COP30: Reflexões Após As Negociações em Belém

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A Conferência do Clima COP30, realizada em Belém, trouxe à tona debates acalorados e resultados que, segundo muitos especialistas, podem ser considerados “diluição de compromissos”. No entanto, há nuances que complicam essa narrativa. A Dra. Champa Patel, diretora executiva de Governos e Política do Climate Group, lembrou que rotular a COP30 como uma decepção pode ser uma simplificação excessiva—é mais um reflexo de um cenário complexo.
Desafios e Expectativas: O Cenário da COP30
Um dos pontos centrais que influenciaram a percepção do evento foram as expectativas inflacionadas em relação ao que poderia ser alcançado sob a presidência brasileira. Após a insatisfação com a COP29, muitos depositaram esperanças que talvez não fossem realistas, especialmente considerando o atual contexto geopolítico. Os EUA, por exemplo, não participaram devido a sua retirada do Acordo de Paris, e países como Argentina e algumas nações europeias adotaram posturas abertamente contrárias a iniciativas climáticas.
Além disso, mesmo após um ano da COP29, a falta de clareza sobre o compromisso em direcionar US$ 300 bilhões anuais para ação climática em países em desenvolvimento até 2035 continuava a ser uma questão sem resposta. Com uma necessidade real de US$ 1,3 trilhão por ano, as nações desenvolvidas haviam se comprometido em Baku a alcançar essa nova meta, o que gerou imensas expectativas para a COP30. Contudo, as questões operacionais permaneciam sem solução.
Questões Pendentes
Pontos fundamentais que ainda precisam ser abordados incluem:
- A responsabilidade de financiar essas iniciativas deve recair apenas sobre países desenvolvidos?
- Devemos estabelecer um fundo maior, com participação de múltiplos países?
O Acordo de Paris, que previa US$ 100 bilhões para apoiar países em desenvolvimento, muitas vezes priorizou a mitigação em detrimento das necessidades de adaptação e reparação. Assim, a nova meta, estabelecida no Azerbaijão, tornou-se uma fonte de controvérsias, com um valor considerado modesto por muitos países em desenvolvimento.
Os negociações a respeito do novo compromisso foram difíceis, e segundo a Dra. Patel, “houve muita barganha”, principalmente nas discussões sobre adaptação climática.
Novos Caminhos: A Revolução dos Roteiros Climáticos
Um destaque significativo da COP30 foi o pedido do presidente Lula por roteiros para a transição energética. Esse apelo rapidamente se tornou um dos principais focos do evento, com mais de 80 países, empresas e organizações da sociedade civil se unindo a essa iniciativa. Apesar de não ter sido incorporado ao texto final das negociações, a proposta conhecido como Plano Belém na Colômbia gerou um impulso notável.
Dra. Patel observa que “levou 28 COPs para que um texto final mencionasse combustíveis fósseis”. E, apenas dois anos depois, estamos discutindo roteiros—um avanço impressionante em um espaço temporal reduzido.
O Que São Roteiros Climáticos?
Os roteiros climáticos são planos estratégicos que visam:
- Definir metas claras para reduzir emissões de carbono.
- Envolver diferentes setores da sociedade na transição energética.
- Concertar ações de governos nacionais e subnacionais.
Por exemplo, a Califórnia e Quebec estão implementando mercados de carbono enquanto Querétaro, no México, adota impostos para poluidores. Essas iniciativas mostram que ações práticas podem ocorrer em níveis mais baixos de governo, onde muitas vezes há maior flexibilidade e capacidade de inovação.
A Sociedade Civil e a Ação Climática
Um aspecto que não pode ser subestimado é a mobilização da sociedade civil, observada com força durante a COP30. Apesar de um ambiente de segurança intensa, a presença de ativistas, especialmente aqueles de comunidades indígenas, foi notável. Dra. Patel enfatiza que essa mobilização coletiva, unindo negócios, sociedade civil e governos, foi uma força poderosa em Belém—uma mudança em relação aos eventos anteriores que pareciam mais apáticos.
Entretanto, o formato de negociações que predominou na COP30—focado em reuniões bilaterais e em pequenos grupos—levou a uma falta de transparência. A acessibilidade a sessões plenárias foi limitada, dificultando um contraste positivo como o do evento em Glasgow, onde o diálogo aberto permitiu uma maior participação e escrutínio.
Adaptação Climática: Um Passo em Falso
Durante a COP30, novos indicadores para adaptação foram adotados, mas muitos os consideraram apressados e desarticulados. A realidade é que, mesmo que indicadores de alta qualidade sejam criados, o financiamento necessário frequentemente não acompanha as promessas feitas. A lacuna entre a necessidade de investimento e o que é disponibilizado continua a ser um desafio crítico.
O Futuro das Negociações Climáticas
Com a presidência da COP31 dividida entre a Turquia e a Austrália, estamos diante de um formato sem precedentes e com implicações potencialmente complexas. Enquanto isso, o desafio de garantir que as políticas e compromissos sejam acionáveis e sustentáveis permanece. As Contribuições Nacionalmente Determinadas (NDCs) precisam ser acompanhadas de ações concretas, ou seja, os roteiros devem ser integrados ao cotidiano das pessoas e empresas, permitindo um avanço real na luta contra a mudança climática.
Dra. Patel conclui afirmando que “a energia da sociedade civil e a ação local são fundamentais.” Se 80% da implementação das políticas climáticas acontecerem em níveis locais, é imperativo que haja um fluxo de recursos que permita a esses governos efetivar suas ambições.
Olhando Para o Futuro
A COP30 se destacou não apenas pela discussão de questões importantes, mas pelo potencial transformador que pode surgir das interações entre governos, empresas e a sociedade civil. À medida que avançamos, é crucial que continuemos a dialogar e a colaborar, garantindo que as ações climáticas sejam não apenas um compromisso, mas uma realidade.
Com isso, cabe a nós refletir sobre as lições aprendidas em Belém e ponderar como podemos nos envolver mais ativamente neste desafio global. O futuro do nosso planeta depende das escolhas que fazemos hoje — e cada um de nós tem um papel a desempenhar nessa jornada.


