
As condições nos acampamentos provisórios também preocupam. Segundo a organização, esses locais estão superlotados e não contam com acesso adequado a água potável e saneamento básico. A combinação amplia o risco de surtos de doenças entre pessoas que já podem estar expostas às consequências das enchentes e da falta de serviços essenciais.
As chuvas e inundações podem ainda danificar colheitas, contaminar fontes de água e reduzir o acesso a serviços de saúde. Esses efeitos atingem necessidades distintas ao mesmo tempo: a produção agrícola, a disponibilidade de água segura e a possibilidade de receber atendimento médico. A agência não apresentou estimativas específicas sobre perdas agrícolas ou sobre o número de unidades de saúde que poderiam ser afetadas.
OIM tem menos de um sexto dos recursos necessários
A OIM pediu apoio financeiro à comunidade internacional para responder à emergência. A organização calcula que precisa de US$ 16,62 milhões para implementar as ações relacionadas ao El Niño, mas dispõe de apenas 14,4% desse total. A diferença entre os recursos disponíveis e o valor necessário limita o financiamento previsto para a resposta humanitária.
Além de solicitar recursos, a agência trabalha com autoridades locais para aprimorar sistemas de alerta precoce e identificar rotas seguras de evacuação. O objetivo dessas medidas é apoiar a identificação de riscos e a saída de pessoas de áreas ameaçadas. A preparação ganha importância diante da previsão de chuvas acima da média e do volume de deslocamentos que pode ocorrer no trimestre.
O alerta reúne, assim, dois desafios: reduzir os riscos antes que as enchentes obriguem moradores a deixar suas casas e atender pessoas que já vivem em condições precárias em locais provisórios. Para a OIM, a disponibilidade de financiamento é necessária para colocar em prática as ações previstas, enquanto as autoridades locais colaboram na preparação de alertas e caminhos de evacuação.

