O coordenador residente do Sistema das Nações Unidas no Brasil, Igor Garafulic, defendeu em entrevista em Nova York a criação de mecanismos de governança para a inteligência artificial e o combate à desinformação. Para ele, a circulação de conteúdos falsos e manipulados pode ameaçar a estabilidade política e prejudicar áreas como saúde pública, direitos humanos e preservação ambiental, sobretudo em períodos eleitorais.
Garafulic participou de uma reunião com representantes da ONU em diferentes países. Ele assumiu o cargo em junho, em meio a uma campanha contra notícias falsas, e afirmou que os desafios relacionados à inteligência artificial, às fake news e à governança digital também são enfrentados por outros países.
Governança para a inteligência artificial
O coordenador disse que a governança da inteligência artificial é um tema global e citou conversas com colegas que atuam na Etiópia e no Mali. Segundo ele, o secretário-geral da ONU também defendeu que a tecnologia precisa ser governada, em vez de ficar sujeita a uma espécie de autorregulação.
Garafulic afirmou que estabelecer regras não significa necessariamente impor restrições ou controlar a tecnologia. Na avaliação dele, é preciso discutir limites e responsabilidades diante da velocidade das mudanças e da dificuldade de prever seus efeitos.
O representante da ONU mencionou ainda uma plataforma da organização dedicada ao debate, que reúne líderes de 101 países, segundo o número que citou na entrevista. Ele disse que a participação de governos permite tratar de uma questão que afeta diferentes sociedades e requer coordenação internacional.
No Brasil, a ONU lançou conteúdos educativos sobre pensamento crítico e responsabilidade no ambiente digital. A iniciativa integra a resposta à desinformação, que, segundo o material divulgado pela organização, pode gerar prejuízos de até US$ 510 bilhões por ano.
Plataformas, segurança e democracia
A atuação da ONU inclui propostas para ampliar a responsabilização das plataformas digitais. Entre as frentes citadas estão a transparência dos algoritmos e a redução de mecanismos que podem ampliar a polarização e a disseminação de informações falsas.
Outro eixo é a segurança cibernética. O trabalho prevê monitorar vulnerabilidades em infraestruturas digitais e oferecer apoio técnico aos Estados-membros para reduzir riscos de ataques e de ransomware, modalidade de crime digital em que criminosos exigem pagamento para liberar dados ou sistemas.
A organização também pretende apoiar a alfabetização mediática, que envolve desenvolver a capacidade de avaliar conteúdos e fontes de informação. A proteção de jornalistas e defensores dos direitos humanos contra campanhas digitais de difamação faz parte dessa frente, voltada ao fortalecimento das instituições democráticas.
A ONU lançou os Princípios Globais para a Integridade da Informação, iniciativa que busca promover ambientes de mídia e redes digitais mais seguros e transparentes, comprometidos com fatos. Garafulic afirmou que a disseminação de conteúdos falsos pode corroer a confiança nas instituições e atrasar a agenda climática.
Prioridades da parceria no Brasil
Garafulic apontou a cooperação entre o Sistema ONU e o governo brasileiro como essencial para enfrentar os desafios digitais. Também destacou a participação do Brasil nas discussões sobre governança digital no Sul Global. Para ele, combater a desinformação e proteger o espaço democrático são condições necessárias para avançar nos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável.
A agenda da ONU no país inclui ainda ação climática e transição justa, com apoio à preservação dos biomas brasileiros, especialmente a Amazônia. A organização afirma que busca conciliar desenvolvimento econômico e justiça socioambiental.
Outras prioridades mencionadas são a redução das desigualdades e a inclusão social. O trabalho abrange a coordenação de políticas públicas relacionadas à erradicação da fome, à igualdade racial e de gênero e ao atendimento de populações em situação de vulnerabilidade.
A parceria também prevê mobilizar investimentos e cooperação técnica para a transição energética e o desenvolvimento tecnológico sustentável. Na avaliação de Garafulic, a resposta aos desafios geopolíticos e digitais reforça a importância do multilateralismo e da coordenação entre países, com respeito aos direitos fundamentais, à soberania e à integridade da informação.